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Ao fim de um ano e meio de obras, o Museu Calouste Gulbenkian apresenta-se "renovado e modernizado", mas sem perder a identidade que marcou o projeto original.

Segundo a arquiteta Teresa Nunes da Ponte, durante a visita de imprensa ao museu, na qual o 24notícias esteve presente, o trabalho desenvolvido por curadores, arquitetos e restantes equipas procurou recuperar "pontos importantes da linguagem original do edifício", que remonta a 1969, nomeadamente através da "reposição da alcatifa no pavimento, na parte da arte europeia".

Inspirada no "conceito expositivo e no vocabulário arquitetónico", a renovação recuperou materiais como "a seda, a alcatifa, a madeira, o bronze, o vidro e o betão". "Além de repor os princípios do projeto original, também refrescou. É evidente que há algumas situações em que as reinterpretações são contemporâneas", explica a arquiteta. Uma dessas exceções é a Sala Lalique, onde "há uma reinterpretação do que cá estava, mas que se forrou tudo em seda, como era original".

Outro dos principais objetivos passou por recuperar a relação entre o edifício e a paisagem. "A relação entre interior e exterior é importante, entre arquitetura e paisagem. E esta transparência que acontece no museu, mas também nos pátios e em algumas janelas envolventes, é importante. Na museografia isso acontece através de transparências no percurso expositivo, e é uma das questões que se recuperou", sublinha Teresa Nunes da Ponte.

Essa ligação traduziu-se na reabertura visual das galerias aos jardins, com intervenções que permitem uma maior entrada de luz natural, a remoção de barreiras visuais e a recuperação de elementos arquitetónicos que reforçam a continuidade entre os espaços interiores e exteriores. Na Galeria da Arménia e do Mundo Islâmico, por exemplo, aumentou-se a abertura das janelas para o jardim, enquanto na transição entre as galerias da China, Japão e Europa foi recuperada a lógica original de transparência entre salas.

A renovação contemplou ainda alterações discretas ao percurso expositivo, como a criação de uma nova sala de numismática (sala dedicada à coleção de moedas de Calouste Gulbenkian), a relocalização do baixo-relevo assírio, o regresso de diversas obras das reservas às galerias e a modernização de vitrinas históricas com vidro antirreflexo. As lâmpadas de mesquita voltam também a ser apresentadas individualmente, permitindo uma observação mais próxima de cada peça.

Para Xavier F. Salomon, diretor do Museu Calouste Gulbenkian, "não existe outro museu no mundo que apresente esta íntima relação entre arquitetura, natureza e coleção". O responsável considera que "a maravilhosa coleção de Calouste Gulbenkian vai agora ser vista da melhor forma possível, num espaço que recupera o modelo e o espírito originais".

Do Antigo Egito à Sala de René Lalique

O percurso expositivo mantém a lógica concebida por Calouste Gulbenkian e conduz os visitantes através das grandes civilizações que despertaram o interesse do colecionador. A visita começa no Antigo Egito, onde é explicado que Gulbenkian decidiu tornar-se, a partir de 1921, um "colecionador de arte egípcia de referência", privilegiando "objetos com valor estético, e não só meramente arqueológico". A seleção reúne peças cerimoniais e funerárias que refletem "a beleza das formas humanas e animais" e o gosto pessoal do fundador.

Segue-se a galeria dedicada à Mesopotâmia, Grécia e Roma, que estabelece a ponte entre Oriente e Ocidente. O núcleo evidencia o fascínio de Gulbenkian pelas civilizações que floresceram "de ambos os lados do Bósforo", através de relevos assírios, moedas e pedras preciosas que testemunham "as interações entre Oriente e Ocidente — de confrontos militares a tradições técnicas e iconográficas partilhadas".

O percurso continua pelo Mundo Islâmico e pela Arménia, duas secções profundamente ligadas à identidade do colecionador. No primeiro caso, Gulbenkian assumia-se como "colecionador oriental" que reúne obras reveladoras da " criatividade humana", desde a cerâmica ao vidro, aos têxteis e às artes do livro. Já a galeria dedicada à Arménia recorda as origens do fundador e o papel histórico das comunidades arménias no comércio da seda, da prata e das pedras preciosas, bem como na produção de manuscritos iluminados, têxteis e cerâmica.

A viagem prossegue pelo Oriente, com as galerias da China e do Japão. Na coleção chinesa sobressaem as porcelanas, os biombos e as pedras duras adquiridos por Gulbenkian ao longo da primeira metade do século XX, refletindo o seu gosto por "objetos impactantes, de cores vivas". Já a secção japonesa reúne lacas, livros e estampas ukiyo-e, testemunhando o interesse do colecionador por obras raras e pelas relações temáticas entre diferentes peças.

Nas galerias dedicadas à arte europeia, o visitante percorre um trajeto cronológico que vai da Idade Média ao século XX, com paragens na pintura flamenga, italiana e holandesa, na escultura, tapeçarias, manuscritos iluminados e artes decorativas. Estão representados alguns dos nomes maiores da história da arte, como Rogier van der Weyden, Rubens, Rembrandt, Turner, Monet, Renoir, Degas e Rodin.

O percurso termina na renovada Sala René Lalique, dedicada à maior coleção de obras do joalheiro e vidreiro francês reunida fora de França. O novo espaço preserva a atmosfera original, mas introduz uma leitura contemporânea que coloca as criações de Lalique em diálogo com pinturas de Edward Burne-Jones e John Singer Sargent, evocando "a prodigiosa imaginação do artista" e a relação de amizade que manteve com Calouste Gulbenkian durante cerca de cinquenta anos.

Este fim de semana, 18 e 19 de julho, o museu tem entrada gratuita e horário alargado (hoje até à meia-noite e amanhã até às 20:00). Segundo a nota de imprensa, no resto da semana, e até domingo 26 de julho, o museu terá entrada gratuita, com o horário normal, das 10h00 às 18h00 e encerramento à terça.

O diretor do museu revelou que quem tem cartão Gulbenkian pode usufruir durante um ano do museu gratuitamente. A partir desse ano, se o visitante for assíduo na programação da Fundação, fica com acesso gratuito ao museu.

Calouste Gulbenkian, o colecionador

Nascido em 1869, em Üsküdar, na Turquia, no seio de uma família arménia, Calouste Sarkis Gulbenkian abandonou o país em 1896 devido à perseguição à comunidade arménia. Após passagens pelo Cairo e Londres, onde adquiriu nacionalidade britânica, viveu em Paris e fixou-se em Lisboa durante a Segunda Guerra Mundial, cidade onde morreu em 1955.

Desde cedo desenvolveu uma profunda ligação à arte, influenciado pela diversidade cultural das suas origens. Ao longo da vida, reuniu uma coleção única, composta por mais de 6000 peças, desde a Antiguidade ao início do século XX, selecionadas sobretudo pelo valor estético e pela beleza dos objetos.

A coleção inclui pintura, escultura, artes decorativas, antiguidades egípcias e peças de várias civilizações, com obras de mestres como Rembrandt, Rubens, Monet, Renoir e Houdon. Após complexas negociações, a coleção foi reunida em Portugal em 1960 e, em 1969, abriu em Lisboa o Museu Calouste Gulbenkian, e o desejo do colecionador de manter o seu legado reunido num único espaço foi concretizado.

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