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A estreia de Sara Correia em nome próprio na MEO Arena tinha tudo para ser um momento simbólico na carreira da fadista. Mas acabou por ser mais do que isso. Foi a confirmação de que uma das vozes mais impressionantes da música portuguesa atual consegue mesmo transformar uma arena numa casa de fado.

A sala estava absolutamente cheia e a plateia, com uma idade média a rondar os 55 anos, ocupava cada lugar sentado. Ainda antes da primeira nota já se percebia a dimensão da noite.

A expectativa sentia-se no ambiente. O público falava baixo, como se estivesse prestes a entrar numa casa de fados em vez de na maior sala do país. Quando as luzes se apagaram e a primeira guitarra se fez ouvir, instalou-se um silêncio raro numa arena daquela dimensão, um silêncio que se manteria em muitos momentos ao longo da noite. Depois, bastou Sara começar a cantar.

O seu alcance vocal parece quase irreal e a sensação que fica, em vários momentos, é que a fadista pouco precisa de microfone, a projeção natural da sua voz seria suficiente para chegar às bancadas mais distantes. Entre canções, ouvia-se frequentemente o clássico grito vindo da plateia: “Ah, fadista!”.

Uma voz que enche uma arena

Ao longo de mais de vinte canções, Sara Correia demonstrou uma qualidade que nem todos os artistas têm: tornar cada momento do concerto igualmente envolvente. Na maioria dos espetáculos, o público espera pelos grandes êxitos. Aqui, isso não parecia acontecer. Mesmo nos fados mais tradicionais, havia uma atenção absoluta e um entusiasmo constante.

Curiosamente, a intensidade da performance de Sara contrasta com a forma como a artista se dirige ao público. Entre músicas, revela uma postura quase envergonhada, humilde, como se o “vozeirão” que carrega não combinasse com a timidez com que agradece os aplausos.

Silêncio, poesia e homenagens

Um dos momentos mais bonitos da noite surgiu com “Balada do Outono”, de Zeca Afonso. A interpretação foi despida de fogos de artifício: apenas a voz de Sara e uma guitarra portuguesa, diretamente do meio da plateia, com o público a respeitar cada silêncio da canção.

Foi um daqueles momentos em que uma arena deixa de parecer uma arena. Durante alguns minutos, milhares de pessoas escutaram em absoluto silêncio, como se estivessem reunidas numa pequena sala. No final, o aplauso demorou a começar - talvez porque ninguém quisesse que aquele momento acabasse.

A poesia, feminina e portuguesa, teve também um lugar central no espetáculo. Sara interpretou “Ódio”, poema de Florbela Espanca, enquanto o texto surgia projetado no ecrã, e cantou também “Nevoeiro”, um poema de Sophia de Mello Breyner Andresen - ambos temas do novo álbum.

Outro momento particularmente emotivo aconteceu durante uma homenagem a Maria da Nazaré. Em “Já Não Gostas de Mim”, a voz e a imagem da fadista falecida surgiram no ecrã e Sara cantou frente a frente, criando um dueto que emocionou a sala.

Convidados e celebração

A noite contou ainda com vários convidados especiais. Carolina Deslandes juntou-se a Sara para interpretar “Canto”, um dos temas centrais de Tempestade. Pedro Abrunhosa apareceu para cantar “Que o Amor Te Salve Nesta Noite Escura”, e os Calema subiram ao palco para “Respirar”.

Em “Chelas”, Sara mostrou outro lado da sua identidade artística. O tema trouxe outra energia ao concerto. A fadista moveu-se em palco de forma diferente, com uma postura mais descontraída, quase celebratória, como se regressasse simbolicamente ao bairro onde cresceu. Foi um dos momentos mais pessoais da noite e arrancou uma reação particularmente calorosa do público.

Foi nesse contexto que deixou uma das frases mais marcantes da noite: “Podia não cantar mais, mas a miúda de Chelas cantou na MEO Arena”.

A confirmação de uma grande fadista

Num concerto que percorreu várias fases da sua carreira, houve ainda espaço para um clássico incontornável do fado. Sara Correia interpretou “Estranha Forma de Vida”, eternizada por Amália Rodrigues. Depois de quase duas horas de espetáculo, ficava uma pergunta inevitável: como é que esta mulher ainda tem voz?

Mas não é apenas nas notas altas que Sara Correia impressiona. Os graves surgem igualmente equilibrados e controlados, por vezes transformando-se em sussurros quase perfeitos. É essa amplitude que faz da sua voz algo verdadeiramente raro.

A certa altura, o músico e diretor artístico Diogo Clemente disse: “Obrigado, Deus, por me fazer viver no tempo da Sara Correia”.
Talvez seja exagero, talvez não. O que é certo é que, nesta noite, todos os que estiveram presentes sentiram o mesmo.

Quando o concerto terminou, a MEO Arena levantou-se numa longa ovação de pé. Mais do que celebrar um espetáculo, o público parecia reconhecer que tinha assistido a um momento especial na história recente do fado.

Talvez por isso, mais uma vez, o aplauso final tenha demorado a terminar. Não se celebrava apenas um concerto esgotado ou a estreia de uma fadista na maior sala do país. Celebrava-se também a sensação de estar a assistir ao crescimento de uma artista que já pertence, sem grande discussão, ao grupo das grandes vozes do fado contemporâneo.

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