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A ideia de que a doença de Parkinson é exclusivamente neurológica está a ser progressivamente revista pela comunidade científica. Hoje, sabe-se que nem todos os casos têm origem no cérebro, e que alguns podem começar no intestino, muito antes dos sintomas clássicos aparecerem.

No novo episódio do podcast "Top of mind" da Bial (farmacêutica portuguesa), apresentado pela médica de família Margarida Santos, Sandra Morais Cardoso, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e investigadora no CNC - Centro de Neurociências e Biologia Celular da Universidade de Coimbra, explica que existem “dois grandes tipos” de Parkinson: um de origem cerebral e outro de origem periférica.

“No primeiro grupo, a doença manifesta-se sobretudo com sintomas motores, como tremores, associados à morte de neurónios”, explica. “Mas há um segundo grupo, em que tudo pode começar no intestino.”

Esta nova perspetiva está ligada ao chamado eixo cérebro-intestino, uma ligação bidirecional entre os dois órgãos. “Temos o intestino na cavidade abdominal e o cérebro, e há uma comunicação direta entre ambos, nomeadamente através do nervo vago. É como uma autoestrada”, descreve a investigadora.

Além das vias nervosas, esta ligação envolve também hormonas e o sistema imunitário. “Há hormonas produzidas no intestino e no cérebro, e as nossas células imunes conseguem comunicar com os neurónios”, acrescenta.

É neste contexto que o intestino pode desempenhar um papel central no início da doença. Nos casos de Parkinson de origem periférica, conhecidos como gut first, os primeiros sinais surgem fora do sistema nervoso central e podem passar despercebidos.

Um dos exemplos mais relevantes é a obstipação crónica. “Se uma pessoa chega à consulta com obstipação, dificilmente será encaminhada para um neurologista”, admite Sandra Morais Cardoso.

No entanto, observações clínicas mostraram que muitos doentes com Parkinson já apresentavam sintomas gastrointestinais anos antes do diagnóstico. “Essa ligação veio dos clínicos, que começaram a reparar que muitos destes doentes tinham história de problemas intestinais”, sublinha.

Outro sinal precoce é a perda de olfato, também anterior às manifestações motoras. Ainda assim, estes sintomas são frequentemente ignorados, seja por serem comuns, seja por algum tabu associado a questões intestinais.

“Há mais facilidade em valorizar um tremor do que falar de prisão de ventre”, observa Margarida Santos. E mesmo quando existe suspeita, surge um dilema clínico: “O que dizer ao doente?”, questiona a investigadora, lembrando que a maioria dos casos não evolui para Parkinson.

É aqui que entra a necessidade de encontrar biomarcadores fiáveis. “Precisamos de marcadores com elevada especificidade e sensibilidade que permitam prever a doença numa fase precoce”, explica.

A investigação tem-se centrado, entre outros aspetos, na microbiota intestinal, os microrganismos que habitam o intestino e são essenciais à digestão e à regulação do sistema imunitário. Alterações nesse equilíbrio podem gerar inflamação, um fator associado a marcadores neuropatológicos da doença.

“Quando há alterações nesses micróbios, observamos inflamação e a presença de proteínas agregadas nos neurónios sobreviventes, um dos marcadores da doença de Parkinson”, refere.

A hipótese em estudo é que esta inflamação intestinal possa ser um indicador precoce da doença, anos antes do seu aparecimento clínico. Embora a ligação direta ainda não esteja totalmente comprovada, existem dados que a reforçam.

Doentes com doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn, apresentam um risco aumentado de terem Parkinson, ainda que reduzido, mas estatisticamente significativo. Esse risco diminui quando são tratados com terapias que bloqueiam moléculas pró-inflamatórias. “Isso fortalece a associação entre inflamação intestinal e a doença”, sublinha.

Este conhecimento pode vir a ter implicações práticas no futuro. Uma das possibilidades passa por aproveitar exames como a colonoscopia, já utilizados no rastreio do cancro colorretal, para recolher biópsias e estudar potenciais sinais precoces da doença. “Se tivermos biomarcadores fiáveis, poderemos usar essas oportunidades clínicas para identificar quem está em risco”, explica.

Ao mesmo tempo, cresce o interesse pelo impacto do estilo de vida, em particular da alimentação. “Metade das nossas células são humanas, metade são micróbios”, lembra Sandra Morais Cardoso. “Se consumirmos alimentos processados, alimentamos determinados microrganismos; se consumirmos fibras, alimentamos outros, potencialmente menos associados à inflamação.”

A exposição ambiental é outro fator relevante. A investigadora aponta o exemplo de populações expostas a pesticidas ou toxinas, onde se observaram sintomas neurológicos associados à perda de neurónios dopaminérgicos.

Apesar de ainda não existir cura para o Parkinson, a investigação em curso procura formas de travar a progressão da doença, sobretudo nos casos de origem periférica. “Estamos a tentar validar moléculas que, em modelos pré-clínicos, consigam impedir a progressão da doença do intestino para o cérebro”, revela.

Essas abordagens terão ainda de ser confirmadas em ensaios clínicos, mas abrem portas a novas estratégias terapêuticas.

A mensagem final é sobre o tempo ser um aliado. Reconhecer sinais precoces, adotar estilos de vida saudáveis e compreender que as doenças neurodegenerativas não começam necessariamente no cérebro pode fazer a diferença.

“Se conseguirmos adiar o envelhecimento patológico através das nossas escolhas, podemos também atrasar o aparecimento destas doenças”, conclui.

Para saber mais sobre temas relacionados com saúde, pode consultar a plataforma digital Bialive, desenvolvida pela Bial.

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