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Em 1925, Noël Coward apresentava o seu "humor mordar e intemporal" com "Fallen Angels",  no Globo Theater, em Londres. A peça enfrentou a hostilidade da censura do escritório de Lorde Chamberlain e só obteve licença após a intervenção do próprio Lorde.

Um funcionário do gabinete do Lorde recomendou que a licença fosse negada, sob a alegação de que a moralidade questionável das duas personagens femininas principais "causaria um escândalo excessivo".

O Lorde Chamberlain decidiu contra a opinião do subordinado: "Considero que tudo não passa de uma comédia farsesca tão irreal que, ressalvadas algumas modificações no diálogo, pode ser aprovada".

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A peça, dividida em três atos conta a história de dois casais, Will e Jane e Julia e Fred. Mais precisamente, das duas amigas. Enquanto os maridos saem para jogar golfe, as duas mulheres queixam-se da falta de amor nos casamentos e recordam com entusiasmo um caso amoroso passado, Maurice Duclos. A fantasia francesa que pede como música de fundo "Je t'aime moi non plus", de Brigitte Bardot e Serge Gainsbourg

Mais de 100 anos depois a peça é reinterpretada em Lisboa, no Teatro do Bairro, totalmente em inglês, apresentada pela companhia Lisbon Players, com apoio da POUSIO Arte e Cultura, encenada por Martim Mesquita Guimarães.

A Lisbon Players tem "sabor tipicamente britânico" e os portugueses constituem uma grande parte do seu público, bem como uma proporção considerável dos artistas e do pessoal de bastidores.

Ao 24notícias, o encenador Martim Mesquita Guimarães explica um dos desafios da peça: "Queria muito que o espetáculo começasse como nos anos 20, mas que não fosse datado" e foi um trabalho contínuo para encontrar o "equilíbrio" que "tentaram sempre afinar". Para isso recorreu ao anacronismo, uma mensagem lida num iPhone Pro Max e um jantar de McDonald´s e Maltesers.

No Teatro do Bairro a disposição do espaço privilegia a proximidade entre público e atores fazendo quem assiste sentir-se como se  fizesse parte da história . Se em 1925 um dos motivos para a passagem na censura foi ter sido considerada uma "comédia farsesca irreal", em 2026 parece um espelho da atualidade . Há pontos que podemos sentir em comum com as personagens. Não é preciso estar-se a passar pela mesmo situação para se perceber o momento em que a pessoa se perde de si e se acomoda com alguém que apenas a tolera. É nesse momento que vem à superfície a memória nostálgica de momentos em que havia vivacidade e faísca. Para estas duas mulheres é um caso amoroso.

A peça leva também à reflexão das amizades entre homens e mulheres. O preconceito de que a amizade entre mulheres é mais dramática advém da ideia de que as mulheres falam sobre tudo, do mais superficial ao mais profundo enquanto que a amizade dos homens se fica só pela primeira.

O único disclaimer para este espetáculo é que os atores, todos portugueses, fazem um sotaque britânico perfeito que pode ser difícil de compreender em algumas partes. Mas como explica Martim Mesquita Guimarães "como é o caso de Shakespeare, ou como é o caso, por exemplo, da comédia, do humor britânico, são coisas que muitas vezes, quando são traduzidas, perdem a natureza original". Por isso, foi necessário ensaiar muito o texto, "porque basta uma frase entrar um segundo mais tarde, e já se perdeu o ritmo, a graça, mas o rigor do texto, o rigor físico, as marcações, a fisicalidade, foram coisas muito trabalhadas".

No final fica-se com a sensação que já se passou por um devaneio assim, onde se pode mudar tudo numa noite, com um vestido brilhante e saltos altos. A efemeridade da vida pede um pouco de "Memento mori"  ao som de "I Want To Break Free", dos Queen.

Na sessão de amanhã, 18 de julho, os atores no final da peça vão fazer uma Q&A com o público.

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