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Para o exorcismo ficar bem feito o álbum The Mountain deve ser ouvido como quando saíamos da Valentim de Carvalho com os primeiros lançamentos da banda: do início ao fim sem deixar que o algoritmo nos diga o que ouvir de seguida. E, falando em algoritmo, numa altura em que as redes sociais estão cheias de gente que vai para Bali e para a Tailandia redescobrir-se, os Gorillaz voltaram às raízes na Índia e, no regresso, em vez de nos venderem um curso de auto-ajuda, convidaram os amigos e deram-nos um disco que nos vai ajudar a meditar e a convocar o deus de cada um para ultrapassar os problemas de 2026.

A 27 de fevereiro, lançaram o nono álbum de estúdio e desde então que não nos sai dos ouvidos. O álbum lançado pela Kong Records,  e coproduzido por James Ford, que também produziu o mais recente álbum dos Blur, é um projeto profundamente contemplativo que combina música, arte e narrativa em torno da temática da vida, morte e espiritualidade. Esse triângulo virtuoso não acontece apenas enquanto concepção artística, mas sim enquanto necessidade. É um álbum que sai das entranhas dos músicos e isso nota-se.

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O álbum nasce durante uma viagem à Índia, depois de Damon Albarn ter perdido a mãe e, dez dias depois, o pai de Jamie Hewlett ter morrido. Perante essa montanha chamada luto, que tinham que atravessar, os dois amigos deram as mãos, o resto da banda deu-lhes colo, chamaram os personagens 2D Murdoc, Noodle e Russel Hobbs, e seguiram o difícil caminho do luto: exploraram sem medo a vida e a morte.

E como o luto não se ultrapassa sozinho, convidaram outros músicos de estilos diferentes, porque durante esse processo num dia também nos sentimos mais hip-hop e noutro mais eletrónico. Em comum, além da perda e da vertigem de sentimentos, há sempre a influência da música indiana e daquilo que nos transcende.

Assim, o ecletismo The Mountain surpreende-nos a cada música sem saber o que ou quem se seguirá e em que língua. Do punk dos IDLES ao rock de Johnny Marr, a viagem pela montanha não é em linha reta e desconcerta-nos com o aparecimento de instrumentos tradicionais indianos no meio do som eletrónico a que os Gorillaz nos habituaram.

Mas desengane-se quem acreditar que este vai ser um álbum inteiramente melancólico, sombrio e instrospetivo como na música The Hardest Thing, também há momentos alegres e frenéticos como em todas as fases de superação, exemplo disso são The Moon Cave, Damascus, The Happy Dictator e Orange County. E se é de luto que se fala, a banda britânica homenageia alguns dos seus heróis com colaborações póstumas com Bobby Womack, Dennis Hopper, Proof, Mark E. Smith e Tony Allen, que vão pontuando a sua presença entre os convidados vivos: Anoushka Shankar, Ajay Prasanna, Amaan e Ayaan Ali Bangash, Asha Bhosle, Asha Puthli, Black Thought, Johnny Marr, Trueno, Yasiin Bey, Sparks, Joe Talbot (IDLES) e Paul Simonon.

Há um transe coletivo a que nos convidam de forma muito clara na primeira música The Mountain e do qual nos libertam no fim com The Sad God. A espiritualidade e a esperança vão pautando em Damascus, com influências árabes e participação de Yasiin Bey. The Shadowy Light, com Asha Bhosle, fecha a experiência com uma reflexão sobre o pós-vida, evocando a travessia espiritual e a busca por moksha, o estado de libertação final na tradição hindu.

Os Gorillaz marcaram o início dos anos 2000 - até aos dias de hoje - também por fazerem acompanhar a experiência auditiva de um forte estimulo visual. Em The Mountain, Jamie Hewlett, afasta-se dos cenários apocalípticos típicos dos Gorillaz e adotou aquarelas suaves, céus indianos pálidos, figuras dissolvendo-se na luz e natureza como reflexo da introspecção da dupla. Uma curta-metragem, The Mountain, The Moon Cave, and The Sad God, acompanha o álbum, reforçando a experiência audiovisual e espiritual.

A digressão The Mountain Tour inicia a 21 de março de 2026 pelo Reino Unido e Irlanda, com destaque para o show principal a 20 de junho no Tottenham Hotspur Stadium, em Londres. Apesar de ainda não haver datas confirmadas na Índia, a forte referência à cultura e música do país sugere que um concerto indiano será natural na sequência do lançamento.

Lançamento: 27 de fevereiro de 2026
Gravadora: Kong Records (primeiro álbum independente do grupo em 26 anos)
Álbum: 9º estúdio
Duração: 1h06min
Idiomas: Inglês, Espanhol, Árabe, Hindi, Yoruba
Colaborações: Ajay Prasanna, Amaan e Ayaan Ali Bangash, Anoushka Shankar, Asha Bhosle, Asha Puthli, Bizarrap, Black Thought, Johnny Marr, Trueno, Yasiin Bey, Sparks, Joe Talbot (IDLES), Paul Simonon, além de participações póstumas de Bobby Womack, Dennis Hopper, Mark E. Smith, Tony Allen, Proof (D12) e outros.

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