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Sentados nas bancadas do Coliseu dos Recreios, a contemplar o palco que em breve os receberá, os Ganso refletem sobre uma década de música e evolução.
“Mudaram os membros”, começa Miguel Barreira, lembrando o primeiro grande concerto da banda, a abrir para Os Mutantes no antigo Armazém F.
“Na altura tínhamos só um EP e todos os nossos concertos eram muito curtos”, completa João Sala. “Era meia hora a esticar as músicas, e se fosse preciso tocar quarenta minutos, tínhamos de inventar ali coisas e não tocávamos muito bem. Tínhamos a atitude necessária, mas a execução não era tão boa como é hoje.”, conta ao 24notícias.
Gonçalo Bicudo resume o espírito atual da banda: “O processo está mais refinado, mas a atitude continua lá. Acho que é a melhor maneira de definir”.
Mas a história dos Ganso começou ainda mais atrás, nos corredores e salas de aula de diferentes escolas lisboetas. “Nós andámos todos na mesma escola. Quer dizer, o Diogo não andou, mas da formação inicial éramos todos da mesma escola, de anos diferentes, alguns até do mesmo ano”, recorda João.
Entre amigos que já tocavam em bandas na adolescência, surgiu a vontade de criar algo em conjunto. “Eram uns jovens que queriam ter uma banda e, sabíamos que este tocava isto, este tocava aquilo, bora juntar-nos, bora fazer músicas”, acrescenta.
Um festival humanitário da escola, quando tinham cerca de 15 anos, foi palco da primeira experiência de cada um. “Foi o meu primeiro concerto de sempre”, lembra Gonçalo, enquanto João acrescenta, entre risos que a sua estreia foi com um rap original criado com um colega. É neste contexto de curiosidade, amizade e diversão que os Ganso começaram a dar os primeiros passos que, uma década depois, os trariam ao Coliseu dos Recreios.
A evolução do som: do indie rock à experimentação eclética
Ao longo de uma década, os Ganso foram moldando um som que se reinventa a cada álbum. “O nosso som muda muito de álbum para álbum. Se calhar agora estamos numa fase mais rockeira”, assume João. Miguel acrescenta que a diversidade de influências esteve sempre presente: “Durante o processo de criação deste álbum, andávamos a ouvir bastante Beck e Gorillaz”.
As referências internacionais e nacionais cruzam-se em diferentes momentos da carreira. João lembra Post Nebbia, a banda do produtor Carlo Corbellini, que trabalhou nos últimos singles da banda. “Lembro-me que quando fizemos o ‘Não Tarda’, andávamos a ouvir muito hip-pop japonês”, recorda, enquanto Gonçalo acrescenta que no álbum mais recente, Vice Versa, os gostos pessoais se espalharam por diferentes estilos.
Apesar das preferências distintas, Miguel sublinha a coesão do grupo: “Não somos assim tão diferentes. Nós ouvimos um bocadinho de tudo, somos ecléticos. Mas se calhar há umas coisas que uns ouvem, que uns torcem um bocado o nariz.” Para Gonçalo, esta mistura de influências e gostos individuais é parte do charme do som da banda: “Não estamos em espectros completamente diferentes, mas cada um tem uma tendência para uma coisa que os outros não gostam ou não ouvem tanto”.
Um público em renovação: as novas gerações descobrem os Ganso
Com o sucesso do single “Sorte a Minha” (que conta com mais de quatro milhões de audições), especialmente nas redes sociais, como o TikTok, os Ganso começaram a sentir uma renovação no seu público. “Com muita alegria, na verdade. Nos concertos temos verificado isso cada vez mais. Os miúdos e as mães vêm ter connosco. É um ótimo sinal quando o público se renova”, comenta Diogo "Horse" Rodrigues. Miguel acrescenta, em tom bem-humorado: “Estávamos tramados se não se renovasse”, lembrando a necessidade de se conectar com fãs de diferentes idades. João completa: “Era só trintões. Não há nada pior do que fazer um concerto e estares rodeado de millennials. É bom haver uma mistura de gerações”.
“Vice Versa”: uma semana em Paris e muita democracia
Depois da afirmação junto de um público cada vez mais amplo, o álbum "Vice Versa" marcou também um novo capítulo na forma como os Ganso trabalham em estúdio. O disco foi gravado em Paris, com produção de Domingos Coimbra, baixista dos Capitão Fausto e colaborador de longa data da banda. A ligação já vinha de trás: foi ele quem produziu “Sorte a Minha” e “Gino (O Menino Bolha)” e quem acompanha o grupo desde os primeiros passos.
Em Paris, o papel de Anthony Cazade, engenheiro de som que trabalhou recentemente com os Arctic Monkeys e Nick Cave, foi essencial. “Nós se calhar não nos sabíamos orientar muito bem ali…”, admite João, com Gonçalo a interromper: “Nem é muito bem, nós não nos sabíamos orientar de todo”. Ainda assim, a sintonia surgiu naturalmente. “Ele ouviu as músicas e entendeu a nossa linguagem facilmente”.
Já Domingos Coimbra manteve-se presente, não apenas nas decisões artísticas, mas também na gestão de egos. “Esteve sempre a puxar-nos, a resolver problemas, alguns conflitos entre nós”, diz João.
