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A Mulher Selvagem: o nosso poder ancestral
Vou partilhar contigo uma lenda que ouvi:
Nos alvores da humanidade, as mulheres estavam encarregues de proteger e alimentar o fogo sagrado. Reuniam-se em tribos, conventículos ou comunidades em volta de uma fogueira para fazer rituais, dançar, curar e amar. Andavam sempre descalças, cultivavam os seus alimentos e partilhavam-nos. Todas ofereciam o que de melhor sabiam fazer e ajudavam naquilo em que não tinham experiência. Apoiavam-se emocionalmente umas às outras e não se criticavam nem competiam. Adoravam a Lua, a Mãe Terra.
Tinham deusas, no feminino, pois sabiam-se elas próprias deusas na Terra. Eram irmãs, selvagens e poderosas. Livres. Contudo, o seu poder era temido pelos que não compreendiam ou não se permitiam contactar com a sua força e vulnerabilidade. Desta forma, começaram a persegui-las e a tentar dominá-las. E conseguiram, impondo o medo.
Ou assim o julgaram. Porque, desde então, as mulheres, embora possam viver numa sociedade que as limita e domina, continuam a possuir no seu interior aquele poder selvagem e mágico. Por vezes, sentem-no sob a forma de um olhar poderoso ou de um golpe rápido quando são incomodadas, como se uma leoa se apoderasse delas.
Outras vezes desejam tomar banho nuas no mar, ou correr e dançar descalças e livres. Também podem ter necessidade de parar, contemplar a natureza e fundir-se com ela. Também conta a lenda que, um dia, as mulheres despertarão, de facto, já o estão a fazer, e voltarão a ser Mulheres Selvagens. E o mundo vai purificar-se e a harmonia regressar. Então, os homens vão contactar com a sua energia feminina e deixar de a reprimir. E o masculino curar-se-á. E a Mãe Terra voltará a ser um lugar cheio de
paz e amor.
Existe uma Mulher Selvagem dentro de todas as mulheres.
Há quem a chame «mulher medicina» e quem a chame «bruxa», «feiticeira», «xamã» ou «loba». É a nossa sabedoria ancestral, a força do feminino sagrado, o saber que todas partilhamos.
Talvez não saibamos o que lhe chamar, mas podemos, certamente, senti-la.
Ela habita o nosso interior, mas muitas de nós já a esqueceram.
Porquê? Porque tivemos de guardar em segredo o nosso poder e recorrer a ele apenas em lugares seguros, dado que ao longo da
história fomos perseguidas, magoadas, maltratadas e até queimadas em fogueiras por pessoas que não nos souberam respeitar.
Pessoas que tinham medo de nós.
A caça às bruxas demonstra particularmente bem como fomos perseguidas. Se te informaste sobre este tema, saberás que as bruxas eram mulheres poderosas que não aceitavam as imposições do patriarcado. Não viviam da forma que era esperada pela sociedade, algo que, como é óbvio, não agradava a quem cobiçava o poder. Conheciam os segredos da Mãe Terra e do Pai Universo. Cultivavam plantas medicinais e usavam-nas para fazer poções curativas. Ajudavam os bebés a vir ao mundo e guardavam os segredos que as estrelas encerravam.
Os animais aproximavam-se delas e eram respeitados. Eram Mulheres Selvagens, não o que a Santa Inquisição dizia que eram. Também não eram as velhas feias com verrugas no nariz dos contos. Talvez hoje no-las continuem a mostrar sempre como más para que nos esqueçamos de que somos todas um bocadinho bruxas.
As mulheres poderosas foram perseguidas e exterminadas para pôr fim à sua sabedoria. Desta forma, foi possível implementar
um mundo masculino baseado na razão, no domínio e na exploração de tudo o que é feminino, das mulheres à Mãe Terra. Este domínio continua até hoje e o que nos faz continuar a ser crianças feridas e nos custe tanto resgatar a nossa Mulher Selvagem.
