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Dulce de Souza Gonçalves junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 30 de julho, uma quinta-feira, pelas 21h00. Consigo traz "O Processo", publicado pela Gradiva.
Segundo a autora, a ideia para "O Processo" nasceu de um episódio inesperado da vida da autora. "A narrativa parte de um pedido real e inesperado de um tio meu, conforme está descrito nas primeiras páginas da obra. Ao procurar a resposta que necessitava, mergulhando na Torre do Tombo e no seu processo de preso político, acabei enredada numa história fascinante que ficcionei ligeiramente e transformei num romance", explica ao 24notícias.
A investigação levou-a a cruzar-se com pessoas que inspiraram diferentes personagens e a aprofundar questões relacionadas com a memória da ditadura e das suas consequências. "A obra acabou por ser uma viagem pela memória coletiva, mas, também, uma oportunidade de dar voz aos silêncios da História, mostrando como estes continuam a moldar a nossa herança emocional e a nossa identidade", afirma.
Desde a publicação, a receção por parte dos leitores tem sido, segundo a escritora, uma das maiores surpresas. "Tem sido surpreendente ver como as pessoas de várias gerações, desde as que viveram em ditadura aos jovens adultos que cresceram em liberdade, acolhem a narrativa e se identificam com os dilemas das diferentes personagens", refere.
Dulce de Souza Gonçalves destaca ainda que o romance tem diferentes níveis de leitura. "A obra tem muitas camadas e apercebi-me de que o leitor vai percorrendo a obra com entusiasmo, emoção e surpresa. É gratificante notar que O Processo toca o coração de quem o lê".
Numa época marcada pelo ritmo acelerado e pela presença constante da tecnologia, a autora considera que a leitura continua a desempenhar um papel essencial. "É a nossa oportunidade de carregarmos baterias, não é? De nos desligarmos dos desafios do quotidiano e termos tempo para o ócio, para o sonho, para viver outra vida, para refletir. A leitura oferece-nos tempo. E dá-nos mundo e distância. Baterias, portanto, para seguirmos adiante".
Questionada sobre o livro onde gostaria de viver, Dulce de Souza Gonçalves responde que escolheria uma obra capaz de conduzir a muitas outras. Recorda "Os Livros que Devoraram o Meu Pai", de Afonso Cruz, pela ideia de que "um livro nos pode conduzir a tantos outros", e refere também o gesto de Cervantes ao preservar, através da literatura, os livros mencionados em "D. Quixote". "Escolheria viver num livro que me permitisse, a partir dele, aceder a muitos outros, um livro 'infinito num junco' que me permitisse continuar sempre a navegar de mar em mar", resume.
A participação no clube É Desta Que Leio Isto é encarada pela escritora como uma oportunidade para prolongar a experiência que começa no momento da leitura individual. "Ler é, antes de mais, um ato solitário. Contudo, quando se partilha a nossa leitura e a nossa reflexão numa comunidade, amplificamos a nossa experiência leitora e humana".
Para Dulce de Souza Gonçalves, os clubes de leitura recuperam o espírito das antigas tradições orais e criam espaço para o diálogo num quotidiano cada vez mais acelerado. "Passamos da intimidade com o livro ao entrelaçar de vozes, de perspetivas, ao encontro e à solidariedade. E num mundo em que vivemos sempre apressados, a oportunidade de estar num clube de leitura é, sem dúvida, uma oportunidade para desacelerar, usufruir."
A autora considera ainda que estes encontros representam uma forma de preservar a literatura e a memória. Evocando os "book people" de Ray Bradbury, que memorizavam livros para impedir o seu desaparecimento, conclui: "Um clube do livro é, assim, também uma forma de resistência cultural contra a censura e o esquecimento. Portanto, poderia estar em melhor companhia?".
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Dulce de Souza Gonçalves nasceu em 1973, em Lisboa. Doutorada em Psicologia da Educação, fez um Mestrado em Literatura e Cultura Portuguesa e uma Licenciatura em Estudos Portugueses, tendo frequentado o Instituto de Odivelas na adolescência.
É professora do Ensino Básico e Secundário há 29 anos e fundou a associação sem fins lucrativos Mentes Sorridentes. Recebeu o Prémio Almirante Teixeira da Mota em 2000, foi finalista do Global Teacher Prize em 2018 e ganhou o Global Teacher Award em 2021.
É autora de várias obras no âmbito da literatura infantojuvenil. Em 2024 foi-lhe atribuído o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís pelo romance "O Processo".
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