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Estávamos no pós 25 de Abril, Carlos Paião era um jovem aspirante a médico que sonhava com a música e para quem a Medicina era "só" um plano B. Com Portugal saído de uma ditadura há pouco tempo e com uma sociedade mergulhada em valores profundamente conservadores, o sonho foi questionado. Deveria trocar uma carreira séria e segura pela incerteza da indústria musical?

O filme e a história dizem-nos que o cantor e compositor não viveu com base nas conceções sociais da época e que deixa um legado além da obra discográfica. É um exemplo de determinação e coragem que mostra que os sonhos se alcançam com trabalho, dedicação e, muitas vezes, com decisões difíceis.

Sem desistir da música, participa no Festival da Canção de Ílhavo e consegue o primeiro lugar. A sonhada oportunidade chega através de Mário Martins, produtor da Valentim de Carvalho, e muda a vida de Carlos Paião para sempre. Seguem-se canções atrás de canções, participações no Festival da Canção, uma atuação na Eurovisão e a azáfama típica de quem vive de concertos.

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Estava dado o arranque para uma carreira de sucesso. “Playback”, “Cinderela”, “Pó de Arroz” ou “Vinho Verde” são alguns dos êxitos deixados pelo artista. A obra cinematográfica é também uma visita às criações musicais de Carlos Paião, quase como uma máquina do tempo que nos transporta para as décadas de 70 e de 80.

A carreira foi curta, consequência de uma morte prematura, e o filme revela como a vida e a obra de Carlos Paião foram interrompidas abruptamente, deixando-nos a pensar no que teria a acontecido se o trágico acidente de viação não tivesse ocorrido. O cantor começou a destacar-se no final da década de 70 e morreu em 1988 e, apesar da trajetória profissional breve, deixou uma marca que vai além dos que o acompanharam em vida. As músicas do compositor atravessaram gerações e são cantadas até hoje, quase 40 anos depois do seu desaparecimento.

“Não sei dizer até onde Carlos Paião poderia ter chegado porque o país era diferente do que é hoje, mas se calhar podia ter sido um Elton John”, afirmou Sérgio Graciano, o realizador de “Playback”. Em entrevista ao 24notícias, garantiu que o filme lhe deu a oportunidade de descobrir um “compositor talentosíssimo, muito à frente do seu tempo e que fez uma música pop muito bem construída”.

Também Jorge Esteves, amigo e técnico de som de Carlos Paião, recorda o grande talento do cantor. “Tinha um talento que era uma coisa de outro mundo. O Carlos nasceu realmente para isto, não há dúvidas nenhumas. Ele fazia uma música em cinco minutos, se fosse preciso”, afirmou Jorge Esteves em declarações ao 24notícias.

O técnico de som, que começou a trabalhar com Carlos Paião em 1981, quando o cantor ganhou o Festival da Canção, recorda o caráter do cantor com admiração. “Era muito tímido, apesar de não parecer. Muito amigo do seu amigo, era uma pessoa espetacular. Nem tenho palavras para o descrever”, disse Jorge Esteves.

Sobre a expectativa para o filme, o técnico disse esperar que correspondesse à verdade e que espelhasse a essência do compositor.

A obra cinematográfica mostra que a popularidade do cantor refletiu-se também após a morte. Numa época em que ainda não havia redes sociais, propagou-se a ideia de que Carlos Paião teria sido enterrado vivo. Sem se saber até hoje a origem do mito, o filme vem também desmentir o boato em que muitos ainda acreditam ao revelar que o cantor foi autopsiado.

Além da vida profissional, o filme dá a conhecer as ligações emocionais de Carlos Paião. Filho único, tinha raízes em Ílhavo, distrito de Aveiro, e era na Praia da Costa Nova que encontrava um refúgio. Namorou com uma estudante de Medicina, Zaida Cardoso, com quem casou nas vésperas de viajar para o Festival da Eurovisão, que decorreu na Irlanda, em 1981.

“Playback” foi realizado por Sérgio Graciano e protagonizado por Rafael Ferreira. O elenco conta com nomes como Laura Dutra, Albano Jerónimo, Anabela Moreira, Teresa Faria, Beatriz Brás, Diogo Mesquita ou Guilherme Moura. O guião final do filme foi desenvolvido a partir de conversas com a viúva de Carlos Paião, o atual marido e uma prima de Zaida Cardoso.

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