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Kabeça Orí nasce do prólogo em vídeo Kabeça, que percorre Lisboa homenageando locais que marcam a presença negra na cidade, muitas vezes invisibilizada por narrativas coloniais. O espetáculo traduz para o palco essa cartografia ritual, refletindo sobre a cabeça (o Orí, em Iorubá) não apenas como órgão fisiológico, mas como divindade pessoal e símbolo de resistência.

A cena inicial é sugestiva: duas mulheres caminham entre peças espalhadas no chão, enquanto sons que lembram bolhas preenchem o espaço. À medida que o ritmo cresce, as peças são manipuladas, construindo trajetórias que se cruzam. A primeira frase proferida em palco “Minha cabeça é meu guia”, resume o núcleo conceitual do trabalho: a cabeça como espaço de pensamento, memória e resistência.

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Entre frases impactantes como “Se eu morrer, morrerei a lutar, a resistir e levarei comigo algumas cabeças” e momentos de humor, o espetáculo desafia o público a questionar preconceitos e a refletir sobre apagamentos históricos. A trilha sonora combina berimbau, cuíca e atabaque, instrumentos que carregam significados identitários, reforçando a ligação entre corpo, memória e ancestralidade.

As peças como espinha dorsal

Em entrevista ao 24notícias, Aoaní descreve as peças espalhadas pelo palco como “a espinha dorsal do espetáculo”. As peças funcionam como metáforas visuais e físicas do cérebro, do corpo e da memória, permitindo que a encenação seja tanto ritualística quanto política. A manipulação destes fragmentos reflete a trajetória contínua da diáspora e do encontro entre mulheres negras, numa linguagem teatral única.

"Na vídeo performance, nós fazemos  um percurso, e estas peças também vão criando percursos de diferentes formatos. Há a analogia com ideias que a gente monta e desmonta ao longo da vida. Então, estas peças, que são partes, fragmentos, criam diferentes todos", explica Joyce Souza.

Embora Kabeça Orí tenha origem na vídeo performance, Joyce enfatiza que não se trata de uma adaptação, mas de uma continuidade:

“A vídeo performance situa o percurso, mas poderia acontecer em qualquer cidade. É uma peregrinação, um caminho ritual e de celebração, feita por duas mulheres que se encontram na diáspora".

A junção do que não se separa

Um dos elementos mais marcantes do espetáculo é o equilíbrio entre poesia, política, ancestralidade e humor. Joyce reflete sobre essa integração: “Trazer a política, poesia, ancestralidade, comicidade também… cabe tudo junto, porque tudo acontece em conjunto”. Segundo a atriz, um dos grandes intuitos do espetáculo é trazer a integridade do que não é individual.

"As coisas não se separam. Eu não posso falar de saúde mental, se não falar de política, se não falar de tudo que está à volta".

Aoaní completa com uma vivência concreta: “Nós somos mulheres negras. Estamos habituadas a equilibrar o mundo e a lidar com coisas muito pesadas. Se não levarmos tudo isso com alguma leveza, vamos morrer. E nós recusamos-nos a morrer”.

O resultado é um espetáculo que transita naturalmente entre o peso da história e momentos de leveza e humor, mantendo o público engajado e reflexivo ao mesmo tempo.

Escolhas com significado

A escolha de instrumentos como o berimbau, o atabaque e a cuíca é uma decisão política, estética e simbólica. Emile Pereira, responsável pela percussão, destaca:

“São partes que carregamos no corpo. Não há como contar essa história sem eles”.

"São mais que sons. São instrumentos de evidência", acrescenta Joyce Souza.

O espetáculo chega a Lisboa num contexto político sensível. Aoaní vê a estreia como uma lufada de ar fresco: "O espetáculo foi concebido há quase três anos. E, vir para Lisboa numa altura tão crítica, acho que era para ser. Vivemos um momento em que as pessoas precisam, talvez, de fontes externas para pensar em situações diárias. O espetáculo pode servir para isso, apesar de não ter sido o nosso objetivo ao criar".

Joyce acrescenta que a peça explicita um caminho que sempre existiu, mostrando que a resistência e a memória continuam, independentemente do contexto político.

Kabeça Orí é mais do que uma performance; é uma peregrinação estética e política, que provoca, celebra e ritualiza a memória negra na cidade e no corpo. Entre fragmentos, humor e poesia, Aoaní e Joyce criam uma obra que desafia o público a refletir sobre quem somos, de onde viemos e como mantemos nossa cabeça erguida diante da história e do presente.

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