A dinâmica interna da banda faz-se de discussão e consenso. Diogo recorda até “jantares para acalmar os ânimos”, embora ressalve que a regra é outra: “A maior parte das vezes acabamos por conseguir chegar lá com alguma democracia”. Gonçalo confirma: “A democracia funciona nesta banda”. E, quando não funciona, há uma linha vermelha: “Quando alguém não gosta mesmo, mesmo, mesmo, nós tentamos respeitar”, conclui Diogo.
Canções como espelho do presente
Se a democracia interna é uma das bases da banda, o tema acaba por surgir também nas próprias canções. O mais recente single, “Mal Vestido”, assume um tom mais político e reflete inquietações que, segundo João, fazem parte do quotidiano.
“Eu acho que sim”, responde quando questionado sobre a importância de marcar posição no Portugal de hoje. “Mas se calhar a música não é feita com esse objetivo de marcar uma posição. É mais uma análise do que se passa. Como são todas as outras músicas. Tu falas sobre aquilo que te rodeia”.
Para o vocalista, a diferença está no contexto. “Portugal hoje não é o mesmo que há dez anos. E a música fala sobre isso.” O crescimento da extrema-direita é um dos temas que atravessa a reflexão. “Foi rápido e, de certa forma, inesperado”. João recorda-se de conversas que tinha enquanto trabalhava como guia turístico, antes da fundação do partido Chega. “Tinha clientes franceses e em França a extrema-direita já estava muito expressiva. Perguntavam-me: ‘Então e aqui também? Não estão a sentir que isso também está a acontecer?’ E eu dizia sempre: ‘Não, não. Nós tivemos uma ditadura há pouco tempo. Estamos um bocado imunes a isso.’ Isto em 2017. E ainda nem fez dez anos”, conta.
Reinventar o “Vice Versa”
A vontade de olhar para as próprias canções a partir de outro ângulo levou os Ganso, em dezembro, a lançar um EP de remixes do álbum Vice Versa. A ideia partiu de Luís Ricciardi, que não esteve presente na conversa. “Ele achava, e achava bem, que o disco tinha potencial para remixes”, explica João.
O convite foi feito a quatro artistas: Emmy Curl, Femme Falafel, Iguana Garcia e Afonso Sêrro. O resultado surpreendeu a própria banda. “Foi engraçado porque cada um fez uma coisa muito diferente. Já muito diferente das músicas originais, mas diferente entre elas também”, conta João.
Mais do que um exercício estético, o projeto foi também um gesto de afinidade artística. “Só convidámos artistas que faziam sentido, que gostamos e respeitamos.” O EP acabou por confirmar a versatilidade das canções e a abertura dos Ganso a novas leituras do seu próprio universo sonoro.
O Coliseu como marco — e ponto de partida
Com o Coliseu dos Recreios no horizonte, a pergunta impõe-se: é este um ponto de viragem na carreira dos Ganso?
Gonçalo não hesita: “Sim. É para qualquer banda. Sobretudo uma banda que, como nós, já andámos aí a procurar.” O baixista recorda o percurso feito longe dos grandes palcos: concertos em espaços com condições difíceis, cachês reduzidos, obstáculos que fazem parte da vida de quem começa. “Lutámos um bocado contra toda a opressão que uma banda pode enfrentar. E, estar aqui é um privilégio incrível, um marco de que se passaram estes anos todos e estamos cá. Estamos bem. Estamos a evoluir”.
E depois do Coliseu? A resposta, para Diogo, é simples: continuar.
“No fim vai acabar sempre por dar tudo ao mesmo. Nós gostamos de fazer música.” Apesar de ter “a cabeça no Coliseu”, admite que a seguir virá a vontade de compor outra vez, de tocar em cidades onde nunca estiveram, de pisar festivais novos, de conhecer outras pessoas.
Miguel acrescenta uma ambição natural de crescimento: “É continuar a expandir a nossa presença. Seja em palcos maiores em Portugal, seja, quem sabe, um dia tocar fora de Portugal. Já pensámos nisso também”.
Curiosamente, quando se fala de objetivos concretos, João admite que o Coliseu era um deles. Diogo atira, entre o humor e a vertigem: “Agora vem o abismo”. A verdade, reconhecem, é que só depois da noite de 6 de março perceberão o que significa realmente este momento. Para já, há uma certeza que se mantém desde os tempos da escola: fazer mais música.
Uma noite irrepetível
À beira do Coliseu, João promete uma viagem completa. “Vamos percorrer a nossa discografia. Vamos tocar músicas que não tocámos há imenso tempo”. O alinhamento será mais ambicioso do que nunca: perto de duas horas de concerto, o mais longo da história da banda. “Não temos bem ideia exata do tempo, mas vai ser o nosso concerto mais comprido até hoje”.
Miguel levanta o véu sobre uma das surpresas: “Vamos ter convidados”. Entre eles, José Cid, Femme Falafel e Carlo Corbellini.
Gonçalo resume a ambição da noite: “Vai ser um trabalho bem curado.” A ideia não é apenas celebrar um percurso, mas criar uma experiência pensada ao detalhe, onde passado e presente se cruzam. “Acho que toda a gente vai retirar algo especial deste concerto”.
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