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Na Feira do Livro de Lisboa há atividades para todas as idades. Enquanto os adultos percorrem os corredores entre novidades editoriais, sessões de autógrafos e debates, um grupo de cerca de 25 crianças prepara-se para viver a Feira de uma forma diferente.
À entrada da Estufa Fria, multiplicam-se os últimos abraços e recomendações dos pais. Mas as despedidas duram pouco. Mochilas às costas, sacos-cama na mão e uma mistura de nervosismo e entusiasmo estampada no rosto, as crianças atravessam os portões e correm para o interior. Algumas chegam acompanhadas por amigos, outras não conhecem ninguém. Em poucos minutos, porém, já trocam nomes, exploram o espaço e começam a formar as primeiras cumplicidades.
É ali que, aos fins de semana, a Feira do Livro se transforma numa espécie de festa do pijama. Destinada a crianças entre os oito e os dez anos, a iniciativa "Acampar com Histórias" combina jogos, atividades ao ar livre, uma noite de campismo e sessões de contos, sempre acompanhadas por monitores e contadores de histórias.
Criada em 2015, a atividade regressou após a interrupção provocada pela pandemia e continua a conquistar participantes. Segundo Ana Tristão, da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL), a procura tem vindo a aumentar de ano para ano.
"Esta iniciativa começou em 2015. Quando comecei a acompanhar percebi que as dinâmicas criadas entre os meninos que participam na actividade e os monitores que com eles passam a noite são as melhores possíveis. Para além disso, a componente do contador de histórias, que cria uma relação muito particular com os miúdos, tem tido uma aceitação incrível", explica.
Depois de uma edição realizada no relvado do Parque Eduardo VII, em pleno recinto da Feira do Livro, regressou à Estufa Fria, espaço que volta agora a acolher as tendas e as aventuras noturnas dos participantes.
O 24notícias acompanhou uma destas noites, na véspera do feriado do Dia de Portugal. Para muitas das crianças presentes, esta é uma oportunidade de viver uma experiência fora da rotina. Uma das mães explica que decidiu inscrever o filho "sobretudo por ser uma iniciativa da Feira do Livro e por haver esta envolvência com as histórias. É uma iniciativa diferente "eles estão num contexto de acampar, num grupo de crianças, com uma animação temática".
Brincar leva a um "conhecimento mais aprofundado sobre si mesmo e sobre o mundo"
Entre gargalhadas e confidências próprias da idade, surgem perguntas lançadas quase em segredo: "Alguma vez gostaste de uma rapariga?" O tema provoca risos embaraçados e respostas apressadas. Ao fundo, ouve-se o chamamento dos pavões que habitam o espaço, uma banda sonora improvável para uma noite passada no coração da cidade.
A observar o grupo, é difícil não reconhecer brincadeiras que atravessam gerações. Sem telemóveis nas mãos e longe dos ecrãs, as crianças ocupam o tempo a inventar jogos e a criar cumplicidades. A noite constrói-se através dessas pequenas experiências que, mais tarde, ficarão guardadas como memórias de infância.
Diversos estudos da National Association for the Education of Young Children (NAEYC) apontam para os benefícios da brincadeira ao ar livre no desenvolvimento infantil. Também uma investigação da Universidade de Aveiro concluiu que as crianças que brincam regularmente em jardins e parques tendem a ser mais comunicativas, autónomas e a apresentar níveis mais elevados de autoestima.
"A criança pode experimentar, resolver problemas, pensar criativamente e cooperar com os outros, adquirindo um conhecimento mais aprofundado sobre si própria e sobre o mundo", refere o estudo.
Mais tarde, já noite cerrada, o grupo dirige-se à Feira do Livro. Em fila, acompanhado pelos monitores, percorre os corredores entre bancas ainda iluminadas. Pelo caminho, as crianças cantam em coro, o famoso "6/7", e agradecem às bancas que contribuíram para o jantar.
Quem passa abranda o passo para observar aquela pequena excursão noturna. Vêem-se sorrisos estampados na cara dos mais velhos e há até quem reconheça as coreografias e queira participar.
“Queremos aproximar, de uma forma muito lúdica, os meninos da leitura”, começa por explicar Ana Tristão. “Estamos realmente convictos de que esta noite acaba por fazer uma diferença na vida destes meninos. A abordagem é fazer com que os livros retornem à vida das famílias, nomeadamente através das próprias crianças, como algo mágico e prazeroso.”
“É sempre mais fácil começar por um contador do que por dar o livro físico. Eles ouvem as histórias e muitas vezes, no dia seguinte de manhã, pedem para ir comprar a história que ouviram na noite anterior”, complementa Isabel Silva, da Câmara das Bibliotecas.
A última paragem da noite acontece numa tenda instalada junto à entrada da Feira. Sentadas de pernas cruzadas no chão, as crianças aguardam pela sessão de contos. O silêncio demora alguns minutos a instalar-se. A excitação acumulada ao longo da noite ainda se faz sentir. Há quem cochiche ao colega do lado, quem observe o espaço ao redor e quem tente adivinhar a história que vai ouvir.
A contadora de histórias Inês Blanco apresenta os livros, exibindo as ilustrações enquanto dá voz às personagens. Com "A Mosca", de Gusti, surgem os primeiros comentários. Já "Todos Fazemos Cocó", de Taro Gomi, arranca gargalhadas generalizadas e alguns sorrisos envergonhados. "Não podemos mudar de assunto?", atira uma das crianças, provocando nova onda de risos entre o grupo.
Segundo dados divulgados pelo Plano Nacional de Leitura e estudos recentes sobre práticas leitoras, "em Portugal cerca de 97% dos alunos do 1.º ciclo e 96% dos "alunos do 2.º ciclo afirmam ler livros", verificando-se uma diminuição para "90,4% no 3.º ciclo e 78,2% no ensino secundário".
Durante a edição de 2025 da conferência Book 2.0, subordinada ao tema “A Reinvenção das Espécies”, inspirada em Darwin e na ideia de adaptação, vários especialistas refletiram sobre o futuro da leitura. Maryanne Wolf, neurocientista cognitiva e psicolinguista da UCLA, destacou que meta-análises recentes mostram de forma consistente que a leitura em papel continua a superar a leitura digital na compreensão de textos. Alertou ainda para a associação entre o excesso de tempo de lazer digital e perdas cognitivas, sobretudo entre crianças.
Para Margarida Gaspar de Matos, o gosto pela leitura nasce muito antes da escola. Ter livros em casa, permitir que as crianças explorem, toquem, "leiam à sua maneira" e associem os livros a momentos positivos é crucial.
Do ponto de vista neuropsicológico, a leitura regular tem um impacto profundo. A psicóloga e neuropsicóloga Luisa Leal sublinha ao 24notícias que o ato de ler ativa várias áreas cerebrais: da linguagem (áreas de Broca e Wernicke, duas regiões fundamentais do cérebro humano relacionadas com a linguagem) ao reconhecimento visual das palavras (associado a outra região do cérebro chamada giro fusiforme), passando pelo hipocampo e pela amígdala, que associam leitura a memória e emoção. Além disso é uma atividade que pode retardar o declínio cognitivo associado à idade e prevenir doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.
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