Lauryn Hill trouxe a família, o MEO Kalorama trouxe as gerações

O segundo dia do MEO Kalorama foi uma noite de encontros: entre África e América do Sul, hip-hop e rock, Chelas e Nova Iorque e, finalmente, uma mãe, os seus filhos e o legado de uma família. Lauryn Hill encerrou a noite ao lado de Zion e YG Marley, numa celebração de gerações.
Lauryn Hill trouxe a família, o MEO Kalorama trouxe as gerações
Meiline Silva | MadreMedia

Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt

Ao entrar no Parque da Bela Vista, há uma diferença óbvia que distingue o MEO Kalorama da maioria dos festivais de verão em Portugal sem ser preciso ouvir uma única música. Basta olhar para as pessoas. Em comparação com festivais como o Rock in Rio e o Nos Alive, há poucas purpurinas, chapéus de cowboy e lenços na cabeça.

Visualmente, as pessoas parecem estar ali porque querem ouvir os artistas que estão no palco, e não apenas para tirar fotografias ou fazer stories para o Instagram. Ninguém veio em modo Coachella.

Talvez seja precisamente essa uma das coisas mais interessantes do Kalorama: num verão cheio de festivais onde os nomes mais comerciais parecem ser muitas vezes o principal critério, há aqui espaço para quem gosta genuinamente de música e para artistas que fogem aos circuitos mais óbvios. Há espaço para outros nichos, para outros géneros e para outras formas de ouvir.

A lusofonia de Criolo, Amaro e Dino

Essa ideia começa a fazer sentido ainda antes de a noite começar. Ao fim da tarde, no palco Sagres, Criolo, Amaro Freitas e Dino D'Santiago juntam-se num projeto que parece feito para provar que a música não precisa de dividir fronteiras, mas sim uni-las.

Os ritmos passam de África para a América do Sul, entre o batuque de Cabo Verde e o funk do Brasil. Simultaneamente, o piano de Amaro Freitas dá ao concerto uma dimensão jazzística que se cruza com a voz de Criolo. É um final de tarde tranquilo, relaxante e repleto das chamadas "boas vibrações".

Criolo tem uma daquelas vozes características, com uma espécie de jazz natural, e o bom som do palco Sagres permite que ela chegue ao público sem esforço. Amaro Freitas, sentado ao piano, é outro dos grandes responsáveis pela musicalidade do concerto, enquanto Dino D'Santiago entra na mistura com a sua voz melódica e segura. No projeto "Criolo, Amaro e Dino", os três parecem ter encontrado um espaço comum, apesar de virem de universos diferentes.

Quando Criolo canta "Não Existe Amor em SP", uma das músicas mais conhecidas do artista brasileiro, o público reconhece imediatamente os primeiros acordes, mas nem esse é um daqueles momentos em que o recinto se transforma numa floresta de ecrãs. Há poucos telemóveis no ar. Em 2026, é quase uma raridade.

A determinada altura, Dino conta que foi Criolo quem lhe deu coragem para se tornar no artista a solo que hoje conhecemos como Dino D'Santiago. A frase acrescenta outra camada àquele encontro: já não são apenas três artistas a dividir um palco, mas três músicos que também carregam consigo as influências, os incentivos e as oportunidades que receberam dos outros. É uma ideia que acabará por atravessar toda a noite, embora naquele momento ninguém saiba ainda até onde ela vai chegar.

A América que revolta Vince Staples

Vince Staples aparece depois, no palco MEO, para mudar o ritmo da Bela Vista. Aqui, o público é mais jovem. O rapper norte-americano mistura hip-hop com influências de rock e mantém uma energia constante, mas não deixa que a música fique separada daquilo que quer dizer.

Há mensagens políticas ao longo do concerto e, num dos momentos mais explícitos, surge no ecrã um desenho animado de um bebé loiro a chorar, com uma fralda com a bandeira norte-americana, numa referência a Donald Trump. Depois de uma música sobre brutalidade policial, Vince Staples pergunta quem já foi aos Estados Unidos e quem gostaria de ir.

"Façam barulho se odeiam a América", lança ao público, antes de acrescentar, perante a reação: "Eu sabia que teríamos algo em comum". A interação mantém-se ao longo do concerto e a energia também.

Vince Staples no MEO Kalorama
Vince Staples no MEO Kalorama créditos: Meiline Silva | MadreMedia

Sam the Kid, a pisar "este solo" desde 1979

É com Sam The Kid que a noite começa a aproximar-se de casa. "Boa noite, Chelas, bem-vindos", diz logo no início, e não há forma mais direta de explicar a relação entre o artista e aquele lugar. No palco estão os Orelha Negra e uma orquestra, e diante deles está um público que atravessa pelo menos duas gerações. Há millennials e elementos da Gen-Z a cantar as mesmas músicas, embora nem todos tenham chegado até elas da mesma maneira.

