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CAPÍTULO 1
— Olá, linda. Serve-me outra cerveja.
Um dos turistas foleiros do Tennessee tem uma expressão insinuante na cara bonita que me dá vontade de revirar os olhos, mas controlo-me. Veio até ao bar com o seu grupo de amigos para assistirem a jogos de futebol universitário nesta tarde de sábado e são barulhentos. Irritantes. Não param de me lançar olhares. Porque é que são todos iguais, engatatões até à exaustão?
Preciso de amealhar o máximo possível de gorjetas, por isso sorrio-lhe brevemente.
— É para já!
Vou até ao balcão, onde o Doug, o dono deste estabelecimento requintado, já pousou uma garrafa gelada pronta a ser servida. Sorrio-lhe como forma de agradecimento e ele retribui-me com um aceno de cabeça. Pouso a garrafa no tabuleiro e dirijo-me à mesa dos três estudantes universitários bonitões. Estão focados no jogo que passa na televisão, um deles solta uma enxurrada de palavrões quando um remate da sua equipa é defendido.
— Apostei muito dinheiro neste jogo — murmura o que me pediu uma cerveja, olhando para o telemóvel. Consigo perceber que é um daqueles rapazes que faz apostas online.
Coloco a cerveja mesmo à sua frente, garantindo que me baixo o suficiente para lhe mostrar um vislumbre do meu peito, destapado pela T-shirt decotada. Tudo pelas gorjetas.
Dois deles reparam, olhando fixamente. Tão típico.
— Obrigado — balbucia o terceiro ao reparar finalmente em mim.
— Precisam de mais alguma coisa? — Lanço um olhar à televisão e percebo que o jogo está quase a terminar. Isso significa que devem estar prestes a ir embora, e espero bem que me deem uma recompensação de jeito. Mas são bastante jovens, provavelmente não têm muito dinheiro para esbanjar, apesar da ideia que os seus colarinhos aprumados e relógios prateados transmitem.
— Não, obrigado — diz um deles, indiferente. Deduzo que as mamas perdem todo o encanto assim que a rapariga que as exibe começa a falar.
Deixo-os e regresso ao balcão, pousando o tabuleiro com demasiado estrondo. O Doug junta-se a mim, estalando a língua como faz sempre quando está prestes a reclamar.
— Isto está muito parado hoje.
Anuindo, dou uma vista de olhos ao espaço, reparando nas mesas vazias. Uns quantos clientes habituais sentam-se na outra ponta do balcão, beberricando enquanto veem o jogo. Não que se importem com o que passa na televisão, estão cá todos os dias, quer faça chuva ou sol, quer haja jogo ou não. Tenho dificuldade em imaginar como será viver assim, a arrastar-me para o bar manhoso do costume dia após dia. É deprimente.
Apesar da fraca clientela, continuo uma pilha de nervos, a tentar ganhar coragem para dizer ao Doug que este será o meu último dia aqui no bar. De uma forma geral, costumo achar que só me deu este emprego por pena, mas, mesmo assim, não me agrada deixá-lo desamparado. Tenho muitos defeitos, porém, ser desleal não é um deles. Nunca me pude dar ao luxo de o ser.
— Como está a tua mãe? — A compaixão no tom de voz do Doug é notória. Há muitos anos, quando eu ainda era criança, foram namorados. Nessa altura, ela ainda vivia como um adulto normal e funcional, ao contrário do seu estado caótico atual. O Doug entrou nas nossas vidas e preocupava-se comigo, algo que não acontecera com os outros namorados da minha mãe. Tratava-me como se fosse meu pai. Enchia-me de mimos e presentes, mas nunca de uma forma negativa. Na realidade, mostrava que se preocupava genuinamente comigo.
Isto até a minha mãe estragar tudo e o acusar de traição. O Doug não é nenhum traidor; a sua única relação extraconjugal é com este bar. Tem de trabalhar constantemente para conseguir pagar todas as despesas, e não contrata muito pessoal. Quando, há um ano, desesperada por trabalho, falei com ele, o Doug aceitou contratar-me, ainda que com alguma relutância e apesar de, na altura, eu ter só dezassete anos. Tecnicamente, não tenho idade para trabalhar num bar.
O ordenado é pago por fora, o que também me dá mais jeito.
— Tem estado bem — minto.
É mais fácil do que dizer-lhe a verdade e admitir que a minha mãe está numa fase complicada, que surgiu uma oportunidade para iniciar o processo de reabilitação e que não sou capaz de a recusar, mesmo que isso implique que tenho de largar tudo e mudar-me para o outro lado do mundo. Por muito que tente, não consigo evitar acreditar que desta vez será definitivo. Desta vez, ela vai ficar melhor. Ser melhor.
O Doug perscruta-me com o olhar, não deixando de me fitar. É demasiado bom a ler-me; sempre foi. Fico com vontade de estremecer, mas aguento-me firme.
— Tens a certeza? — Sim, tenho. — A minha voz é estável, porém, ele está com ar de quem me quer contrariar.
