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ER: Serviço de Urgência foi uma das séries mais influentes da história da televisão, não só pelo impacto cultural e pela longevidade, mas também pela forma como foi construída nos bastidores e pela quantidade de curiosidades associadas à sua produção. Haverá pouca gente que assistisse a televisão nos anos 1990 e no início dos 2000 e não ficasse impressionado logo no primeiro episódio ou viciado mais tarde com os planos acelerados e as câmaras que acompanhavam os personagens.

A série, criada por Michael Crichton - ex-estudante de medicina - estreou em 1994 e terminou em 2009, após 15 temporadas. Tornou-se um fenómeno global, redefinindo o género do drama hospitalar com o seu ritmo intenso, realismo clínico e narrativa centrada nas urgências de um hospital em Chicago. Ao longo dos anos, chegou a reunir audiências na ordem dos dezenas de milhões de espectadores por episódio e influenciou diretamente séries posteriores como Anatomia de Grey e, mais recentemente, produções como The Pitt, onde Noah Wyle voltou ao universo médico.

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Há qualquer coisa em ER que a torna uma série de conforto, daquelas onde regressamos e tudo nos parece familiar e sem ter envelhecido um dia. Talvez por isso - e cavalgando o sucesso de The Pitt - a Netflix traga agora a série de volta, as 15 temporadas voltam a estar disponíveis no streaming já a 9 de junho.

Mais de 30 anos depois, esta série dos anos 1990 surpreende por ainda parecer muito atual. E essa capacidade de resistência ao tempo está diretamente ligada ao facto de ER ter moldado a televisão para aquilo que temos hoje, foi em ER que começaram os episódios muito rápidos, várias histórias médicas e pessoais a decorrer em simultâneo, grande densidade de informação e uma câmara em movimento constante que acompanha os médicos no caos da urgência. Ideia corroborada pelo críticico televisivo Gwilym Mumford que reconhece que essa forma de narrar, fragmentada, rápida e sobrecarregada de informação de ER parece até mais próxima do consumo moderno de televisão do que de outras séries mais antigas.

Ao longo das 15 temporadas, destaca-se por um elenco diverso e por não se centrar num único protagonista, o que era relativamente inovador na televisão da altura. Além disso, conta com participações de vários atores de renome e episódios realizados por figuras inesperadas, como Quentin Tarantino.

ER: Serviço de Urgência tornou-se uma plataforma de lançamento para várias carreiras, especialmente a de George Clooney, que se tornou uma estrela global a partir do papel do pediatra Doug Ross, mas também de nomes como Julianna Margulies, Eriq La Salle, Goran Visnjic e muitos outros. E se hoje lhe associamos nomes incontornáveis e é reconhecida como um dos pilares essenciais da televisão, ER teve uma origem pouco óbvia.

Parto difícil

A ideia começou por ser um guião de Michael Crichton pensado para cinema, mas o projeto acabou por ser recusado nessa forma inicial. Só mais tarde foi adaptado para televisão, com a participação da NBC e da Amblin de Steven Spielberg, transformando-se em série, mas já lá vamos.

E o sucesso foi tal que logo na primeira temporada, a General Electric (GE), empresa-mãe da NBC, interveio diretamente para substituir um equipamento médico fictício no cenário por um aparelho verdadeiro da marca GE. O pedido partiu do então presidente da empresa, Jack Welch, e foi rapidamente concretizado, com o equipamento a ser instalado no set em poucos dias, sem necessidade de destaque narrativo especial. E esta foi apenas a primeira vez que a série usaria equipamento médico real o que se repetiu em várias situações e filmou muitas cenas em Chicago para reforçar autenticidade, enquanto o restante era produzido em estúdio.

Noah Wyle, que interpretou John Carter em ER e hoje é Michael “Robby” Robinavitch em The Pitt, recorda ao Movie Webb que percebeu muito cedo que a série podia tornar-se um enorme sucesso durante a apresentação de excertos do episódio piloto num evento em Nova Iorque. A equipa principal do elenco estava presente (incluindo George Clooney, Anthony Edwards, Eriq La Salle e Sherry Stringfield), e os atores assistiram aos primeiros minutos exibidos ao público.

Segundo Wyle, o público começou por ficar em silêncio absoluto, quase em choque, perante a intensidade e ritmo das imagens, e pouco depois explodiu em aplausos, gritos e entusiasmo. Esse contraste foi interpretado por todos como um sinal claro de que algo muito especial estava a nascer. Anthony Edwards terá reagido no momento dizendo algo como “aqui vamos nós”, antecipando o fenómeno que série viria a ser.

