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Há filmes que entram por nós dentro e não saem mais. "A voz de Hind Rajab" é um deles. Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Internacional e agora disponível na plataforma Filmin, esta longa-metragem constrói-se sobre a interseção entre o real e a encenação ficcional, entre a voz de uma criança que morreu e os rostos de atores que mostram o outro lado, o de quem tenta ajudar.

O filme abre com a reconstituição do trabalho quotidiano dos voluntários do Crescente Vermelho na Cisjordânia. É nesse contexto que conhecemos Omar A. Alqam, interpretado por Motaz Malhees, um dos voluntários que atende a chamada de uma criança de seis anos escondida num carro na Faixa de Gaza, rodeada pelos cadáveres da sua família.

O que se ouve a seguir é real. Os fragmentos de áudio de Hind Rajab, é esse o nome da criança, foram preservados e integrados no filme. Neles, escuta-se a voz de uma menina desesperada, em sofrimento profundo, incapaz de dizer muito mais do que "Venham buscar-me" e "Estou com medo".

Do lado encenado da linha telefónica, a Omar junta-se Rana, outra voluntária do Crescente Vermelho, que fala com Hind com o objetivo de a distrair de um cenário horrendo. Pergunta-lhe o nome da escola, "Infância Feliz", responde a criança. Depois, qual a sua cor preferida. A resposta que chega é a mais crua e inesperada de uma criança: "Não gosto de nada." O olhar de Rana diz o que as palavras não conseguem.

Para que uma ambulância chegue ao local, uma viagem de apenas oito minutos, é necessária a autorização do Exército Israelita. Essa negociação é tratada por Mahdi M. Aljamal, numa das cenas mais tensas do filme. Perante a angústia de Omar, que exige ação imediata, Mahdi mostra-lhe um quadro com os rostos de voluntários do Crescente Vermelho mortos em missões anteriores. Não pode deixar morrer mais ninguém.

As horas passam. Omar vai apontando na parede os minutos da chamada: com o número oito em destaque, depois "+60", depois "+120". O tempo torna-se físico, visível, insuportável.

O desfecho, já do conhecimento público, não atenua o impacto. Quando a rota é finalmente aprovada e os voluntários se aproximam do carro, ouvem-se tiros. A chamada cai. A equipa de salvamento morreu. Hind também.

A realizadora Kaouther Ben Hania revelou que se encontrava a trabalhar noutro projeto quando, numa escala em Los Angeles, ouviu pela primeira vez a gravação de Hind Rajab. "Entrei em contacto com o Crescente Vermelho e pedi para ouvir o áudio completo. Tinha cerca de 70 minutos, de uma dureza devastadora. Depois de o escutar, soube, sem qualquer dúvida, que precisava de abandonar todos os outros projetos. Eu tinha de fazer este filme", diz em entrevista ao Screen Daily.

Na cerimónia dos Óscares, o realizador norueguês Joachim Trier, ao receber a estatueta dourada de Melhor Filme Internacional, parafraseou o escritor James Baldwin, "que nos lembra que todos os adultos são responsáveis por todas as crianças, e não vamos votar em políticos que não levam isto a sério".

Hind deixa-nos com uma sensação pesada de falha coletiva. Numa das cenas do filme, quando os áudios de Hind são partilhados nas redes sociais e se tornam virais, Omar comenta, amargamente, que as redes já estão cheias de corpos de crianças, uma referência direta à banalização da violência nos ecrãs que habitamos todos os dias.

É precisamente isso que este filme nos pede para abandonar: a indiferença anestesiada do scroll infinito. Pede-nos que olhemos, de frente, com a máxima empatia, para o que aconteceu. E que reconheçamos que a única coisa que nos separa de Hind Rajab é a sorte geográfica de termos nascido onde nascemos.

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