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INTRODUÇÃO
Andamos todos os dias com moedas de antigas civilizações no bolso e nem reparamos. Falo, claro, das palavras comuns, banais, em que ninguém repara, e que têm histórias de milénios.
Este livro junta crónicas que escrevi nos últimos anos sobre palavras que me chamavam a atenção por algum motivo. Se numa semana um dos meus filhos apontava para um avião no céu, escrevia uma crónica sobre a palavra «avião». Se a terra tremia em Portugal, punha‐me a escrever sobre a palavra «terramoto». Este não é um dicionário etimológico. É um livro de viagens, um livro de histórias, um livro de crónicas sobre etimologia.
Esta escrita sem plano vai mostrando, em aproximações contínuas, a história da língua e, ainda, as várias camadas de que o seu léxico é feito.
Se imaginarmos o léxico do português como uma árvore, podemos tentar perceber onde estão as raízes. A raiz mais forte, se a acompanharmos em direcção ao passado, passa pelo latim desenvolvido na faixa ocidental da Península Ibérica, a que se juntam raízes mais estreitas que vêm de línguas que já aqui se falavam. A raiz principal avança, em direcção ao passado, até ao Lácio, depois até à zona dos Alpes, onde, há 3500 anos, falar‐se‐ia proto‐itálico, uma língua de que não há registos escritos, mas que foi reconstruída e que deu origem a várias línguas da Península Itálica – e, por fim, esta raiz acaba na zona do Mar Negro, onde, há 6500 anos, falar‐se‐ia uma língua a que hoje chamamos proto‐indo‐europeu*. A raiz acaba? Reformulo: a raiz torna‐se visível. Ela já vem, certamente, de línguas ainda mais antigas, mas de que não sabemos nada.
Essa língua falada há 6500 anos não criou apenas a raiz que veio dar ao português. Dali saíram dez raízes (as subfamílias de línguas indo‐europeias), que, por sua vez, se subdividiram em muitos subgrupos e muitas línguas. É por isso que temos tantos primos e primas da nossa língua: do inglês ao russo, passando pelo persa e pelo hindi, sem esquecer o grego, o albanês, entre tantas outras, a família é grande.
Portanto, a raiz mais forte da língua é esse percurso que vem do proto‐indo‐europeu, passa pelo proto‐itálico, pelo latim, pela língua medieval que nos acostumámos a chamar galego‐português na escola e veio parar ao português de hoje. Entre nenhuma destas etapas houve cortes abruptos.
Ora, ao lado dessa raiz, há muitas outras, algumas também bastante fortes – na verdade, cada palavra do português tem uma história particular, uma pequena raiz que se entrelaça nas outras para criar as raízes mais fortes que conseguimos ver.
Algumas palavras são um pequeno fio da raiz central. Por exemplo, a palavra «lua», que vem do proto‐indo‐europeu, passou pelo proto‐itálico, pelo latim, pela língua medieval e chegou ao português.
Outras palavras fizeram percursos muito diferentes. Há palavras com trajectos semelhantes, mas com saltos no tempo: palavras recuperadas do latim, que parecem regressar do passado para serem usadas de novo, como a palavra «óculos», que tem a mesma origem de «olhos», mas foi recuperada do latim sem sofrer as mudanças que a palavra «olhos» sofreu pelos séculos fora.
Há palavras que vieram do árabe, do persa, de línguas africanas, da América do Sul, de línguas germânicas, do grego, do inglês, do francês... A variedade de percursos e de histórias é impressionante. Curiosamente, as palavras saltam de língua em língua sem ter em conta famílias linguísticas ou épocas. É uma viagem desordenada, aventurosa, às vezes perigosa. Há até palavras que saíram do português, deram uma volta por outras línguas e voltaram muito mudadas (como «fetiche»).
Neste livro, conto alguns desses percursos. Tal como as palavras aparecem nos nossos lábios sem ordem, também o livro está organizado numa linha pouco cronológica e nada alfabética, ao sabor da vontade de contar histórias.
São histórias que mostram as raízes da nossa língua na sua variedade, uma variedade que alimenta a árvore lexical que usamos todos os dias.
Deixemos a imagem da árvore de lado e voltemos às moedas: usamos todos os dias palavras que fizeram viagens que vale a pena contar; é como se tivéssemos um tesouro antigo no bolso e nem reparássemos. Este livro é mesmo para isso: para repararmos.
* Um parêntesis sobre o proto‐indo‐europeu.
A existência do proto‐indo‐europeu é um facto científico tão sólido como a deriva dos continentes. É verdade que não há registos escritos, mas temos dados suficientes para sabermos da existência dessa língua e até para reconstruir muito do seu léxico e da sua gramática.
Se quisermos perceber como tal é possível, podemos olhar para as placas tectónicas. Também não temos fotografias dos continentes nas suas formas antigas, mas o estudo da geologia, da flora, da fauna e da forma como os continentes se transformam ao longo do tempo permite‐nos reconstruir como eram há muitos milhões de anos.
Sem chegar a escalas de milhões de anos da geologia, podemos reconstruir o proto‐indo‐europeu olhando para as várias línguas que existem hoje, para os registos escritos de línguas que já não são faladas (como o hitita, o latim, o grego antigo, entre outras) e para padrões sistemáticos de mudança entre os diferentes grupos de línguas indo‐europeias. Há uma enorme quantidade de dados que foram estudados e sistematizados ao longo dos últimos duzentos anos e, por isso, temos uma confiança sólida na existência do proto‐indo‐europeu e em muitas das reconstruções lexicais, apesar das discordâncias que existem entre especialistas nalguns pontos.
A forma exacta dessa língua não é conhecida. Ainda assim, trata‐se de um dos factos mais sólidos da linguística histórica – e, ao mesmo tempo, um dos menos co‐ nhecidos fora da área. É extraordinário pensar que o proto‐indo‐europeu deu origem às línguas que hoje são faladas por cerca de metade da humanidade – entre elas, o português – e que esta língua foi reconstruída.
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