Quando a porta bate, a tensão quebra-se e ambos olhamos para a entrada do bar. Os estudantes universitários foram-se embora, deixando a mesa imunda e algumas notas ensopadas de bebida.
Tento livrar-me da deceção que ameaça engolir-me e viro-me de novo para o Doug, mas acho que, já que há desilusão para dar e vender, mais vale partilhá-la. Esboço um sorriso luminoso e avanço de cabeça.
— Olha, Doug, não sei bem como te dizer isto, mas... preciso de me ausentar em viagem durante uns meses. Vais ter de encontrar alguém que me substitua.
Ele lança-me um olhar esperançoso, desejando que eu tenha decidido ir embora de vez. Odeia a minha vida quase tanto quanto eu. O seu tom de voz atesta esse interesse.
— Durante uns meses? Para onde vais?
Se ele fosse qualquer outra pessoa, dir-lhe-ia para se meter na sua vida.
— Hum, vou ver o Peter.
O Doug arqueia as sobrancelhas.
— A sério?
Anuo, tendo plena consciência de quão absurdo aquilo soa. Por que raio haveria eu de atravessar o oceano para passar tempo com o dador de esperma que me abandonou, a mi e à minha mãe? Sendo honesta, o Doug tem sido uma figura paternal mais significativa do que o Peter alguma vez foi.
— Ele diz que gostava que nos déssemos melhor.
Mentira. Tudo mentira.
A verdade? O Peter Vale está com problemas e pensa que sou a única pessoa capaz de os resolver. Em troca de ajuda, exigi que pusesse a minha mãe na reabilitação. É a única desculpa que tenho para ajudar um homem que não só nunca me deu nada, como ativamente me roubou coisas. Porque se não fosse por ele, a minha mãe nunca se teria perdido no fundo de uma garrafa.
Ele deve-lhe isto. Ele deve-me isto.
E o Peter concordou, ainda que com requisitos. Discutimos os termos do acordo vezes sem conta como dois advogados, não como parentes de sangue a tentar fazer as pazes. Por fim, concordou com as minhas duas condições obrigatórias: a mãe dava entrada na reabilitação e a nossa renda ficava paga durante os próximos três meses. Ele tratou de tudo. Agora tenho de partir. Esta noite.
Lançando um olhar ao bar, o Doug saca do seu maço de cigarros não tão secretamente escondido debaixo do balcão e acende um, inalando uma longa passa e expulsando o fumo.
— Tens a certeza de que não te estão a passar a perna? — Quem? O Peter? Provavelmente, mas estou a fazer-lhe o mesmo. — Não, desta vez ele precisa de mim. — Bom, de qualquer forma, tem cuidado. Não te saiu mesmo a sorte grande na lotaria parental. — A opinião que o Doug tem dos meus pais não é a melhor, e eu compreendo-o. — Sempre quis algo melhor para ti, Billie. Talvez ires embora seja pelo melhor, sabes? Desde que não acabes num sítio pior do que este.
Esboço um pequeno sorriso.
— Não te preocupes comigo. Tenho tudo controlado. Vai correr bem. — Hum-hum. — Puxa o cinzeiro e bate com o cigarro na beira, manchando o recipiente branco lascado com a cinza. — Mas... tem cuidado, Billie. Tenho a sensação de que ninguém se está a preocupar devidamente contigo.
E ninguém está, quero dizer-lhe. Contudo, aceno brevemente e levo os braços atrás das costas, desapertando o avental preto que uso quando estou a trabalhar.
— Tenho de ir andando. — Acabaste de me contar e já te vais embora? — A dor na sua voz quase me faz desabar. O Doug não tem por hábito ser sentimental; com ele é tudo à base de sarcasmo e bebidas à pressão. Está com um ar de quem quer dizer mais alguma coisa, mas não sabe como o fazer.
Levo a mão ao nariz, rodo a pequena argola do meu piercing e finjo não notar. Fingir ajuda-nos a ambos.
— Não é como se não tivesses mãos a medir. — Gesticulo para o bar, praticamente vazio, e, de seguida, vou buscar a minha mala às traseiras, atirando o avental para o cesto da roupa suja pela última vez. Quase falho, e a peça fica num limbo, quase como eu: em parte, no interior, em parte, para fora, sem saber bem onde pertence.
Logo de seguida, o Doug entra pelas portas de vaivém.
— Tenho de te pagar — diz, com um tom brusco.
Avança até ao pequeno cofre que guarda junto à secretária velha e periclitante, digitando o código e abrindo-o com um clique. Não demora até estar outra vez à minha frente, estendendo-me um molho de notas.
— Isso parece-me dinheiro a mais... — começo, mas ele quase mo espeta na cara, fazendo-me calar. — Leva-o, Billie. Não é como se eu tivesse onde o gastar. — Que tal na renda? — A tentação de agarrar no dinheiro e fugir dali é gigante. É garantidamente mais do que ganhei na última semana.
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