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Prólogo

Robin

22 de maio de 2023

A única pessoa à minha espera é a noiva, e está coberta de sangue.

Habitualmente, no final de umas férias nesta ilha, o grupo costuma estar a postos, com a bagagem, com escaldões na pele, mas bem-disposto. Quando me aproximo deles no meu barco, muitas vezes não estão a olhar para mim, mas sim a lançar os últimos olhares à ilha: às praias de areia branca, à água límpida, às palmeiras.

Esta manhã está perfeita para se estar no mar. O sol aquece-me as costas, e a maré está do meu lado.

Mas a noiva à minha espera mudou tudo.

Não diria que sou pessoa de se deixar perturbar facilmente. Quando se gere uma ilha privada, é preciso estar-se preparado para qualquer eventualidade. Como estou no continente, a apenas trinta minutos de lancha, caso algo corra mal eu ponho-me lá num instante. Os hóspedes têm a ilha só para eles, mas não os deixo isolados. Há um telefone de emergência, foguetes de sinalização e um estojo de primeiros socorros totalmente equipado.

Já houve crises, claro que sim.

Houve quem achasse boa ideia escalar a falésia, acabando por partir uma perna. Outra mulher insistiu em que a gravidez não seria problema e entrou em trabalho de parto logo na primeira noite. Acho que eu pensava já ter visto de tudo.

Nunca tinha visto isto.

O barco alcança o cais e consigo desligar o motor e amarrar o barco antes de a noiva correr para mim.

– O que aconteceu? – pergunto, surpreendida com a força da minha voz. – Está toda a gente bem? É preciso chamar uma ambulância?

Agora que chegou ao pé de mim, a noiva parece em estado de choque. Tem cortes profundos nas mãos, mas não me parece que cheguem para causar a devastação que vejo no seu fino vestido branco. Tem manchas de sangue enormes por todo o peito, já escurecidas pelo tempo. Um lado do rosto está coberto de arranhões. Começa a formar-se-lhe um ligeiro hematoma por baixo do olho esquerdo.

Marco Neves junta-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 21 de maio, uma quinta-feirapelas 21h00. Consigo traz "As Raízes da Língua", publicado pela Guerra & Paz.

Para se inscrever basta preencher o formulário que se encontra neste link. No dia do encontro vai receber, através do WhatsApp — no nosso canal —, todas as instruções para se juntar à conversa. Se ainda não aderiu, pode fazê-lo aqui. Quando entrar no canal, deve carregar em "seguir", no canto superior direito, e ativar as notificações (no ícone do sino).

Em "As Raízes da Língua", Marco Neves mergulha-nos na história da língua portuguesa através das aventuras de 50 palavras comuns.

Estendo-lhe a mão, hesitante, e ela recua bruscamente.

– Desculpe! – Olho em volta, à procura de sinais das outras. Está demasiado silêncio. Lembro-me de há apenas uns dias ter trazido para esta ilha um grupo animado de mulheres, prontas para a despedida de solteira das suas vidas. Nada então me pareceu fora do normal.

– Onde estão as outras? – pergunto.

Os olhos da noiva finalmente focam os meus, muito abertos e cheios de medo.

– As tuas damas de honor? – insisto. – Onde estão?

– Correu tudo mal – diz ela.

Preparo-me para falar, mas a noiva ainda não acabou. Encolhe-se sobre si mesma, agarra os braços e envolve-se num abraço, apesar do calor abrasador.

As palavras que se seguem gelam-me o sangue.

– A culpa foi dela.

Um

Annabel

18 de maio de 2023

Volto a pegar no convite, cujo cartão espesso, num tom creme acetinado, com letras em relevo, consegue ser ainda mais impressionante do que o bilhete de avião em primeira classe para as Bahamas. Faltam alguns minutos para chegar o táxi que me levará ao aeroporto, por isso sento-me na poltrona de veludo junto à janela e volto a analisar tudo aquilo.

Querida Annabel, lê-se. Espero que este convite te traga uma agradável surpresa. Vou casar no verão do próximo ano e adoraria que fosses uma das minhas damas de honor. Organizei a despedida de solteira numa ilha completamente privada nas Bahamas, e não terás de gastar um tostão. Quando lá chegarem todas, dar‐vos‐ei mais pormenores sobre o casamento! Peço‐te que me respondas a confirmar se podes vir. Encontrarás instruções detalhadas mais abaixo, e juntei também os teus bilhetes de avião. Com amor, Poppy Greer.

A Poppy Greer, quem diria. O convite foi, sem dúvida, uma surpresa. Não a vejo há quase dez anos, nem sequer falei com ela nesse período. Deste os exames finais do secundário. Não se trata propriamente da minha pessoa preferida. Admito que nós as quatro – ou seja, eu, a Chloe, a Esther e a Tanya – nunca gostámos muito da Poppy e metíamo-nos um bocado com ela por isso. Brin- cadeiras inofensivas, nada de grave. Mas, ainda assim, é um choque ela ter-nos convidado, e mais ainda pedir-nos para sermos suas damas de honor.

– Eu não vou recusar um voo de primeira classe e uma estada numa ilha privada – disse a Chloe, quando todas percebemos que tínhamos recebido a mesma carta. – Sobretudo, se formos as quatro.

Dentro do envelope vinha também uma brochura, junto ao convite e aos bilhetes de avião. A ilha chama-se Deadman’s Bay, um nome pouco auspicioso, mas que se esquece mal se vê o oceano cristalino. Tem um pequeno cais de madeira pintado de branco que espreita pelas ondas, vendo-se ao longe uma nesga do continente e o céu azul por cima. No interior do folheto, há algumas fotografias da própria ilha. Por entre vegetação densa e luxuriante, estende-se um relvado tratado; há palmeiras espalhadas como candeeiros de rua, umas curvas e outras retas, ligadas entre si por redes de descanso, e no meio uma lareira de exterior rodeada de cadeiras reclinadas. Ao fundo, vislumbra-se a praia de areia branca, com espreguiçadeiras e um toldo às riscas vermelhas e brancas. A casa principal, o alojamento maior, à frente de quatro pequenas cabanas nas costas da ilha, esconde-se atrás de quatro grandes palmeiras que disputam o espaço. Trata-se de um edifício baixo, branco, com janelas cor-de-rosa e uma porta da mesma cor. Ao lado, quase impercetível, há um terraço com churrasqueira.

Não foi difícil dizer que sim. Nem precisei de alterar planos; não tinha nenhuns, e não trabalho. O Andrew, o meu marido, também não se importou que eu me ausentasse por quatro dias.

As outras três trabalham todas. A Esther Driscoll é bancária de investimento numa empresa de topo, e teve de implorar, negociar e roubar para conseguir dispensa. É muito mais séria do que nós. Mesmo fora do trabalho, está sempre ao telemóvel, a responder a e‐mails. Está a anos-luz da rapariga selvagem que era na escola e na universidade, sempre a última a sair das festas. Mas sei que foi a mãe que lhe conseguiu a entrevista para o emprego atual e que ela sente uma pressão enorme para estar à altura, embora nunca o admitisse.

Livro: "A Culpa Foi Dela"

Autor: Sian Gilbert

Editora: ASA

Data de lançamento: março de 2026

Preço: € 19,50

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A última a sair das festas hoje em dia é a Tanya Evesham, mas por ser ela quem as organiza. É organizadora de eventos, desde aparições de celebridades a festas de aniversário de luxo. Quando começou, costumava convidar-nos para as festas que montava, garantindo-nos cocktails grátis e a oportunidade de conviver com a alta-sociedade. A Tanya tem um charme especial. Consegue captar a atenção de uma sala inteira, e isso fá-la brilhar, deixando sempre as pessoas a querer mais. As festas da Tanya eram os eventos sociais que todos marcavam no calendário.

Até que, de repente, deixaram de ser. Há uns meses, deixou de nos convidar para as suas festas, e deixámos de ouvir falar delas, embora isso não signifique que tenha deixado de as organizar. Parece até mais ocupada do que nunca. Ela e o namorado, o Harry – guarda-costas de um político –, compraram casa no ano passado, nos arredores de Londres, e ela tem andado ocupada com a decoração, por isso quase nunca mais a vimos, nem sequer nos convidou para a inauguração da casa.

