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CAPÍTULO 1

— Olá, linda. Serve-me outra cerveja. 

Um dos turistas foleiros do Tennessee tem uma expressão insinuante na cara bonita que me dá vontade de revirar os olhos, mas controlo-me. Veio até ao bar com o seu grupo de amigos para assistirem a jogos de futebol universitário nesta tarde de sábado e são barulhentos. Irritantes. Não param de me lançar olhares. Porque é que são todos iguais, engatatões até à exaustão? 

Preciso de amealhar o máximo possível de gorjetas, por isso sorrio-lhe brevemente. 

— É para já! 

Vou até ao balcão, onde o Doug, o dono deste estabelecimento requintado, já pousou uma garrafa gelada pronta a ser servida. Sorrio-lhe como forma de agradecimento e ele retribui-me com um aceno de cabeça. Pouso a garrafa no tabuleiro e dirijo-me à mesa dos três estudantes universitários bonitões. Estão focados no jogo que passa na televisão, um deles solta uma enxurrada de palavrões quando um remate da sua equipa é defendido. 

— Apostei muito dinheiro neste jogo — murmura o que me pediu uma cerveja, olhando para o telemóvel. Consigo perceber que é um daqueles rapazes que faz apostas online. 

Coloco a cerveja mesmo à sua frente, garantindo que me baixo o suficiente para lhe mostrar um vislumbre do meu peito, destapado pela T-shirt decotada. Tudo pelas gorjetas. 

"É Desta Que Leio Isto"

"É Desta Que Leio Isto" é um grupo de leitura promovido pela MadreMedia. Lançado em maio de 2020, foi criado com o propósito de incentivar a leitura e a discussão à volta dos livros.

Já folheámos as páginas de livros de autores como Luís Sepúlveda, George Orwell, José Saramago, Dulce Maria Cardoso, Harper Lee, Valter Hugo Mãe, Gabriel García Marquez, Vladimir Nabokov, Afonso Reis Cabral, Philip Roth, Chimamanda Ngozi Adichie, Jonathan Franzen, Isabel Lucas, Milan Kundera, Joan Didion, Eça de Queiroz e Patricia Highsmith, sempre com a presença de convidados especiais que nos ajudam à discussão, interpretação, troca de ideias e, sobretudo, proporcionam boas conversas.

Ao longo da história do nosso clube, já tivemos o privilégio de contar nomes como Teolinda Gersão, Afonso Cruz, Tânia Ganho, Filipe Melo e Juan Cavia, Kalaf Epalanga, Maria do Rosário Pedreira, Inês Maria Meneses, José Luís Peixoto, João Tordo e Álvaro Laborinho Lúcio, que falaram sobre as suas ou outras obras.

Para além dos encontros mensais para discussão de obras literárias, o clube conta com um grupo no Facebook, com mais de 2500 membros, que visa fomentar a troca de ideias à volta dos livros, dos seus autores e da escrita e histórias que nos apaixonam.

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Dois deles reparam, olhando fixamente. Tão típico. 

— Obrigado — balbucia o terceiro ao reparar finalmente em mim. 

— Precisam de mais alguma coisa? — Lanço um olhar à televisão e percebo que o jogo está quase a terminar. Isso significa que devem estar prestes a ir embora, e espero bem que me deem uma recompensação de jeito. Mas são bastante jovens, provavelmente não têm muito dinheiro para esbanjar, apesar da ideia que os seus colarinhos aprumados e relógios prateados transmitem. 

— Não, obrigado — diz um deles, indiferente. Deduzo que as mamas perdem todo o encanto assim que a rapariga que as exibe começa a falar. 

Deixo-os e regresso ao balcão, pousando o tabuleiro com demasiado estrondo. O Doug junta-se a mim, estalando a língua como faz sempre quando está prestes a reclamar. 

— Isto está muito parado hoje. 

