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Bad Bunny tem várias camadas, assim como a sua música, mas há em todos os estilos e em todas as versões uma linha condutora e chama-se Porto Rico e as suas origens. Essa voz ativa (e ativista) está a levar a causa da ilha ao mundo.
Começou o percurso começou no coro da igreja, mas foi em 2016 que o tema "Diles", na plataforma SoundCloud, lhe deu dimensão mundial. Dez anos depois, está a encher estádios em todo o mundo a cantar em espanhol e a levar o regaetton a um público que fazia gala em desprezá-lo.
O sucesso musical de Bad Bunny é indiscutível mas não se resume a essa área, participou em projetos como Narcos: México, Bullet Train e Caught Stealing, foi wrestler na WWE e recentemente apresentou uma coleção para a Zara.
Mas além da cultura e da criatividade, Bad Bunny destaca-se pelo seu forte perfil ativista, utilizando a sua plataforma para dar voz às lutas sociais, económicas e políticas do seu país, Porto Rico que é um território não incorporado dos Estados Unidos desde 1898. O que faz com que os seus habitantes sejam cidadãos norte-americanos, mas não possam votar nas eleições presidenciais, no fundo Benito Antonio quer alertar o mundo para os problemas de uma ilha que sofre com a exploração económica externa, cortes de fundos federais e uma crise de gentrificação que obriga à deslocação dos locais sem que possa decidir sobre o seu futuro. Questão explicada na canção Lo Que Le Pasó a Hawaii, uma declaração de amor à ilha de Porto Rico que não só enumera os problemas que atravessa, como o medo que siga o caminho do Havai, ilha que se descaracterizou e onde os Havaianos não conseguem viver.
O Acho Que Vais Gostar Disto desta semana debruça-se no lado político do Conejo Malo, mas antes deixa tudo o que é preciso saber antes dos concertos em Lisboa.
- Bad Bunny estreia-se em Portugal com dois concertos esgotados no Estádio da Luz, em Lisboa, nos dias 26 e 27, integrados na digressão mundial Debí Tirar Más Fotos, que celebra as raízes porto-riquenhas e a identidade latina.
- Os concertos estão marcados para as 20h00, com abertura de portas por volta das 17h00, e deverão durar entre duas horas e meia e três horas. A promotora recomenda chegada antecipada devido à elevada afluência. O tempo deverá estar quente, com temperaturas perto dos 30°C, pelo que é aconselhado uso de proteção solar, chapéu e água.
- O acesso ao estádio será sobretudo feito por transportes públicos, com destaque para as estações de metro Colégio Militar/Luz e Alto dos Moinhos, já que o trânsito e estacionamento estarão condicionados. No recinto, não serão permitidos objetos como câmaras profissionais, tripés ou certos itens considerados perigosos.
- O espetáculo deverá seguir o formato da digressão internacional, com cerca de 31 temas, incluindo abertura com “LA MuDANZA” e fecho com “EoO”, e mistura de géneros como reggaeton, salsa, bomba e merengue. O palco contará com bailarinos, banda de apoio e elementos cénicos marcantes como a “La Casita”, estrutura inspirada em casas tradicionais porto-riquenhas que se tornou símbolo da digressão. Deixamos o alinhamento esperado para se preparem para o concerto:
Quieren quitarme el río y también la playa // Quieren al barrio mío y que tus hijos se vayan
Bad Bunny sempre teve consciência social e esteve sempre envolvido em ações solidárias, mas o caso Verano Boricua, em 2019, havia de mostrar uma viragem profunda no seu posicionamento e na forma como o vocaliza. Em causa esteve a fuga de quase 900 páginas de conversas privadas (o escândalo "RickyLeaks") que expuseram comentários homofóbicos, misóginos e de escárnio para com os mortos do Furacão Maria por parte do então Governador Ricardo Rosselló, e que fez o povo porto-riquenho sair massivamente à rua. Mobilizados inicialmente por grupos feministas locais como La Colectiva Feminista en Construcción, os protestos paralisaram o país.
Ao receber a notícia, Bad Bunny tomou a decisão drástica de interromper a sua digressão europeia, voando de Ibiza diretamente para Porto Rico e anunciando no Instagram: "O meu povo precisa de mim!!! E eu preciso deles. (...) Isto não é sobre revolucionários, é sobre todos os porto-riquenhos. Temos de sair à rua independentemente da raça, religião ou ideologia política."