Para a Chloe, esta viagem conta como trabalho. É a que está mais entusiasmada de todas nós. A Chloe Devine (nome verdadeiro, Chloe Smith, apelido banal que, como ela diz, nunca a levaria longe) é uma sensação do Instagram: está a apenas cinquenta mil seguidores de chegar a um milhão. Inundada de patrocínios das marcas que promove nas publicações, a Chloe adora qualquer oportunidade de exibir a sua vida de luxo. Mas um voo de primeira classe para uma ilha privada é outro nível, e ela comprou sete biquínis diferentes só para esta ocasião. Uma coisa tão simples como uma fotografia sua num café rende-lhe centenas de milhares de likes.

Se eu soubesse que bastava uma operação plástica ao nariz para ficar rica e famosa, tê-la-ia feito antes dela. Mas não tenho inveja. A Chloe continua solteira, apesar dos inúmeros «relacionamentos» que teve. Se é que se lhes pode chamar assim.

Eu tenho um casamento feliz. Sou a sortuda.

Como se me tivesse lido o pensamento, o Andrew entra na sala e dá comigo enroscada junto à janela, a guardar tudo cuidadosamente no envelope e depois na minha mala Prada. A Chloe não é a única com coisas bonitas de marca.

– Viste as minhas chaves? – pergunta o Andrew, levantando as almofadas do sofá e voltando a atirá-las para o sítio. – Juro que estás sempre a mudá-las de lugar.

Suspiro. O Andrew perde as chaves sempre que vai sair, e a culpa é sempre minha.

– Viste no bolso do casaco?

– No bolso do casaco? – repete, como se eu tivesse enlouquecido. – Porque é que estariam... – Não consigo ouvir o resto da frase quando ele sai pela porta, e ouço o tilintar das chaves. O Andrew volta poucos segundos depois, com um ar carregado. – Foste tu que as puseste aqui? Tinha a certeza de as ter tirado ontem, depois do trabalho.

– Por que raio havia eu de mexer nas tuas chaves? – Tento rir-me, para desanuviar, mas a expressão dele escurece.

– Estás sempre a mexer nas minhas coisas. – Põe-se a ajeitar a gravata em frente ao espelho pendurado por cima da lareira.

– Tens alguma coisa importante no trabalho hoje?

Ele sobressalta-se com a minha voz, mas a gravata está finalmente no sítio.

– Nada de especial. Porque é que perguntas?

– É que hoje pareces muito preocupado com a gravata. E fizeste a barba.

O Andrew suspira.

– Sinceramente, Annabel, não tens mais nada que fazer além de observar a minha rotina matinal?

– Bem, hoje é o dia da minha viagem – digo, já que ele parece determinado a não mencionar o assunto. Não esperava que me levasse ao aeroporto, isso seria ridículo. Mas esperava, talvez, acordarmos mais cedo, tomarmos o pequeno-almoço juntos, sexo matinal de despedida. Em vez disso, o Andrew adiou o despertador e eu comi torradas com abacate sozinha na cozinha. – Vou estar fora quatro noites.

– Pois, a tua despedida de solteira – diz ele. – A que horas partes?

– A qualquer momento – respondo, olhando para o telemóvel. – O táxi deve estar a chegar.

– Pareces pronta para ir. – Acena para a mala ao meu lado e depois olha para o relógio. – Não posso chegar atrasado, querida. – Não há problema. – Porque realmente não há problema. Ele tem de trabalhar, é ele quem ganha o dinheiro cá em casa, embora seja um bocado forreta, raramente me deixa fazer compras tantas vezes quanto gostaria. Mas tenho as minhas maneiras de contornar isso. Levanto-me e aproximo-me dele. – Vou ter saudades tuas.

– Vais divertir-te demasiado para isso – responde, afastando-se do abraço com que eu o envolvera.

Forço um sorriso.

– Amo-te. Vá, dá-me um beijo de despedida.

Ele ri-se.

– Vejo-te outra vez dentro de uns dias.

Estou prestes a beijá-lo antes que ele proteste mais, quando o telemóvel toca, o som súbito quebrando qualquer momento romântico que pudesse haver. Pensando que é o táxi, apresso-me a atender, sem olhar sequer para o nome.

– Estou? – digo, levando o telefone ao ouvido. O Andrew aperta-me o ombro e sai. A porta da frente fecha-se atrás dele antes de a pessoa do outro lado responder.

– Annabel, querida, és tu? Nem acredito que finalmente atendeste uma das minhas chamadas. Costumas estar sempre tão ocupada.

A minha mãe.