Mas, irmã, chegou a altura de ouvires o chamamento, esse uivo ou rugido selvagem que vive dentro de ti. Chegou o momento de voltarmos a ser uma tribo, de dançarmos e cantarmos, de fazermos rituais, de sermos poderosas e, até, mágicas. Chegou o momento de despertar e deixar de reprimir a mulher que estamos destinadas a ser.
E como é uma Mulher Selvagem? Eu gosto de a definir como aquela mulher que caminha direita, com passos firmes e a cabeça erguida. Ela sabe para onde vai e, quando se sente perdida, não tem nenhum problema em reconhecê-lo e pedir ajuda.
Honra e valoriza as outras mulheres que encontrar, pois são irmãs. E não só, também respeita e fala de igual para igual com os homens e com qualquer ser vivo. Não se acobarda nem se sente inferior, nem, tão-pouco, superior. Entende que o mundo e todos os seus habitantes formam um todo em que tudo está relacionado, e que, se não se respeitar uma peça, todo o castelo pode ruir.
Sabe que o equilíbrio é fundamental para a harmonia vital. Por isso, a Mulher Selvagem vive para cuidar e ser cuidada, para ser livre e dar liberdade, para respeitar e ser respeitada.
Fala e age com bondade, mas sem renunciar à sua força e ao seu poder. Sabe que é poderosa, mas também vulnerável, o que não significa fraqueza. É preciso ser muito forte para acolher a vulnerabilidade e nos expormos a situações que nos podem ferir.
Ainda assim, ela confia, com inteligência e cuidado, e mostra quem é, com todo o esplendor e sombra, com toda a autenti-
cidade, sem defesas nem barreiras.
É uma mulher que sente e compreende, intui e raciocina.
Está ligada ao seu corpo, mente e espiritualidade, pois tudo é compatível dentro do seu ser. Cultiva tudo de que necessita para se sentir plena, sem vergonha do que poderão dizer. Quando lhe apetece, move o corpo com a sua sexualidade sagrada, não luta contra ele, pois ele não nasceu para que ninguém o admirasse. O seu corpo foi criado para ela: para desfrutar, gozar, abraçar, beijar, acariciar, correr, exprimir.
Outras vezes, prefere parar e refletir, e fá-lo prestando atenção a outras formas de ver a vida, lendo e experimentando, para que possa, enfim, escolher o que mais lhe convenha, sem magoar os outros pelo caminho, mas sem se submeter aos dogmas que lhe tentam impor. Cultiva a espiritualidade e a razão: num dia, poderá ser vista a estudar Matemática ou Filosofia e, no outro, a consultar um oráculo ou um tarot.
É espírito, carne e mente ao mesmo tempo. A Mulher Selvagem também é aprendiz, mas nem por isso deixa de ser mestra, mestra da sua própria vida. Aprende com todos. Escuta e observa. E, com cada experiência, decide o que deseja fazer. Não se rende nem procura uma vida ideal, cria uma vida real.
A Mulher Selvagem chama-nos do interior de todas nós. Também te está a chamar a ti. Por vezes, sussurra, e o que experiencias é um ligeiro mal-estar. Algumas vezes, grita, e sentes raiva, tristeza ou ansiedade. Outras, canta, e, então, sentes um desejo incontrolável de dançar, de ser livre e brilhar.
Seja como for, tens de a deixar sair, porque, quando vives como uma Mulher Selvagem, como a Mulher Selvagem que és, sentes-te plena. No próximo capítulo, vou falar mais disso, mas antes vou explicar-te o que é uma tribo, pois, tal como referi no início do livro, a Mulher Selvagem faz parte de uma e a criança ferida consegue curar-se com uma comunidade sã.
Não te preocupes, no próximo capítulo vou ensinar-te estratégias concretas para despertares a Mulher Selvagem que te habita.