E, ao lado de artistas como Residente, iLe e Ricky Martin, Benito tornou-se a figura pública mais visível do movimento, manifestando-se em cima de camiões e empunhando a bandeira porto-riquenha com o triângulo azul-claro, símbolo da luta pela independência.
Num processo criativo espontâneo e veloz, Bad Bunny juntou-se a Residente e iLe para gravar "Afilando los Cuchillos", lançada gratuitamente no YouTube na manhã de 17 de julho de 2019.
A música começa com um assobio tradicional da América Latina, explica a NPR, usado como metáfora para a chegada de mudanças e para o clima de contestação. A canção combina reggaeton com rap e crítica política.
Felix Contreras, da NPR News, e autor de um podcast sobre musica latina, interpreta a canção, explicando que Residente assume um tom agressivo e sem filtros para expor a corrupção e a desigualdade em Porto Rico, enquanto iLe acrescenta um lado mais poético e simbólico ao refrão, apelando à limpeza e renovação do sistema político. Já Bad Bunny não evita posições políticas, criticando diretamente Rosselló e a sua governação.
A canção, escrita e publicada em 24 horas, tornou-se instantaneamente a banda sonora oficial da revolta. Nos seus versos, gravados à distância durante a madrugada, Bunny atacou diretamente o governador: "Que saibam em todos os continentes / Que Ricardo Rosselló é um incompetente / Homofóbico, mentiroso, delinquente / Ninguém te ama, nem o teu próprio povo". A pressão artística e popular funcionou, culminando na demissão histórica do governador a 24 de julho de 2019.
Nas eleições para o governo da ilha em 2024, apoiou ativamente Juan Dalmau, do Partido Independentista Porto-riquenho, e lançou o single "Una Velita" para expor a negligência política após o Furacão Maria e criticar o partido pró-estado (PNP) de Jenniffer González.
Também no espetáculo do intervalo do Super Bowl, a subida a um poste de eletricidade foi uma alusão ao colapso das infraestruturas após o furacão Maria, em 2017, e para as mortes evitáveis que marcaram uma geração inteira de porto-riquenhos.
Esta é uma das experiências mais traumáticas e politicamente carregadas de Porto Rico nos últimos anos e que continua a ser uma ferida aberta na relação com os EUA. Após o furacão Maria, em 2017, grande parte da ilha ficou sem eletricidade durante meses, em alguns casos mais de um ano, revelando o colapso de uma infraestrutura básica já fragilizada por décadas de má gestão, endividamento e negligência federal. A falta de luz tornou-se o símbolo do abandono, pessoas morreram por não terem acesso a equipamentos médicos, comunidades inteiras viveram às escuras e a resposta das autoridades dos Estados Unidos foi lenta, desigual e muitas vezes desdenhosa.
A voz de Porto Rico que o mundo ouve
Embora canções mais antigas como "Estamos Bien" tenham servido de hino de resiliência após o Furacão Maria, o álbum Debí Tirar Más Fotos foi desenhado como uma carta de amor e, simultaneamente, um aviso a Porto Rico.
O disco abre com uma curta no YouTube protagonizado pelo ator Jacobo Morales e um sapo típico da ilha (Concho), retratando a perda de identidade cultural provocada pelo turismo de massas e pela gentrificação: o fecho de padarias tradicionais, a proibição de pagamentos em dinheiro e a substituição do espanhol pelo inglês no comércio local. No álbum, temas como "TURiSTA" e "Lo Que Le Pasó a Hawaii" expõem como os investidores norte-americanos compram praias e bairros inteiros, traçando um paralelo com a destruição da cultura nativa que aconteceu no Havai após se ter tornado num Estado dos EUA.
Mas esta posição também traz riscos, Camille Padilla Dalmau, do 9 Millones, sublinha a importância de não idealizar excessivamente o artista e alerta para o lado agridoce: "Bad Bunny não vai resolver o colonialismo em Porto Rico (...). No entanto, as letras das suas canções impregnaram a consciência coletiva de muitos Boricuas e pessoas de outras culturas. É isso que a música de protesto faz."