Para mim, há uma viagem no tempo inevitável. Como terá acontecido com mais jovens na casa dos vintes, cresci a ouvir aquelas músicas em pen-drives do meu irmão, dez anos mais velho. É interessante vê-las tocadas diante de uma geração que também as reclama como suas.

A orquestra acrescenta outra dimensão às canções, sobretudo em "Sofia", uma das mais populares da noite, mas é Sam The Kid quem continua a comandar a atenção. É um dos grandes contadores de histórias da música portuguesa e tem a capacidade rara de fazer um recinto inteiro ficar quieto para o ouvir.

Perto de mim, uma jovem tenta explicar precisamente isso a quem está ao lado. "O mais incrível do Sam The Kid é que, se ouvires uma música dele, mesmo cantada por outro artista, sabes que é dele. Porque não o reconheces pela voz, mas pela forma como escreve." É uma boa definição de alguém cuja identidade artística está menos no timbre do que nas palavras.

O legado de Ms. Lauryn Hill

Quando Ms. Lauryn Hill finalmente entra em palco, já depois da meia-noite, não há necessidade de explicar a dimensão do momento. É por ela que grande parte daquele público esperou e a cantora entra com a energia que se esperava, começando por recuperar músicas dos Fugees. É uma forma eficaz de acordar um recinto que, apesar da hora, não precisava propriamente de ser acordado. Todos tinham vindo para a ver.

Aos 50 anos, Lauryn Hill continua a ter uma voz com um poder difícil de descrever. É música na sua forma mais pura. O timbre é imediatamente reconhecível e o flow nova-iorquino continua a aparecer com a mesma força.

O palco também está à altura: músicos, bailarinos e coro acompanham a cantora e transformam as canções através de novos arranjos. "Ex-Factor" recebe um enorme aplauso e torna evidente aquilo que se torna cada vez mais difícil de ignorar à medida que o concerto avança: há vozes bonitas, há vozes tecnicamente impressionantes e há vozes que são simplesmente únicas. A de Lauryn Hill pertence a essa última categoria.

A determinada altura, a cantora deixa de estar sozinha no centro daquela história. Apresenta o filho Zion Marley após cantar "To Zion", uma música que ganha um significado diferente quando o filho que lhe deu o nome está ali diante do público. Zion traz consigo, inevitavelmente, a memória do avô Bob Marley, uma herança que se torna ainda mais evidente quando canta "Three Little Birds".

Pouco depois, Lauryn apresenta o filho do meio, YG Marley, que entra em palco mais tímido, quase envergonhado, mas rapidamente conquista o público. O seu timbre é diferente do do irmão, menos roots e mais contemporâneo, e "Praise Jah in the Moonlight" mostra por que razão já conseguiu construir uma identidade própria.

O momento mais bonito acontece, porém, quando YG Marley divide o palco com a mãe para cantar "Turn Your Lights Down Low", uma música do avô. É difícil imaginar uma representação mais literal da ideia de herança que percorreu aquela noite. No palco estão três gerações de uma família ligada à música, com uma canção que atravessou décadas a passar de uma geração para a seguinte.

É também nestes momentos que se percebe a diferença entre ouvir música num disco e vê-la acontecer ao vivo: os arranjos podem mudar, os músicos podem acrescentar coisas novas, mas há sobretudo aquilo que não se consegue gravar — a relação entre as pessoas que estão em palco.

Wyclef Jean, dos Fugees, ainda aparece para cantar "No Woman, No Cry" e "Maria Maria", de Santana, antes de Lauryn Hill regressar ao centro das atenções.

Já era quase duas da manhã quando chega "Killing Me Softly". É impossível não sorrir enquanto se assiste àquele momento, com gratidão. "Ready or Not" vem logo depois e fecha mais uma das partes mais esperadas da noite. Só fica a faltar "Can't Take My Eyes Off of You", uma ausência que alguns fãs certamente levarão consigo para casa.

Lauryn Hill, ainda assim, parece querer fazer daquele concerto uma celebração que vai além da própria carreira. Fala várias vezes com o público, arrisca algumas palavras em português e mostra-se grata e próxima, enquanto dá espaço aos filhos, com toda a ternura de uma mãe, e aos antigos companheiros dos Fugees. No público, há quem reconheça esse gesto e há também quem queira mais da cantora.

"Gostei muito; só queria mais ela", diz uma espectadora. É uma reação difícil de contestar: quando se tem Lauryn Hill à frente, é natural querer mais Lauryn Hill.

Mas talvez essa vontade seja também o melhor resumo da noite. Porque o segundo dia do Kalorama acabou por ser menos sobre a ideia de assistir a uma sucessão de grandes concertos e mais sobre aquilo que acontece quando a música passa de uma pessoa para outra. Dino fala da influência que recebeu de Criolo, Sam The Kid vê as suas músicas atravessarem gerações e Lauryn Hill sobe ao palco com os filhos para continuar uma história que começou antes deles nascerem.

__

A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil

Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.

Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.

Veja também

 

Comentários

Entre com a sua conta do Facebook ou registe-se para ver e comentar
mookie1 gd1.mookie1