Gemo interiormente. Talvez ainda vá a tempo – podia desligar e fingir que houve problemas de rede.

– Mãe – digo, decidida a despachar o assunto.

– Então, como estás, pelo amor de Deus? Já há meses que não sei nada de ti.

Dizer que a minha relação com a minha mãe é complicada seria uma forma delicada de apresentar as coisas. Não houve um desentendimento dramático, nem um segredo obscuro que explicasse porque me mudei para o outro lado de Bristol e nunca mais voltei. É natural, na verdade, que depois da universidade quisesse reinventar-me um pouco. Tornei-me uma pessoa melhor, não alguém satisfeito por trabalhar numa loja, como a minha mãe. Sempre viveu na mesma casinha com dois quartos na periferia de Hartcliffe, onde eu cresci, mesmo passado tanto tempo depois de o meu pai a ter deixado. Quando conheci o Andrew e ele me apresentou aos pais – o pai, um ex-deputado, e a mãe, dermatologista, a viverem na mansão georgiana de cinco andares no centro de Clifton –, pareceu-me natural afastar-me da minha mãe.

O Andrew só esteve com ela uma vez, no casamento, quando tive mesmo de a convidar. Passei o dia inteiro num estado de pânico constante, com medo de que ela dissesse alguma coisa inconveniente, interrompendo-a e rindo-me mal ela tentava fazer uma piada, para desviar as atenções dela. Ela esforçou-se, esforçou-se mesmo, mas o vestido demasiado apertado da Next e a planta como prenda de casa- mento não estavam à altura da sofisticação da família do Andrew. A mãe dele apareceu com um vestido Givenchy de renda de Chantilly e ofereceu-nos não só um decantador de cristal com copos – «para terem alguma coisa que desembrulhar» –, mas também sete noites num resort de luxo na Islândia. O gosto deles é simplesmente mais refinado. Fiquei aliviada quando a minha mãe se foi embora, e o Andrew nunca mais perguntou por ela, por isso imagino que sinta o mesmo que eu. Ela está melhor em Hartcliffe, e nós estamos melhor aqui, numa casa georgiana idêntica à dos pais dele, apenas a algumas ruas de distância.

– Na verdade, estou a preparar-me para uma viagem – digo, na esperança de que o táxi apareça a qualquer momento e me dê desculpa para desligar. – Vou a uma despedida de solteira.

– Quem é que vai casar? – questiona a minha mãe, sempre direta ao assunto.

Pergunto-me quando terá sido a última vez que ela foi de férias. Nós nunca viajámos, quando eu era pequena, e eu invejava sempre as histórias das férias maravilhosas dos outros.

– É isso que é curioso. – Por um segundo, não sei se lhe devo contar, mas que mal pode fazer? – É o casamento da Poppy Greer.

– Da Poppy Greer? – repete ela, surpreendida. – A Poppy Greer da tua escola?

– Sim, essa mesma – digo. – É um bocado estranho, não é? Mas ela convidou-nos para passar uns dias numa ilha privada nas Bahamas. Não podíamos propriamente dizer que não.

Ouço um suspiro do outro lado da linha.

– Realmente, seria difícil recusar. Concordo. Então, tem-la visto?

– Hum... não – admito, apercebendo-me de como aquilo parece estranho. – Ela enviou-nos os bilhetes de avião com o convite. Mas temos visto as coisas que ela publica no Instagram, a falar do casamento. Voltou a seguir-nos há uns meses.

– «Temos»? Temos, quem?

– Eu, a Chloe, a Esther e a Tanya. – Porque é que soa ainda mais estranho agora que o digo em voz alta? A minha mãe tem sempre o dom de fazer parecer tudo pior do que é. – Vamos ser as damas de honor.

– Mas eu pensava que... – A voz dela desvanece-se.

– Que foi?

– Nada, devo estar enganada. – Aclara a voz e o tom suaviza-se.

– Bem, vai ser uma oportunidade para vocês as quatro se reconciliarem com a Poppy, depois de tudo. Espero que estejas a pensar nisso, e não apenas numa viagem grátis. Que bom que ela se vá casar.

Outra vez esta conversa. Sempre que tem uma oportunidade de me picar, enfia logo a agulha.

– Não temos de nos reconciliar com ela – digo. – Isso foi há dez anos. Era coisa de adolescentes, nada de sério. Tenho mais problemas agora do que os que ela alguma vez teve!

