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No verão de 1955, a mulher mais fotografada do mundo estava num parque de Long Island, em Nova Iorque. Sentada num baloiço, de pernas cruzadas e olhar fixo nas páginas de um livro, Marilyn Monroe parecia alheia ao mediatismo que a rodeava.

A cena foi captada pela fotógrafa norte-americana, Eve Arnold. Nela, a estrela de Hollywood surge a ler "Ulisses", a obra-prima de James Joyce, num retrato que contrasta com a imagem da "blonde bombshell" que dominava o imaginário popular da época.

A fotografia integra agora uma nova exposição da National Portrait Gallery, em Londres, dedicada à forma como Marilyn Monroe procurou controlar e moldar a própria imagem pública. A mostra acompanha o percurso da atriz desde os primeiros retratos de Norma Jeane, o seu nome de nascimento, até às últimas fotografias tiradas poucas semanas antes da sua morte, em 1962, aos 36 anos.

Durante décadas, a imagem de Monroe foi associada ao papel de símbolo sexual. No entanto, a fotografia de Eve Arnold conta uma história diferente.

Segundo Michael Arnold, neto da fotógrafa, o livro não foi escolhido para a sessão fotográfica nem utilizado como adereço. "A Eve estava apenas a preparar as câmaras quando viu a Marilyn tirar o livro e começar a ler enquanto esperava", explicou à CNN.

A espontaneidade do momento ajuda a desmontar um dos estereótipos mais persistentes em torno da atriz. Marilyn Monroe era uma leitora assídua e possuía uma biblioteca pessoal com mais de 400 livros, incluindo obras de poesia, filosofia, teatro e literatura clássica.

Para Michael Arnold, a sua avó percebeu imediatamente o significado daquela cena. "Ela achou que era uma fotografia perfeita para contrariar deliberadamente o estereótipo da loira burra e mostrar uma dimensão da vida intelectual de Monroe."

Mas a escolha de "Ulisses" não parece ter sido inocente. Um olhar atento à fotografia revela que Monroe se encontrava nas páginas finais do romance de James Joyce, precisamente na secção dedicada ao monólogo de Molly Bloom.

Num ensaio publicado em 2016 na revista Journal of Visual Culture, a historiadora de arte feminista Griselda Pollock argumentou que a atriz estaria a estabelecer uma identificação consciente com a personagem. Molly Bloom é uma mulher sem instrução formal que, ao longo do monólogo, explora livremente a sua sexualidade, os seus pensamentos e a sua vida interior.

Para Griselda Pollock, ao deixar-se fotografar a ler aquelas páginas, Monroe parecia reivindicar uma imagem mais complexa de si própria, a de uma mulher capaz de pensar, desejar e narrar a própria história.

A relação entre Marilyn Monroe e Eve Arnold desempenhou um papel importante nesse processo de reinvenção. Ao contrário da maioria dos fotógrafos que trabalhavam com a atriz, Arnold privilegiava retratos naturais e espontâneos, frequentemente realizados fora de estúdio.

Marilyn Monroe encontrou nela uma aliada num período de mudança da sua carreira. Poucos meses antes da fotografia em Long Island, a atriz tinha abandonado Hollywood para criar a sua própria produtora, numa tentativa de conquistar maior autonomia artística.

Segundo Georgia Atienza, curadora assistente da exposição londrina, Marilyn Monroe exercia um controlo significativo sobre as suas fotografias promocionais. A atriz analisava folhas de contacto e chegava a riscar com um gancho de cabelo as imagens que não queria ver publicadas.

"Existe uma ideia muito consciente de controlo da sua imagem e daquilo que queria mostrar ao público", afirmou Georgia Atienza.

Ao longo de mais de uma década, Eve Arnold acompanhou alguns dos momentos mais importantes da vida de Marilyn Monroe.

Após a morte da atriz, Eve Arnold decidiu manter a maioria dessas fotografias longe do olhar público durante anos, receando que fossem exploradas pelos meios de comunicação. Só em 1987 as reuniu no livro "Marilyn Monroe: An Appreciation".

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