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O ambiente era de Guerra Fria, que opunha os Estados Unidos da América, sob a presidência de Dwight D. Eisenhower, à antiga União Soviética liderada por Nikita Khrushchev. No centro do conflito geopolítico estava a República do Congo, antiga colónia belga, explorada sobretudo pelas suas vastas reservas de urânio — um recurso estratégico essencial para a produção da bomba atómica.

Para essa narrativa foram usados clipes de áudio, excertos de livros políticos, discursos, entrevistas, documentos oficiais e imagens históricas.

Nesse contexto, o Departamento de Estado norte-americano enviou músicos como Louis Armstrong em digressões por África, com o objectivo de “ganhar os corações e as mentes” das populações locais. O jazz tornava-se, assim, uma arma simbólica ao serviço da política externa norte-americana.

Do lado oposto, a antiga União Soviética, pela voz de Nikita Khrushchev, assumia uma posição crítica face ao poder neocolonial exercido no Congo. Nikita Khrushchev denunciava o racismo estrutural nos Estados Unidos e a cumplicidade das Nações Unidas na morte de Patrice Lumumba, defendendo uma descolonização global imediata.

Enquanto estes “embaixadores culturais” do jazz atuavam muitas vezes sob a tutela indireta da CIA, artistas como Louis Armstrong, Nina Simone, Duke Ellington, Dizzy Gillespie e Melba Liston enfrentavam um profundo dilema moral: como representar internacionalmente um país onde a segregação racial continuava a ser uma realidade quotidiana.

Ao colocar “Banda sonora” no título do documentário dá a indicaão que a música vai ter um papel mais relevante do que apenas apoio narrativo.

Durante o documentário, as passagens musicais sincronizam-se com a história. Representantes congoleses exigem liberdade em Bruxelas ao som de Thelonius Monk. Nina Simone canta “The Ballad of Hollis Brown” enquanto lemos no ecrã que foi enviada à Nigéria pela Sociedade Americana de Cultura Africana, uma fachada da CIA. Dizzy Gillespie fala sobre ser “tudo uma questão de ritmo” e dança enquanto o primeiro-ministro russo Nikita Khrushchev bate ritmicamente com o sapato na mesa da ONU. Louis Armstrong canta “I’m Confessin’ (that I Love You)” enquanto Eisenhower entretém Khrushchev em Camp David.

É neste cruzamento entre música, política e história que se inscreve o documentário do artista belga Johan Grimonprez, nomeado ao Óscar de melhor documentário, em 2026. Mais do que um filme sobre jazz, a obra reconstrói o processo de descolonização africana através da música, revelando como o jazz foi simultaneamente expressão artística, ferramenta diplomática e palco de resistência.

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