– O teu problema, Annabel, é achares sempre que o passado não importa porque já passou. Não percebes que as ações têm sempre consequências. Pensas demasiado em ti e pouco nos outros.

A mensagem de sempre. Como se eu não tivesse já coisas suficientes com que lidar.

Talvez ela sinta que me estou a afastar, porque continua, sem esperar pela resposta:

– Estou a falar a sério. Aproveita esta oportunidade para compensar a Poppy pelo passado. Vais arrepender-te se não o fizeres. Talvez seja esse o objetivo dela com esta viagem, uma oportunidade de resolverem as coisas. – Volta a suspirar, um longo suspiro. – Sabes que eu me preocupo contigo, minha querida. Mas não por teres uma agenda social muito preenchida, ou por o Andrew trabalhar demasiado. Preocupa-me que não estejas a concretizar o teu potencial. O que aconteceu aos teus diplomas? Foste a primeira da família a ir para a universidade e nem sequer lhes deste uso.

Por fim, misericordiosamente, o táxi chega à entrada, para meu alívio, e vejo o motorista a sair do carro e a ligar-me. Faço-lhe um sinal pela janela e começo a pegar nas minhas coisas.

– Tenho de ir, mãe, o taxista já chegou.

– Pensa no que te disse. Tenho saudades tuas. Gostava muito de te ver mais vezes do que só no Natal. Talvez depois destas férias possas vir passar uns dias comigo?

– Talvez – digo. – Adeus.

– Adeus, querida. Amo-te. Diverte-te na despedida de solteira. Fica à espera de que eu desligue. Faz sempre isso. Não sei porquê, já que é sempre ela a ter a última palavra. Contudo, desligo a chamada e enfio o telemóvel na mala, fazendo uma última verificação a tudo antes de sair.

Não é nada que não tenha ouvido antes, essa insistência em que eu devia fazer alguma coisa com a minha formação. Não é que eu nunca tenha pensado nisso. Escolhi Psicologia porque, na altura, era apaixonada pela ideia de compreender a mente humana, e ainda sou. Quando o Andrew não está, costumo usar o computador dele para pesquisar estudos que me interessam. É uma parte de mim que não mostro a ninguém, desde que a minha mãe se sentava na beira da minha cama a ouvir-me divagar sobre as revisões para os exames finais.

Só que não há razão alguma para usar os meus diplomas neste momento. Sim, diplomas, no plural. Também fiz um mestrado em Psicologia, com especialização em Neuropsicologia. Há algo de fascinante na forma como certos distúrbios psicológicos podem ser observados em exames e testes, provas físicas do impacto real que têm. Nunca fui fã da psicologia freudiana; discutir sentimentos e ligá-los a traumas do passado parece-me um disparate.

O motorista do táxi ajuda-me com as malas, como eu já esperava que fizesse depois de eu lhe oferecer o meu sorriso mais radiante. Chega mesmo a abrir-me a porta do carro. Sei bem que espera uma boa gorjeta, reparou no tamanho da casa, mas ainda assim sinto-me orgulhosa por ele se ter esforçado.

Quando o carro arranca e se afasta da entrada, volto-me para trás e olho uma última vez para a nossa casa. Está em nome do Andrew e foi o dinheiro dele que a pagou, mas ainda assim digo que é «nossa». Vista de fora, lembra-me o consultório de dentista aonde ia na infância, resultado da conversão de uma enorme casa georgiana. O interior fora esventrado, cada divisão convertida num espaço frio e clínico, com chão de linóleo branco e horroroso.

Olho para o telemóvel, mas o Andrew não mandou nenhuma mensagem de despedida, apesar de nunca largar o telefone, presença constante na sua mão direita, quer esteja a ver televisão, quer esteja no duche.

Para não pensar mais nele, abro outra vez o envelope com os bilhetes e a brochura e volto a folheá-la, passando os olhos pelas imagens da ilha.

Não me sinto culpada pelo passado. A minha mãe não me afetou. Não há nada a compensar em relação à Poppy, e este convite é a prova disso. Vamos divertir-nos imenso e esquecer o mundo real que deixámos para trás.

Se a Poppy ainda nos guardasse rancor, não nos teria convidado.

Agora posso relaxar. Vai ser fantástico.

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