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Produtor, DJ e também artista em plena afirmação, Mizzy Miles chega a uma das mais emblemáticas salas do país para celebrar um percurso construído contra a norma. Num panorama onde o produtor foi durante anos remetido para os bastidores, o músico luso-brasileiro ocupa um espaço até agora inexistente em Portugal: o do produtor-artista capaz de unir gerações, estilos e geografias num mesmo projeto.
À conversa com o 24notícias, o artista explica que o concerto "Mizzy Miles and Friends", no Campo Pequeno, assinala não só a estreia em nome próprio nesta sala, como a consolidação do álbum "Fim do Nada", um trabalho que reflete a sua visão de união da música urbana portuguesa com o Brasil e que confirma a força do seu nome enquanto ponto de encontro da cena.
O Mizzy Miles é produtor mas também é artista. Talvez pela primeira vez em Portugal, temos um DJ de hip-hop a conquistar uma sala como o Campo Pequeno. Nos Estados Unidos, já existem há muito tempo figuras como o Metro Boomin ou o DJ Khaled, mas por cá, este “produtor-artista” nunca foi comum. O que é que isso representa para si?
Tudo começou com a minha visão, há anos atrás, quando eu ainda era apenas um estudante do jogo e estava na bancada a olhar para a cena do hip-hop em Portugal. Intrigava-me como é que não existia esta pessoa em quem eu hoje me tornei.
Eu perguntava-me: “Como é que em Portugal não existe o nosso Metro Boomin, o nosso DJ Khaled, o nosso DJ Snake? Onde é que está o produtor-artista que faz um álbum e consegue juntar várias personalidades da música urbana e criar uma compilação, tornando-se uma marca e um vínculo de união?”. Faltava alguém com uma estética sonora mais vincada.
Torna-se muito mais fácil tu correres atrás de um objetivo ou de um caminho quando tu sabes exatamente aquilo que tu queres ser ou fazer, estás a ver? No meu início foi assim, eu olhava e pensava: “Se ninguém está a fazer isto e se este lugar, que não existe, está vazio, então é lá que eu me quero sentar". Todo o meu caminho até hoje foi nessa direção e, graças a Deus, posso dizer que deu certo.
E em que momento é que o Mizzy percebeu que o seu nome tinha força suficiente para ocupar este lugar e fugir daquela ideia tradicional do produtor de bastidores?
Eu acho que foi mesmo desde o começo. Para exercer esta posição, há uma série de coisas necessárias a nível pessoal — personalidade, habilidade social, inteligência emocional… isto tudo tem que existir num mix para se saber lidar com toda a pressão e com tudo aquilo que advém de fazer isto, estás a ver?
Não é fácil, porque nunca houve destaque para o produtor. Normalmente, o produtor é visto como um prestador de serviços. É alguém de quem as editoras precisam. Têm uma marca, que é o artista, arranjam um produtor, e é do tipo, “Chega aí, faz uns beats, toma a tua grana, e tchau”. Cabe ao produtor pensar e planear como é que ele vai sair desse estigma e como é que vai, acima de tudo, criar uma marca e uma personalidade em torno dele. E foi nisso que eu me foquei desde o início.
Foi difícil quebrar essa ideia em Portugal?
Confesso que foi difícil, e é difícil até hoje, mas não foi tão difícil como eu estava à espera, porque como não havia ninguém a fazê-lo, acabei por preencher logo esse lugar desde cedo.
Claro que não foi com uma música ou duas que eu fui ganhando esta posição. Foi com trabalho contínuo e consistente desde 2022 até aqui, com várias músicas que eu fui lançando de ano para ano, que, graças a Deus, se tornaram grandes sucessos e, consequentemente, veio o álbum afirmar todo esse momento.
Olhando para as suas colaborações, uma das coisas mais interessantes é a junção de artistas internacionais com artistas nacionais, como, por exemplo, o Teto com o Slow J, o Ryu The Runner com o Lon3r Johny, o Ivandro com o Wiu, etc. Porquê é que esta ponte “Portugal-Brasil” é tão importante na sua visão artística?
É muito importante porque eu também sou brasileiro, então tenho ambos os sangues a correr-me nas veias. São duas bandeiras que eu amo e me representam e sempre me incomodou a disparidade que existia na cena musical portuguesa e na cena musical brasileira. Tudo o que eles fazem lá, bate aqui. Tudo o que eles fazem, nós consumimos. Mas, aquilo que nós fazemos cá, não chega lá.
