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A obesidade continua a ser uma das doenças mais incompreendidas pela sociedade. Apesar de ser reconhecida oficialmente como doença crónica em Portugal desde 2004, muitas pessoas continuam a associá-la exclusivamente aos hábitos alimentares ou à falta de força de vontade, uma ideia que Carlos Oliveira considera errada e prejudicial.

"A maioria das pessoas sabe que a obesidade é uma doença, mas pensa que é uma doença comportamental e que as pessoas são obesas porque querem. E não é assim", afirmou. "É uma doença biológica, essencialmente biológica", acrescentou.

Durante a conversa com Margarida Santos, Carlos Oliveira recordou também a sua experiência pessoal. Antigo praticante de judo e basquetebol, viu a sua vida mudar quando iniciou a carreira como oficial da marinha mercante. A redução da atividade física levou a um aumento progressivo de peso que, anos mais tarde, se traduziu em complicações de saúde.

"Aos 46 anos tive um quadro pré-diabético, apneia do sono e estava com 156 quilos. Nessa altura disse: 'Tenho de pedir ajuda a alguém'", recordou. Depois de recorrer inicialmente a uma banda gástrica, acabou por realizar um bypass gástrico, cirurgia que lhe permitiu controlar a doença.

Para o representante da ADEXO, um dos maiores problemas continua a ser o facto de muitas pessoas não reconhecerem os primeiros sinais da doença e adiarem a procura de ajuda.

"Quando começam a aumentar de peso, se tiverem ajuda, são capazes de controlar a doença e não a deixar evoluir. Não fazendo isso, ela vai evoluir para estágios em que, muitas vezes, a única alternativa é mesmo a cirurgia", alertou.

Outro dos temas centrais do episódio foi a desinformação em torno da obesidade. Carlos Oliveira criticou as mensagens difundidas nas redes sociais e desmistificou uma das ideias mais comuns associadas à perda de peso.

"Está mais do que provado que 'comer menos e mexer mais' não funciona", afirmou. Para o dirigente associativo, as dietas restritivas são igualmente um erro: "As pessoas entendem a dieta como uma solução temporária para perder peso e isso alimenta o efeito ioiô, tornando cada vez mais difícil emagrecer."

A autoestima e o estigma associado à obesidade fizeram também parte da conversa. Segundo Carlos Oliveira, o preconceito continua presente em diferentes contextos da vida quotidiana, desde a família ao mercado de trabalho.

"Há três tipos de estigma: o visual, o social e o da tribo, ligado à família e aos grupos onde a pessoa está inserida", explicou. E sintetizou o problema numa frase que marcou o episódio: "Ninguém culpa um coxo por ser coxo, mas culpa um obeso por ser obeso. És gordo porque queres, és gordo porque não paras de comer."

Margarida Santos sublinhou que este sentimento de culpa acaba por afastar muitas pessoas dos cuidados de saúde. "Enquanto continuarmos a tratar a obesidade como uma escolha e, consequentemente, com muita culpa, vamos continuar a afastar as pessoas do tratamento", afirmou a médica, defendendo uma mudança na forma como a doença é encarada pela sociedade e pelos próprios profissionais de saúde.

A conversa abordou ainda o impacto da obesidade no Serviço Nacional de Saúde. Segundo Carlos Oliveira, existem atualmente 227 doenças e 13 tipos de cancro associados à obesidade, o que representa uma pressão significativa sobre os serviços de saúde. Apesar disso, considera que o investimento continua centrado no tratamento das complicações e não da doença.

"Portugal gasta cerca de 1,2 mil milhões de euros por ano a tratar doenças associadas à obesidade, mas apenas 13 milhões no tratamento da própria obesidade", referiu. "Sabemos que um euro investido no tratamento da obesidade tem um retorno de seis euros."

Na reta final do episódio, Carlos Oliveira deixou um apelo para que as pessoas procurem ajuda médica logo aos primeiros sinais de aumento de peso.

"Quando começarem a ganhar peso sem controlo, peçam logo ajuda. Não tenham vergonha. Vão ter com o médico e digam: 'Estou a ganhar peso e preciso de ajuda'", apelou.

O episódio termina com uma reflexão deixada por Margarida Santos: enquanto a obesidade continuar a ser vista como uma falha individual, persistirão o estigma, os mitos e o atraso no tratamento de uma doença que afeta milhares de portugueses.

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