Anuindo, dou uma vista de olhos ao espaço, reparando nas mesas vazias. Uns quantos clientes habituais sentam-se na outra ponta do balcão, beberricando enquanto veem o jogo. Não que se importem com o que passa na televisão, estão cá todos os dias, quer faça chuva ou sol, quer haja jogo ou não. Tenho dificuldade em imaginar como será viver assim, a arrastar-me para o bar manhoso do costume dia após dia. É deprimente. 

Apesar da fraca clientela, continuo uma pilha de nervos, a tentar ganhar coragem para dizer ao Doug que este será o meu último dia aqui no bar. De uma forma geral, costumo achar que só me deu este emprego por pena, mas, mesmo assim, não me agrada deixá-lo desamparado. Tenho muitos defeitos, porém, ser desleal não é um deles. Nunca me pude dar ao luxo de o ser. 

— Como está a tua mãe? — A compaixão no tom de voz do Doug é notória. Há muitos anos, quando eu ainda era criança, foram namorados. Nessa altura, ela ainda vivia como um adulto normal e funcional, ao contrário do seu estado caótico atual. O Doug entrou nas nossas vidas e preocupava-se comigo, algo que não acontecera com os outros namorados da minha mãe. Tratava-me como se fosse meu pai. Enchia-me de mimos e presentes, mas nunca de uma forma negativa. Na realidade, mostrava que se preocupava genuinamente comigo. 

Isto até a minha mãe estragar tudo e o acusar de traição. O Doug não é nenhum traidor; a sua única relação extraconjugal é com este bar. Tem de trabalhar constantemente para conseguir pagar todas as despesas, e não contrata muito pessoal. Quando, há um ano, desesperada por trabalho, falei com ele, o Doug aceitou contratar-me, ainda que com alguma relutância e apesar de, na altura, eu ter só dezassete anos. Tecnicamente, não tenho idade para trabalhar num bar. 

O ordenado é pago por fora, o que também me dá mais jeito. 

— Tem estado bem — minto. 

É mais fácil do que dizer-lhe a verdade e admitir que a minha mãe está numa fase complicada, que surgiu uma oportunidade para iniciar o processo de reabilitação e que não sou capaz de a recusar, mesmo que isso implique que tenho de largar tudo e mudar-me para o outro lado do mundo. Por muito que tente, não consigo evitar acreditar que desta vez será definitivo. Desta vez, ela vai ficar melhor. Ser melhor. 

O Doug perscruta-me com o olhar, não deixando de me fitar. É demasiado bom a ler-me; sempre foi. Fico com vontade de estremecer, mas aguento-me firme. 

— Tens a certeza? — Sim, tenho. — A minha voz é estável, porém, ele está com ar de quem me quer contrariar. 

Quando a porta bate, a tensão quebra-se e ambos olhamos para a entrada do bar. Os estudantes universitários foram-se embora, deixando a mesa imunda e algumas notas ensopadas de bebida. 

Livro: "Mil Mentiras Perfeitas"

Autor: Monica Murphy

Editora: Marcador

Data de lançamento: agosto de 2026

Preço: € 18,90

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Tento livrar-me da deceção que ameaça engolir-me e viro-me de novo para o Doug, mas acho que, já que há desilusão para dar e vender, mais vale partilhá-la. Esboço um sorriso luminoso e avanço de cabeça. 

— Olha, Doug, não sei bem como te dizer isto, mas... preciso de me ausentar em viagem durante uns meses. Vais ter de encontrar alguém que me substitua. 

Ele lança-me um olhar esperançoso, desejando que eu tenha decidido ir embora de vez. Odeia a minha vida quase tanto quanto eu. O seu tom de voz atesta esse interesse. 

— Durante uns meses? Para onde vais? 

Se ele fosse qualquer outra pessoa, dir-lhe-ia para se meter na sua vida. 

— Hum, vou ver o Peter. 

O Doug arqueia as sobrancelhas. 

— A sério? 

Anuo, tendo plena consciência de quão absurdo aquilo soa. Por que raio haveria eu de atravessar o oceano para passar tempo com o dador de esperma que me abandonou, a mi e à minha mãe? Sendo honesta, o Doug tem sido uma figura paternal mais significativa do que o Peter alguma vez foi. 

— Ele diz que gostava que nos déssemos melhor. 

Mentira. Tudo mentira. 

A verdade? O Peter Vale está com problemas e pensa que sou a única pessoa capaz de os resolver. Em troca de ajuda, exigi que pusesse a minha mãe na reabilitação. É a única desculpa que tenho para ajudar um homem que não só nunca me deu nada, como ativamente me roubou coisas. Porque se não fosse por ele, a minha mãe nunca se teria perdido no fundo de uma garrafa. 

Ele deve-lhe isto. Ele deve-me isto. 

E o Peter concordou, ainda que com requisitos. Discutimos os termos do acordo vezes sem conta como dois advogados, não como parentes de sangue a tentar fazer as pazes. Por fim, concordou com as minhas duas condições obrigatórias: a mãe dava entrada na reabilitação e a nossa renda ficava paga durante os próximos três meses. Ele tratou de tudo. Agora tenho de partir. Esta noite. 

Lançando um olhar ao bar, o Doug saca do seu maço de cigarros não tão secretamente escondido debaixo do balcão e acende um, inalando uma longa passa e expulsando o fumo. 

— Tens a certeza de que não te estão a passar a perna? — Quem? O Peter? Provavelmente, mas estou a fazer-lhe o mesmo. — Não, desta vez ele precisa de mim. — Bom, de qualquer forma, tem cuidado. Não te saiu mesmo a sorte grande na lotaria parental. — A opinião que o Doug tem dos meus pais não é a melhor, e eu compreendo-o. — Sempre quis algo melhor para ti, Billie. Talvez ires embora seja pelo melhor, sabes? Desde que não acabes num sítio pior do que este. 

Esboço um pequeno sorriso. 

— Não te preocupes comigo. Tenho tudo controlado. Vai correr bem. — Hum-hum. — Puxa o cinzeiro e bate com o cigarro na beira, manchando o recipiente branco lascado com a cinza. — Mas... tem cuidado, Billie. Tenho a sensação de que ninguém se está a preocupar devidamente contigo. 

E ninguém está, quero dizer-lhe. Contudo, aceno brevemente e levo os braços atrás das costas, desapertando o avental preto que uso quando estou a trabalhar. 

— Tenho de ir andando. — Acabaste de me contar e já te vais embora? — A dor na sua voz quase me faz desabar. O Doug não tem por hábito ser sentimental; com ele é tudo à base de sarcasmo e bebidas à pressão. Está com um ar de quem quer dizer mais alguma coisa, mas não sabe como o fazer. 

Levo a mão ao nariz, rodo a pequena argola do meu piercing e finjo não notar. Fingir ajuda-nos a ambos. 

— Não é como se não tivesses mãos a medir. — Gesticulo para o bar, praticamente vazio, e, de seguida, vou buscar a minha mala às traseiras, atirando o avental para o cesto da roupa suja pela última vez. Quase falho, e a peça fica num limbo, quase como eu: em parte, no interior, em parte, para fora, sem saber bem onde pertence. 

Logo de seguida, o Doug entra pelas portas de vaivém. 

— Tenho de te pagar — diz, com um tom brusco. 

Avança até ao pequeno cofre que guarda junto à secretária velha e periclitante, digitando o código e abrindo-o com um clique. Não demora até estar outra vez à minha frente, estendendo-me um molho de notas. 

— Isso parece-me dinheiro a mais... — começo, mas ele quase mo espeta na cara, fazendo-me calar. — Leva-o, Billie. Não é como se eu tivesse onde o gastar. — Que tal na renda? — A tentação de agarrar no dinheiro e fugir dali é gigante. É garantidamente mais do que ganhei na última semana. 

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