Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
A peça é como um novelo que vai sendo desfiado em palco. Maria Luísa submeteu-se a uma gastrectomia e parece feliz com a nova silhueta, mas não consegue desfazer-se das indumentárias que usava há 40 quilos atrás. Assim, vai arranjando argumentos para se convencer a si própria de que há desculpa para manter as roupas velhas guardadas em casa.
Primeiro, acha que é ofensivo oferecer peças tão grandes, depois considera que a fraca oferta de tamanhos grandes fez sempre com que fosse a roupa a escolhê-la a ela e não o contrário e, por fim, admite que tem estima por aquelas peças que, às vezes, não a aconchegavam do frio, mas que lhe tapavam as formas redondas.
Maria Luísa cresceu a ouvir a mãe dizer-lhe para parar de comer, sentiu-se sempre inferior às colegas na escola, ouviu constantemente elogios seguidos de um “mas é gorda” e até o desgosto amoroso que lhe marcou a vida aconteceu devido ao excesso de peso. Desta forma, o monólogo mostra ao público que, ao longo dos anos, ser gordo vai-se tornando mais uma característica psicológica do que física.
Entre o preconceito, os olhares e os juízos de valor, a personagem começa a querer ficar na sombra e acumula marcas que mudam a forma como vive. Adota uma postura discreta, dedica-se aos estudos para se sentir validada e é prestável sobretudo para agradar.
Ao ver este retrato na peça, questionei: um gordo sente a necessidade de se encolher perante os outros para sentir que ocupa menos espaço?
Vivemos hoje numa era em que o digital deixou de ser apenas uma ferramenta para tornar-se no ambiente em que estamos constantemente e isto moldou-nos. Impera a necessidade de ser ou parecer bonito e de estar sempre “instagramável”.
Somos, cada vez mais, vaidosos, narcisistas e até individualistas. Isto está a deixar-nos menos tolerantes em relação aos outros e, quase como se estivéssemos a seguir um mesmo padrão, faz-nos esquecer de que todos têm direito a ser diferentes física ou psicologicamente.
A história de Maria Luísa cruza-se com a história do país. Chegou de Moçambique após a descolonização, viveu sob o rótulo de “retornada”, enfrentou a austeridade em 2011 e sofreu cortes salariais antes e depois da chegada da troika a Portugal.
Maria Luísa é uma mulher que representa tantas outras. Teve uma vida “comum”: estudou, trabalha, cuidou dos pais, atravessou as transformações do país e foi-se adaptando às mudanças. É isto que nos prende à peça. A história contada é de alguém real, tão real, que podia ser de qualquer pessoa com quem nos cruzamos diariamente na rua.
Com uma notável interpretação de Maria Rueff, a “A Gorda” surgiu da obra de Isabela Figueiredo com o mesmo nome. A peça está em cena às segundas, terças e quartas até 5 de agosto.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários