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PRÓLOGO
RENLEY
— Que é que estás a fazer? — pergunto ao homem que está alegremente diante de mim com um joelho apoiado no chão, uma centelha no olhar e esperança nos lábios curvados para cima.
Impecavelmente vestido com um fato feito à medida, estendendo na mão um monstruoso anel de noivado num estojo de madeira, está Theodore Williams, mais conhecido como Theo.
Britânico, elegante e alucinado... Uma combinação alarmante, na minha opinião.
— Que é que te parece que estou a fazer? — pergunta, com o cabelo castanho encaracolado a cair-lhe para a testa enquanto os olhos azuis cristalinos me fitam intensamente.
Parece que estás a fazer um pedido de casamento.
O seu sorriso curvo ilumina o relvado em frente da minha casa, onde ele assentou arraiais firmemente para esta ocasião solene.
— Isso está absolutamente correto.
Então, para meu horror, pigarreia e diz:
— Riley...
A minha expressão fica vazia ao mesmo tempo que o seu amigo, Rupert, sussurra:
— É Renley. O nome dela é Renley.
O Theo arregala os olhos.
— Oh, merda, tens razão. — Afivelando novamente aquele sorriso charmoso, prossegue no seu sotaque britânico chique. — Peço desculpa. Renley Henrietta...
— O meu segundo nome não é Henrietta.
— Não é?
— Não. Não é.
A confusão apodera-se das suas sobrancelhas, e franze o nariz de uma maneira engraçada.
— Qual é?
Cruzo os braços sobre o peito.
— É Lynn.
— Lynn? — Experimenta o nome por um momento. — Renley Lynn...
— Renley Lynn... Tens a certeza ? Porque Lynn não parece estar bem.
— Tenho a certeza. É Lynn.
— Bom, parece que o erro é meu. — Pigarreando mais uma vez, continua: — Renley Lynn Gosling, dar-me-ias a honra...
— Gossage.
O seu rosto contorce-se, confundido.
— Hã?
— O meu apelido é Gossage.
— Agora estás a gozar comigo. — Põe-se de pé. — No teu perfil dizia que o teu apelido é Gosling. Como o Ryan Gosling.
— Não, não dizia. Dizia Gossage, como Goose Gossage.
— E quem é esse tal Goose Gossage? — pergunta.
— Isto é muito romântico — diz o Rupert com o ar de quem estava a ver um jogo de ténis na bancada, a virar a cabeça de um lado para o outro.
— Richard Michel Gossage, também conhecido como Goose, era um lançador dos Yankees.
— Ah. — O Theo abana a cabeça. — Eu não ligo a desporto, minha querida.
— Pois, consegui perceber isso pelos berloques dos teus sapatos. Ele olha para baixo, fitando os sapatos.
— São uns Berluti.
— Isso não me diz absolutamente nada.
— Como é óbvio. Consegui perceber isso pelas manchas de tinta no teu macacão coçado.
— Desculpa?
— Não é a melhor maneira de a conquistares — murmura o Rupert pelo canto da boca.
— Tens razão. — O Theo inspira profundamente, sacode os braços, e depois volta a por um joelho no chão.
Só podem estar a gozar comigo.
Nota mental, não voltar a beber margaritas com a Tia Kitty, nunca mais.
Arranjar um tablet à Tia Kitty que não tenha o ecrã Machado, para ela não confundir compro isso com compromisso.
E nunca dar a minha morada de casa a estranhos!
Ele abre novamente o estojo do anel, segura-o diante de mim e depois sorri.
— Renley... Hã...
—Lynn... — ajuda o Rupert.
— Pois, isso. Renley Lynn Gossage, dar-me-ias a maior honra que eu poderia zecebez e tornar-te-ias minha mulher?
— Excelente rima — diz o Rupert.
— Obrigado, mano — responde o Theo, e, juro, aquele sorriso dele, de orelha a orelha, está resplandecente. Verdadeiramente cintilante.
Conheço-o há menos de um dia — sim, um dia — e já o odeio.
Já o desprezo.
Só me apetece levá-lo para o jardim nas traseiras da casa e enterrar a cara dele num monte de urtigas porque ele é uma pedra no meu sapato, uma enorme deceção, e tudo aquilo que eu detesto num erro cometido sob os efeitos do álcool.
— Que é que dizes? — pergunta. — Aceitas ser minha mulher?
— Com certeza... que não.
O seu rosto torna-se inexpressivo e ele põe-se de pé, fechando bruscamente o estojo do anel.
— Porque é que tinhas de responder dessa maneira? Com a pausa? Isso foi maldoso. Por um momento, pensei que fosses dizer que sim.
— Eu disse-te, logo desde o início, que não pretendia casar-me.
— Não é isso que diz no teu perfil.
— Deixa-te lá de estares sempre a falar do perfil.
— Porque haveria de deixar de falar nele, se foi essa a razão que me fez cruzar o Atlantico para estar aqui contigo?
— Essa escolha foi tua, não minha.
— Bom, a escolha foi tua quando selecionaste «fazer correspondência».
— Não pensei que era com isso que estava a fazer correspondência, e tu sabe-lo muito bem.
Ele atira o estojo do anel para o Rupert, que o apanha, e tira o casaco do fato, atirando-o também ao seu amigo. Depois, desaperta os botões da camisa e tira-a para fora das calças.
— Que estás a fazer? Se pensas que ao pores-te nu me vais conseguir convencer a casar-me contigo, então não fazes a mínima ideia do tipo de mulher que sou.
Ele ri-se alto de forma trocista.
— Tenho demasiado respeito por mim mesmo para me estar a por aqui a mostrar a mercadoria só para te convencer a casares-te comigo. Esta cidade é um maldito forno e tinha-me aperaltado todo para ti. Se me vais mandar passear, não vou ficar para aqui vestido com esta roupa toda.
Ele tira a camisa expirando audivelmente, e depois estende-se ao comprido no relvado.
Por um momento — por um momento muitíssimo breve — permito que o meu olhar contemple os contornos bem definidos do seu peito e as deliciosas formas dos abdominais. Que bom para ele, ser capaz de desenvolver um físico assim tão impressionante. Deve ser bom ter esse tempo todo nas mãos.
Não que eu queira fazer-lhe qualquer tipo de elogio.
— Rupert, esta tarde vou precisar de uma limonada, em vez de chá.
— Hã... Desde quando me tornei um mordomo?
O Theo ergue-se e tapa o sol com as mãos enquanto responde:
— Mano, a minha noiva acabou de rejeitar o meu pedido de casamento. Estou a sofrer. Limonada é a única coisa que me pode curar.
— Oh, meu Deus — digo com um enorme revisar de olhos. — Podes ir lamentar-te para outra freguesia? As tuas pernas estão a entrar no relvado dos meus vizinhos e não me apetece nada que pensem que tenho um tipo britânico estranho e seminu a preguiçar no meu relvado.
— Não te preocupes, eles não se vão zangar.
— Tenho a certeza de que vão.
— Não, não vão. — Volta a proteger a cara com as mãos, bloqueando o sol ao olhar para mim. — Eu arrendei a casa deles durante o verão. Sou o teu novo vizinho, doce.
— Espera... O quê? Ele vai estar aqui o verão inteiro?
Rejeitei-o, está a sofrer, devia estar a procurar um voo de regresso.
— E este noivo ainda não acabou de tratar deste assunto contigo — acrescenta.
Ei, esperem lá um bocadinho.
— Que raio queres dizer com isso?
— Quero dizer que, quando chegamos ao fim do verão, e escuta bem o que te digo, estarás a usar o meu anel. Sou incrivelmente persuasivo.
O Rupert inclina-se para nós e diz:
— É mesmo. Uma vez, convenceu-me a correr uma meia maratona envergando o melhor vestido da minha mãe... E de saltos altos.
Pelo amor da santa, mas que dois.
Não quero saber se ele me vai hipnotizar, não me casava com este homem por nada deste mundo.
Nem pensar.
— Vai sonhando, mas isso nunca vai acontecer. E agora, se me dão licença, ao contrário de vocês os dois, tenho de ir trabalhar.
Conforme me afasto, o Theo diz alto do relvado:
— Gossy, os britânicos estão a chegar, e tu não fazes a mínima ideia do que está prestes a cair-te em cima.
Olho de relance por cima do ombro e vejo-o a sorrir novamente.
— Estás a alucinar.
Depois escapo-me para dentro de casa e fecho a porta, encostando-me a ela enquanto inspiro e expiro umas quantas vezes.
Pela minha saúde, onde está aquele tablet? Preciso de descobrir o mais que puder sobre este homem... E preciso de encomendar um novo para a Tia Kitty.
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