Acho que parte de criar os tijolos dessa ponte começa com estas colaborações que, lentamente, passo a passo, vão aproximando ambas as ligas. Ficam-se a conhecer, ficam a conhecer consequentemente mais do país, da cena de cada um e isso é algo que me orgulha. Enche-me o coração perceber que, de alguma maneira, estou a conseguir unir a cena musical do Brasil com a cena musical portuguesa desta forma no meu projeto.
Eu quero cada vez mais aproximar-me de lá porque sinto que a cultura brasileira e aquela minha outra metade chama-me mais. À medida que vou ficando mais velho, vou-me identificando mais com o Brasil.
Quando faz esse processo criativo de junção, sente que os artistas do Brasil sabem quem são os artistas portugueses?
Inicialmente não sabiam, agora já sabem. Há artistas que estão mais atualizados com o que está a passar aqui do que outros. Há uns que não se importam, vivem naquela bolha.
O Brasil é como se fosse um mundo. Por exemplo, o Estado de São Paulo tem 46 milhões de habitantes. Ou seja, há artistas que vivem só ali e fazem uma carreira inteira em São Paulo porque há tanto público para consumir o que eles fazem que está tudo bem. Para eles, o mundo é São Paulo e acabou. Para eles saberem o que está a acontecer aqui, têm de se interessar mesmo.
Algo que vem da ambição do artista brasileiro é tocar na Europa. O “tocar na Europa” é vir a Portugal. Então, quando vêm cá, também querem saber quem é que está a bater. Uma coisa que foi criada ao longo destes três anos, e que eu fui regando através desta minha relação com o Brasil, foi ter-me tornado numa espécie de referência. Quando eles estão aqui, já sabem que o Mizzy é o gajo que faz as conexões e que pode ajudar no terreno com qualquer coisa.
Sei que cresceu a ouvir samba e pagode. Como é que isto moldou a música que faz hoje?
Fez-me ganhar uma boa noção inconsciente de tom e de ritmo. Transporta-me para um lugar bom. É uma música que me deixa feliz, confortável e em paz. Sinto que moldou, de certa forma, a minha personalidade musical. Influenciou a forma como monto uma canção, como faço a direção dos momentos de uma canção, acho que parte muito daí.
Em novembro, lançou um desafio para encontrar um novo talento que vai partilhar o palco consigo no Campo Pequeno. Como é que surgiu esta ideia de encontrar novos produtores?
O “Make It Inside” foi uma ideia que tivemos juntamente com um diretor criativo com quem gosto muito de trabalhar, que é o Gonçalo Afonso. A matriz era ser um plano que fosse win-win — uma maneira diferente de promover o show e que, ao mesmo tempo, conseguisse dar luz a novos talentos e novas personalidades.
Acho que correu exatamente como estávamos à espera ou até melhor. Foi bom ver a quantidade de pessoas que abraçaram a iniciativa e que arriscaram.Sinto que foi uma cena que ajudou toda a gente que arriscou e mandou as suas demos. Se calhar, aqueles que não passaram para as fases seguintes não tiveram o mesmo resultado que quem passou e teve a oportunidade de estar comigo nas lives. Mas, sinto que foi um projeto revolucionário para a cena do hip-hop em Portugal.
Fizemos o nosso próprio programa de talentos underground. Era sempre em direto, quase como se fosse um “The Voice”, só que numa escala muito mais pequena e independente. À fase final, chegaram cinco produtores e cinco rappers. Desses cinco, dois vêm comigo ao Campo Pequeno.
Tivemos 160 inscrições de produtores e 700 de rappers. Escolhi 20 produtores e 20 rappers para virem à live. Para isso, tive que ouvir mais de 700 sons para selecionar 20.
Cada um teve um momento em live comigo e daí saiu um clipe de cada um, que eles publicaram nas suas redes. As votações para a próxima fase eram feitas com base no número de gostos de Instagram e TikTok. Desses 20, passaram então os cinco.
Logo nessas duas semanas de votação, eles tiveram a maior atenção de sempre na carreira deles até o momento. Foi uma cena que ajudou a expandir a marca deles. Conseguiram beber independentemente de quem passou. Se não havia nem sequer um pavimento, já conseguiram meter um cimento no chão.
Na fase final, fizemos um sorteio para formar as duplas — um produtor e um rapper — e pedimos-lhes que fizessem uma música. Saíram duas duplas vencedoras. Uma delas foi a dupla do produtor Lucca Sayão e o rapper Bere.