Mas apesar dessa boa reação inicial, o futuro de ER estava longe de estar garantido. A série surgiu de um processo longo e incerto. O conceito original vinha de Michael Crichton, médico de formação e autor de Jurassic Park, que tinha escrito décadas antes um guião chamado ED (Emergency Department) baseado na sua experiência em hospitais universitários. Esse projeto esteve parado durante anos, por ser considerado demasiado técnico, caótico e difícil de adaptar.

Mais tarde, Steven Spielberg interessou-se pelo material. Inicialmente, Michael Crichton pensava em ER como um filme, mas Spielberg percebeu que a força da ideia estava na possibilidade de explorar múltiplos casos clínicos e personagens ao longo do tempo, o que funcionaria muito melhor em formato televisivo. Juntamente com o produtor John Wells, desenvolveram o projeto como um episódio piloto de duas horas, que acabou por ser apresentado a canais como a NBC.

Mesmo assim, a receção inicial da indústria foi fria. Várias cadeias de televisão recusaram o projeto, em parte porque a televisão dos anos 90 era muito mais conservadora, com apenas quatro grandes redes e quem via achava ER “técnica”, demasiado “sombria” e difícil de seguir para audiências generalistas.

Quando a NBC finalmente aceitou produzir o piloto, fê-lo sem grande convicção de que a série fosse continuar para lá disso. Havia ainda outro fator de risco: a estreia de ER coincidiu com outra grande série médica, Chicago Hope, de David E. Kelley, que tinha um elenco mais estabelecido e era vista como a favorita da crítica e da indústria.

O episódio piloto de ER acabou por ser um enorme sucesso inesperado. Estreou em 19 de setembro de 1994 e foi visto por cerca de 23 milhões de pessoas. A partir daí, a série rapidamente ganhou tração e começou a dominar as audiências, especialmente no bloco de programação de quinta-feira à noite da NBC, que na altura era um dos mais competitivos da televisão americana.

Ao longo da primeira temporada e das seguintes, ER não só manteve o público como ultrapassou Chicago Hope, que acabou por não conseguir acompanhar o mesmo nível de impacto cultural e audiência a longo prazo. Enquanto Chicago Hope terminou em 2000, ER continuou durante 15 temporadas, até 2009, tornando-se uma das séries mais duradouras da televisão americana que viria a ser ultrapassada pela primeira vez por Anatomia de Grey.

Saber quando sair

Mais de três décadas depois, não temos dificuldade em dizer que ER é um fenómeno cultural e uma referência pioneira na forma como o drama hospitalar moderno passou a ser feito. Durante 15 temporadas, a série manteve uma relevância constante - ainda que com temporadas mais mornas que outras - tanto pela sua capacidade de retratar situações médicas com rigor técnico como pela intensidade das histórias humanas que apresentava e foi esse equilíbrio que ajudou a definir o seu impacto duradouro na televisão.

Mas a longevidade da série também é explicada pela decisão consciente de encerrar a produção. ER não foi cancelada no sentido tradicional, isto é acabou ao fim de 15 temporadas porque produtores e estúdio optaram por terminar a série enquanto ainda mantinha uma audiência forte, garantindo assim um fecho controlado e intencional para a narrativa, segundo a TV Line.

Ao longo das 15 temporadas há uma preocupação notória em dar unidade e continuidade à narrativa - embora quando revista em modo maratona encontremos alguns plot holes - e isso acontece logo no episódio piloto, onde a narrativa se centra desde cedo na figura do Dr. Greene, tornando-o uma referência importante dentro do hospital e da dinâmica da série. No episódio final, a série volta a fazer uma referência a esse mesmo nome, com a frase “Dr. Greene, are you coming?” que não passa despercebida a ninguém que tenha visto a série toda.

ER está cheia de piscares de olhos e de referências como estas e ali percebemos que nos queriam dizer que nós podíamos deixar de ter acesso às urgências do Chicago County General, mas aqueles médicos iam continuar a receber e a tratar doentes porque, como nos mostraram desde o primeiro episódio, as urgências nunca fecham.

A ultima temporada foi importante e conseguiu reunir todos os protagonistas da primeira temporada, incluindo Anthony Edwards, Noah Wyle, George Clooney, Eriq La Salle, Sherry Stringfield e Julianna Margulies. George Clooney aceitou regressar com a condição de que a sua participação fosse mantida em segredo até à exibição, de forma a surpreender os fãs. Este regresso simbolizou o encerramento completo de um ciclo televisivo raro.

