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Há clássicos que se atualizam, outros que resistem. “Filodemo”, de Luís Vaz de Camões, pertence claramente à segunda categoria e é precisamente essa resistência que estrutura a encenação de Pedro Penim. Em cena na Sala Estúdio Valentim de Barros, nos Jardins do Bombarda, em Lisboa, o espetáculo recusa atalhos contemporâneos e propõe um gesto mais exigente: não trazer a peça até nós, mas obrigar-nos a ir até ela.
Escrita no século XVI, provavelmente na juventude de Camões, “Filodemo” é uma comédia pastoril que habita um universo idealizado, povoado por pastores e ninfas, onde os amores se desenrolam entre equívocos, ingenuidade e revelações. À primeira vista, tudo parece distante, quase irremediavelmente anacrónico. Mas é nesse desfasamento que Pedro Penim encontra matéria de trabalho. Em vez de suavizar a estranheza, amplifica-a.
O resultado é um espetáculo que exige escuta e disponibilidade. O português quinhentista não é simplificado, é antes deixado intacto, obrigando o “ouvido contemporâneo” a adaptar-se progressivamente. Há aqui um claro confronto com a “tirania do conforto”, a ideia de que tudo no teatro deve ser imediatamente reconhecível e próximo. Pedro Penim recusa essa lógica e propõe um “movimento de quem está sentado” que se molda ao longo da narrativa.
Esta abordagem marca também uma diferença face a trabalhos anteriores do encenador, como a adaptação da “Farsa de Inês Pereira”. Aqui, a intervenção é mínima. Para além de um prólogo, onde o humor e o sarcasmo abrem caminho à peça e convocam referências como Luís Miguel Cintra, Pedro Penim mantém-se deliberadamente contido, procurando “cumprir a peça” mais do que reinventá-la.
Ao citar Luís Miguel Cintra, “Nada nele remete para o nosso tempo”, a encenação assume a distância como ponto de partida, não como problema. Representar “Filodemo” é, assim, aceitar essa fratura temporal e permitir que ela produza sentido. Ou, como se sugere em cena, deixar que um mundo que já não é o nosso nos desmaterialize.
Mas há também uma dimensão política neste gesto. O diretor fala explicitamente da necessidade de “resgatar Camões” de uma narrativa de portugalidade cristalizada, historicamente apropriada por discursos nacionalistas, nomeadamente durante o Estado Novo. Reencenar “Filodemo” torna-se, nesse sentido, um ato de reapropriação: retirar o autor do pedestal e devolvê-lo à complexidade, à pluralidade de influências e à liberdade criativa.
Estreada originalmente em 1555, em Goa, “Filodemo” regressa agora como objeto teatral pleno, não para ser lido, mas vivido. E talvez seja esse o maior mérito desta encenação: lembrar que o teatro não serve apenas para nos reconhecer, mas também para nos deslocar.
“Filodemo” está em cena até meados de abril em Lisboa, seguindo depois em digressão por Mafra, Gafanha da Nazaré e Matosinhos. Nos primeiros dias de apresentação, a entrada é gratuita, um convite adicional para atravessar séculos e experimentar, sem mediações, a estranheza de um clássico.
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