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"Há mulheres que passam a gravidez inteira a ouvir que esta é a melhor fase da sua vida e depois sentem-se culpadas porque não estão felizes ou têm medo." É assim que Margarida Santos começa por introduzir uma conversa com Teresa Reis sobre os principais desafios da saúde mental perinatal.

Teresa Reis, psiquiatra e coordernadora do projeto Matter, explica que a saúde mental perinatal engloba "o período da gravidez e o primeiro ano após o parto", podendo, em alguns casos, estender-se até ao segundo ano de vida da criança.

Segundo a especialista, "não há outra fase que seja tão provável para desenvolver doença mental. E, nas mulheres que já tiveram uma problemática, esta é também uma fase de grande recorrência."
Teresa Reis sublinhou que o tema vai muito além da depressão e da ansiedade. "Estamos a falar de todas as problemáticas. Falamos de perturbação de pânico, trauma psicológico associado ao parto. É muito importante existir uma valorização desta área, que devia ser considerada uma prioridade em termos de intervenção em saúde pública. Não estamos a falar apenas da mulher, estamos também a falar do bebé."

Ao longo da conversa, Margarida Santos destacou que a gravidez continua a ser vista como um período de felicidade obrigatória, ao qual se juntam novas exigências familiares, profissionais e sociais.
Para Teresa Reis, as redes sociais vieram reforçar essa pressão. "O aspeto novo é a comparação. As redes sociais trouxeram esta questão da constante comparação. Aparecem muitas vezes a culpa e o julgamento, associados aos sintomas que a mulher pode ter, e isso vai piorar tudo."

A psiquiatra lembrou ainda que, durante a gravidez, "o cérebro da mulher também muda" e que todas as alterações biológicas, conjugadas com fatores ambientais, tornam esta "uma fase de maior fragilidade para a doença mental".

Quando pedir ajuda?

Nem toda a tristeza ou ansiedade durante a gravidez ou o pós-parto significam doença, mas Teresa Reis deixou claro que há sinais que não devem ser ignorados. "Há aspetos de base como a duração dos sintomas, a intensidade e impacto na funcionalidade", explicou. "Uma coisa é sentir ansiedade pontualmente; outra é sentir ansiedade ao ponto de não conseguir sair de casa."

A perda de prazer nas atividades habituais, o isolamento ou a incapacidade para realizar tarefas do dia a dia são alguns dos sinais de alerta. "Os pensamentos e as ideias negativas são um alerta importante", acrescentou.

A especialista alertou ainda para a tendência de muitas mulheres justificarem estes sintomas apenas com as exigências da maternidade, atrasando o diagnóstico. "Há desculpas para tudo.: 'Não faço porque tenho o bebé pequenino.' E isso vai atrasando um diagnóstico."

Durante o episódio, Teresa Reis distinguiu o chamado baby blues da depressão pós-parto. "O baby blues existe, mas três meses depois já não há baby blues. A duração é muito importante", afirmou. "Pode haver tristeza, mas também alegria. Pode haver alterações do sono. Mas as pessoas com antecedentes de depressão têm uma elevadíssima probabilidade de recorrência no pós-parto."

A psiquiatra explicou que, no programa Matter desenvolvido na Unidade Local de Saúde do Alentejo Central (ULSAC), as equipas acompanham de perto mulheres com fatores de risco, sobretudo quando interromperam a medicação durante a gravidez.

Apesar de existir hoje maior sensibilização para o tema, Teresa Reis considera que o estigma continua profundamente enraizado. "A maior parte das mulheres acompanhadas para apoio emocional não vai às primeiras consultas. Vejo isto todos os dias", afirmou. "Ainda existe imensa vergonha, preconceito. Esta ideia de felicidade e de graciosidade continua muito associada ao período perinatal." Por isso, defendeu uma mudança de paradigma. "Doença mental é uma doença como outra qualquer."

O projeto Matter aposta no rastreio precoce

Para a coordenadora do projeto Matter, "a chave é o rastreio". "É incompreensível que não exista um rastreio estruturado e integrado para a saúde mental quando sabemos que entre 20% e 30% das mulheres podem desenvolver uma problemática de saúde mental."
O projeto, implementado na ULS do Alentejo Central, permite integrar o rastreio da saúde mental na vigilância da gravidez nos cuidados de saúde primários. Depois de o médico ativar o programa, a mulher recebe automaticamente questionários em vários momentos da gravidez e do pós-parto. As respostas permitem estratificar o risco em baixo, intermédio ou elevado, gerando alertas para os profissionais de saúde quando necessário.
"As escalas são de rastreio, não de diagnóstico. O diagnóstico é sempre feito pelo médico", esclareceu Teresa Reis, acrescentando que a plataforma também disponibiliza recomendações clínicas baseadas na evidência científica.

Durante a conversa, Teresa Reis partilhou também a experiência pessoal de uma depressão após o nascimento da filha mais velha, episódio que acabou por motivar o seu percurso na área da saúde mental perinatal.
"Estava num lugar de privilégio e, mesmo assim, diziam-me: 'Isso vai passar.' Houve uma altura em que percebi que aquilo não era normal. A experiência da maternidade não podia ser assim."

A psiquiatra alertou ainda para as consequências que a doença mental pode ter na relação entre mãe e bebé. "Uma mãe deprimida, muitas vezes, não consegue cantar para o bebé, e isso é um aspeto importante para o desenvolvimento da linguagem." Em Portugal, lamentou, continuam a faltar unidades especializadas dedicadas simultaneamente à "mãe-bebé".
No final, deixou um apelo para que a saúde mental perinatal seja entendida como um investimento no futuro. "Se queremos sociedades mais produtivas, física e emocionalmente mais estáveis, a saúde mental tem uma influência importantíssima".

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