De ER a The Pitt

Noah Wyle, por sua vez, destacou-se como o membro mais constante do elenco original. Foi o último a sair da formação inicial e esteve presente em 13 das 15 temporadas, regressando ainda em participações especiais nas fases finais. Ao lado de Laura Innes, tornou-se um dos rostos mais duradouros da série.

Hoje sabe-se que durante a audição para ER, Noah Wyle estava visivelmente nervoso e desconcentrado, especialmente ao ver outro ator a usar técnicas de relaxamento como tai chi. Foi então que Michael Crichton lhe contou uma história aparentemente sem ligação, sobre uma mulher tibetana que fazia cerâmica há séculos e cujas peças continuavam intactas e úteis. Só mais tarde percebeu o significado real da intervenção, Crichton tinha percebido o seu estado emocional e usou a história como uma forma subtil de o tirar da ansiedade, quebrar o ciclo de nervosismo e ajudá-lo a recentrar-se. Esse gesto acabou por contribuir para uma audição mais sólida e para a conquista do papel que lançaria a sua carreira, de acordo com o TV Line.

Esta omnipresença de Noah Wyle e ligação a Michael Crichton, valeu ao ator e produtor de The Pitt que a viúva de Michael Crichton o processasse alegando que The Pitt violava direitos sobre ER, a produção defende-se como sendo obra original, com elenco, enredos e abordagem distintos.

E se ER e The Pitt são de facto diferentes é impossível não ver o mesmo realismo quase documental com que retratam os hospitais. Ambas as séries mostram a urgência, o caos e a exaustão das urgências hospitalares de forma muito crua e ER fê-lo de forma inovadora, sem evitar mortes de pacientes nem situações moralmente difíceis, o que foi considerado revolucionário para a época.

Mas na estrutura narrativa há uma diferença fulcral, cada episódio de ER combina casos médicos intensos e rápidos com o desenvolvimento das vidas pessoais dos médicos, enfermeiros e estudantes de medicina, saindo frequentemente da urgência. E em The Pitt sentimos a mesma sensação constante de pressão emocional, dentro e fora da sala de emergência, com pouco acesso à vida pessoal dos profissionais de saúde e nunca saímos da urgência.

Tal como The Pitt, ER também teve um compromisso com rigor médico, com médicos reais a aconselhar a produção e até a participar na escrita e validação dos procedimentos. Podemos dizer que Noah Wyle fez o internato em ER e depois tornou-se ainda melhor médico em The Pitt. E, por isso, enquanto não chega a já confirmada terceira temporada de The Pitt, vamos revendo ER.

O regresso e os bastidores

No Acho Que Vais Gostar Disto já fizemos várias maratonas de ER desde o seu fim e podemos dizer com certeza que a série envelheceu bem e nunca nos arrependemos de a revisitar, ainda que haja um contexto e uma realidade que hoje parece distante. ER é longeva no tempo que durou, mas também no tempo que permite ser vista.

Ao longo da produção, ER também viu mudanças importantes de personagens e arcos narrativos: alguns papéis evoluíram de forma inesperada, como Abby, que passou de enfermeira a médica, enquanto outros destinos foram alterados por decisões criativas, como o caso de Carol Hathaway (Julianna Margulies) que chegou a ter uma linha narrativa planeada em que passaria de enfermeira a médica, tendo até sido filmadas cenas onde iniciava a faculdade de medicina. No entanto, Julianna Margulies discordou dessa mudança, defendendo que a personagem tinha orgulho em ser enfermeira e não faria sentido querer deixar essa identidade. Por isso, os produtores abandonaram a ideia e Carol manteve-se enfermeira ao longo da série.

Os bastidores da série estão cheios de histórias menos conhecidas que ajudam a explicar o seu realismo e estilo. O TV Line conta que Alan Alda, veterano de MASH, introduziu ao elenco a prática do “gut check”, uma espécie de sessão de crítica interna onde os atores analisavam detalhadamente as performances uns dos outros. Embora por vezes dura, esta prática ajudava a manter o nível de exigência elevado e contribuía para a sensação de autenticidade que caracterizava a série.

Esse realismo foi reforçado pelas filmagens, muitas vezes intensas e marcadas pelo ritmo acelerado da cidade, o que ajudou a criar uma sensação de autenticidade pouco comum na televisão da altura. Ao longo dos anos, essa abordagem teve um impacto duradouro e acabou por influenciar diretamente outras séries médicas e de drama hospitalar, incluindo Grey’s Anatomy e House.

Esta não é a primeira vez que ER: Serviço de Urgência regressa, seja na televisão tradicional ou no streaming, e por isso sabemos que sempre que isso acontece ER ganha uma nova vida entre aqueles que já a viram e as novas gerações que a descobrem.

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