A importância da tribo
A lenda das Mulheres Selvagens começa por referir que elas se reuniam numa tribo, conventículo ou comunidade em redor
de uma fogueira para fazerem rituais, dançarem, curar e amarem.
Uma tribo é um grupo de pessoas que nos dão apoio e abrigo.
O vínculo que origina entre os seus membros torna-a num lugar seguro onde podemos ir recuperar quando já não aguentamos mais, onde encontramos palavras de alívio e consolo, e onde podemos ser, simplesmente, nós mesmas. Também é um lugar para crescer. As pessoas que fazem parte dela, que a formam, praticam o que chamo «amor consciente», cujas bases são a liberdade e o respeito. Por conseguinte, quando encontramos a nossa tribo, sentimo-nos apoiadas, mas não acorrentadas. Nela, ninguém nos pede que sejamos como os outros nem que pensemos da mesma maneira. Também não nos manipulam. O que fazem é dar-nos asas e ajudar-nos a crescer, seja qual for a direção que queiramos seguir, porque o importante para a tribo é que sejamos nós próprias.
Contudo, esse «sermos nós próprias» e esse «desenvolvimento» não pode ser à custa dos outros. Pertencer a uma tribo acarreta responsabilidades. Se recorres a ela à procura de alívio e esperas receber compreensão e apoio, tens de compreender que outras mulheres farão o mesmo, pelo que também deves ser um refúgio para elas. Para fazeres parte de uma tribo, deves trabalhar os teus impulsos, tentar não atacar nem criticar as tuas irmãs, mesmo que tenham pontos de vista diferentes. Pode haver conflito.
Não há problema, só demonstra que não se estão a submeter umas às outras e que têm o vosso próprio ponto de vista, mas as
coisas têm de ser ditas com amor e respeito. Para pertenceres a uma tribo deves gerir o teu lado agressivo e também as tuas crianças feridas. É que num grupo de pessoas podem abrir-se muitas feridas. Não obstante, por muita dor que sintas e por mais duro que tenha sido o que viveste no passado, fazer os outros pagar por isso não te vai curar, pelo contrário. É teu dever, e parte da tua cura, não magoares as tuas irmãs nem, claro, permitir que te magoem a ti.
A tribo é um espaço de relações saudáveis e isso constrói-se dia após dia. Tens de ter consciência de como tratas as outras pessoas e ter o cuidado de ser sempre motivada pelo amor. Deves cuidar e deixar que cuidem de ti. Deves esforçar-te por ser espontânea e, ao mesmo tempo, respeitosa. Se encontrares a tua tribo, curarás, sem dúvida, a tua alma. Porque, não te esqueças: as feridas que os seres humanos causam só podem ser curadas por outros seres humanos.
Claro que, procurar e construir uma tribo não significa que todas as pessoas que encontres no caminho, sejam mulheres ou homens, vão ser tuas amigas ou te vão apoiar quando precises.
Terás muitas deceções, mas, mesmo assim, vale a pena. Além disso, apesar de ser da opinião que precisamos de espaços só de mulheres, também acho que precisamos de tribos mistas, constituídas por homens selvagens, respeitosos e conscientes. Em cada um destes espaços, vamos desenvolver-nos de forma diferente, e a combinação de ambos dar-nos-á plenitude.
Por fim, quero dizer-te que a tua tribo não tem de ser composta de pessoas que vejas diariamente, nem tens de te restringir exclusivamente a uma comunidade. Podes fazer parte de diferentes tribos em que cultives aspetos diferentes da tua vida, a tribo da cerâmica, do montanhismo, do café de sexta-feira, do desporto, etc. O importante é zelar por elas e crescer com elas. Não te preocupes, no sexto capítulo dar-te-ei ferramentas para encontrares a tua tribo, para a criares e cuidares dela.
Agora que já conheces os princípios básicos para construir uma vida plena, quero acompanhar-te ao penúltimo passo da jornada: despertar a tua Mulher Selvagem e consolidá-la passo a passo.
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