O trabalho de Bad Bunny não surge de forma isolada, apoia-se num esforço comunitário de décadas liderado por coletivos locais (como os Pleneros de la Cresta e a Casa de la Plena Tito Matos) para resgatar a história oral e reintroduzir ritmos tradicionais de matriz africana, como a bomba e a plena, nas ruas. Enquanto os sistemas políticos tradicionais se mantêm estagnados, a música atua como uma força agregadora, inspirando ações comunitárias e provando que a descolonização e a defesa do território se constroem no quotidiano, explica a jornalista.
Ativismo não é só geopolítico, questões LGBTQ e mulheres não são esquecidas
O estilo de Bad Bunny, marcado pela subversão de normas de género através de roupas fluidas, unhas pintadas e maquilhagem, tem sido alvo de boicote por setores conservadores (que tentaram inclusive cancelar o espetáculo no Super Bowl), as investigadoras Vanessa Díaz e Petra Rivera-Rideau (autoras do livro Previsão P FKN R: How Bad Bunny Became the Global Voice of Puerto Rican Resistance e criadoras do Bad Bunny Syllabus) apontam que esta estética está profundamente ligada à história de resistência política caribenha.
Bad Bunny liga aquilo que veste e nada na sua carreira tem sido por acaso, é por isso obvio que a moda é uma extensão do seu ativismo social. E o LGBT nation lembra vários exemplos em que isso foi notório. Em 2020, no programa The Tonight Show, usou uma saia preta e uma t-shirt com a frase "Mataram a Alexa, não um homem de saia", protestando contra o violento assassinato de Alexa Negrón Luciano, uma mulher trans sem-abrigo em Porto Rico, cujo relatório policial não a identificou como mulher.
No vídeo de "Yo Perreo Sola", apresentou-se completamente vestido em drag (com um vestido de cabedal vermelho e peruca) que se pode interpretar como uma mensagem de respeito e autonomia das mulheres nos espaços noturnos. Uma mensagem particularmente importante na cultura regaetton onde a objetificação da mulher é uma constante.
Bad Bunny joga com os papéis de género, desde sessões fotográficas em saltos altos para marcas de luxo como Jacquemus até capas na Harper's Bazaar usando saias ou o icónico fato-vestido branco com cauda de flores no Met Gala de 2023, Benito afirma que se veste para viver de forma autêntica.
Postura que as investigadoras dizem ligar Bad Bunny à rica história das translocas e dos artistas de drag porto-riquenhos (como a ativista de Stonewall Sylvia Rivera ou a icónica performer Lady Cataria), que historicamente usaram o corpo e a estética para contestar o colonialismo norte-americano, o racismo e a violência homofóbica num ambiente marginalizado.
Influência global
A postura de Bad Bunny cria sempre uma expectativa e após a histórica atuação a solo no intervalo do Super Bowl, que a Billboard diz ter sido a quarta mais vista de sempre (atrás apenas de Kendrick Lamar, Michael Jackson e Usher), Benito tem passado a mensagem que as maiores armas contra a opressão são o amor e a afirmação das raízes.
Também nos Grammys de 2025, utilizou o seu discurso de vitória para criticar duramente as políticas do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), declarando "ICE out" em memória dos imigrantes que morreram sob custódia daquela autoridade, afirmando: "Não somos selvagens, não somos animais, não somos extraterrestres. Somos humanos e somos americanos".
Bad Bunny tem pensado todos os seus passos e também a posição que ocupa, como protesto contra o elevado número de deportações levadas a cabo pelo ICE, o músico tomou a decisão política de excluir propositadamente os Estados Unidos da sua atual digressão mundial, não só como protesto, mas com receio de que houvesse ações de detenção nos seus concertos.
Este album, como já dissemos, é uma declaração de amor a Porto Rico e é credível porque Bad Bunny ama a sua ilha verdadeiramente e a ilha responde com amor. Antes de lançar Debí Tirar Más Fotos, Bunny fez uma residência histórica de 31 concertos no José Miguel Agrelot Coliseum, em San Juan, intitulada "No Me Quiero Ir de Aquí". Ali, para proteger os locais contra o turismo desmesurado, os bilhetes para os primeiros nove concertos (e para o último) foram vendidos exclusivamente a residentes de Porto Rico. Segundo dados da empresa de estudos de mercado Gaither International, a residência gerou um encaixe massivo de 733 milhões de dólares (mais de 620 milhões de euros), impulsionando a economia local de forma estrondosa.
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