E também o produtor dollasignsaint e o rapper Vieitos. São dois putos do Norte.
É fixe ver que vieram pessoas do país inteiro, de Norte a Sul. Não me esqueço de um rapaz que veio dos Açores de propósito. Isso deixou-me mesmo feliz. Percebi que estávamos aí.
Sinto que foi um shake que demos na cultura. Quero fazer novamente, mas com muito mais visibilidade. Foi feito de forma independente, de nós para nós. Foi uma cena que veio do nosso bolso. Estou orgulhoso daquilo que foi feito e da maneira que foi feito. Se tivesse tido o apoio de uma mídia grande, isto teria sido nacional mesmo.
Fizemos isto isto tudo sem eu estar “in your face”. Ajudou a gerar mais atenção para o show no Campo Pequeno, e ainda estou a levar e a enaltecer novos talentos comigo. Win-win.
No álbum "Fim do Nada", há uma surpresa — a música “Premium”, com o Agir, em que o Mizzy canta pela primeira vez. Isto foi uma exceção ou é uma coisa que gostava de explorar no futuro?
Não foi uma exceção. Não que eu me vá assumir como cantor, mas é algo que eu gosto muito de fazer. Logo, nos meus futuros projetos, é algo que vai começar a ser normal. Por exemplo, num projeto de dez sons, eu quero ter a minha voz em dois.
Quando lancei a versão deluxe do “Fim do Nada” em dezembro, fiz um som com a Nenny e com a Chelsea Dinorath, em que o refrão é meu. Chama-se “Fora do Normal”.
Há alguma colaboração de sonho que ainda esteja por concretizar?
Cá em Portugal, uma das pessoas com quem eu ainda não tive o prazer de colaborar e espero que aconteça no futuro é o Plutónio.
No Brasil, há artistas com quem eu tenho falado sobre fazer acontecer, mas que não conseguimos estar em estúdio ainda, tipo o Matuê e Veigh. Gostava de trabalhar com o Orochi, também.
Se formos para a América então, nem preciso de falar muito — Drake e Travis Scott.
Quais são as grandes metas e objetivos que tem para a sua carreira?
A utopia máxima é a internacionalização. Como cantar não é o meu core, mas sim produzir, eu sinto que consigo fazer música com qualquer pessoa do mundo. Então, o meu objetivo futuro é começar lentamente, de forma inteligente, a posicionar-me no internacional.
Já tenho umas coisas pensadas e conexões feitas com alguns artistas através das redes, e com quem também já consegui estar pessoalmente. Tenho uns quantos artistas no Reino Unido para trabalhar, em Itália e Amsterdão também. São coisas que quero começar a fazer este ano, pós Campo Pequeno, e focar-me num projeto mais internacional, com colaborações mais internacionais.
Há muitos jovens que começam a produzir sozinhos, em casa, tal como o Mizzy começou. Que conselho é que deixaria a quem olha para si e para o seu percurso como uma inspiração?
Hoje o jogo mudou um pouco em relação ao que era quando eu comecei, há seis ou sete anos atrás. O que eu posso dizer é, primeiramente, muito trabalho. A pessoa tem de querer mesmo. Querer mesmo de verdade. Mais que toda a gente à tua volta. O conselho que eu dou mesmo é foco.
Hoje em dia temos o TikTok para ajudar como ferramenta e as redes. Procura em trabalhar bem a tua marca a nível pessoal. Pensa em como é que podes construir uma personalidade à tua volta que não seja só tipo, “Ya, estou no PC a fazer beats”.
Aprende a vender-te, apresenta-te sempre uma boa imagem, uma boa energia, boa índole, bom coração, sem querer passar por cima de ninguém. Trabalha até chegar a tua vez porque sem isso não acontece.
O meu ego não existe, está sempre de lado porque o importante não é o hoje, é o amanhã e a missão é lá à frente. É preciso ter muita inteligência emocional para lidar com situações menos boas, lidar com pessoas com atitudes menos necessárias. Às vezes a pessoa com quem estamos a trabalhar não está a ser um bom ser humano, mas neste momento precisamos daquela pessoa para chegar ao próximo passo, então está tudo bem. É saber lidar com isso e não desanimar. Não se pode queimar uma ponte por causa de um ego, percebes? Isso é o mais importante.
A porta está lá à frente, não está aqui. É continuar a trabalhar, investir muito, muitas horas, muito YouTube, muitos tutoriais. Está tudo lá.
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