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Muitos operadores locais nem sequer têm site e os que têm, raramente conseguem transformar visibilidade em reservas. É precisamente nesta lacuna entre a riqueza da oferta local e a sua invisibilidade digital que nasceu a See Countries.
A plataforma, fundada por Renato Calvão, posiciona-se como uma infraestrutura digital que transforma experiências locais em inventário digital e permite a sua distribuição global através de múltiplos canais, com sede em Portugal. Atualmente reúne quase 400 experiências (de norte a sul do país e nas ilhas) além de transfers e bilheteira de eventos.
O modelo é simples na proposta, complexo na execução: a See Countries dá aos parceiros um canal de vendas, faz o marketing por eles e aumenta a sua exposição online, incluindo nos resultados de pesquisa do Google.
A batalha que não valia a pena travar
Quando Renato Calvão começou a desenhar o modelo de negócio, percebeu rapidamente que competir de frente com as plataformas internacionais era uma ideia a abandonar.
"No verão passado, em dois meses, a GetYourGuide investiu 2 milhões de dólares só em Google Ads, só nos Estados Unidos. Estamos a falar de investimentos completamente avultados."
A solução foi apostar na vertente tecnológica onde os grandes têm menos foco: o B2B. A See Countries desenvolveu integrações com hotéis e cadeias hoteleiras que lhes permitem vender as experiências da plataforma como se fossem suas, incorporadas nos seus próprios sites, apps e sistemas internos, com dashboards personalizados para cada receção ou concierge. Desta forma, os hotéis conseguem melhorar a guest experience dos seus clientes, oferecendo recomendações e reservas de atividades de forma integrada, ao mesmo tempo que criam um novo canal de receita adicional sem custo tecnológico; a See Countries ganha distribuição.
O motor por baixo da pesquisa
Um dos maiores desafios para o desenvolvimento da plataforma tem sido algo que os utilizadores raramente percebem que existe: a barra de pesquisa.
Num marketplace com centenas de experiências em categorias e localizações muito diversas, garantir que o sistema interpreta corretamente qualquer tipo de pesquisa (em diferentes idiomas, com erros ortográficos, com frases longas ou vagas) é uma engenharia considerável.
"Uma pessoa que está a ver o site em inglês e pesquisa em português, esquece-se de uma letra e o sistema não entende o que está a pesquisar. Essa talvez tenha sido, e ainda é, a maior barreira que tivemos a nível tecnológico."
No horizonte tecnológico estão também integrações com os principais booking channels (Fareharbor, Ventrata e Bókun), sistemas que alguns parceiros já usam para gerir disponibilidade em tempo real e que ainda não estão ligados à plataforma. Para o fundador da See Coutries, fechar estas integrações é parte essencial da base que sustenta tudo o resto.
"A partir do momento em que a parte tecnológica esteja montada, tudo o resto é fazível."
Dar voz ao que está escondido
Um dos propósitos mais claros da See Countries é trazer para o digital experiências que nunca lá estiveram: olaria, azulejaria, passeios em zonas remotas, atividades geridas por pessoas que nunca pensaram em ter presença online.
O fundador descreve o perfil típico destes parceiros:
"Pessoas com 60, às vezes 70 anos, que funcionam muito à base do passa a palavra. E às vezes é preciso vir um neto ou uma neta e dizer: porque é que não dinamizamos isto?"
A descentralização geográfica da oferta é hoje um dos objetivos centrais da empresa. Lisboa e Porto concentram naturalmente a maioria das experiências, mas a aposta é crescer fora das grandes cidades, em localizações onde a procura existe mas a oferta digital é quase nula e onde, não por acaso, os concorrentes internacionais ainda não chegaram.
Quanto ao papel da inteligência artificial no setor, Renato Calvão é pragmático sem ser entusiasta. A IA pode facilitar a pesquisa, a compra e a gestão operacional, mas há um limite que considera estrutural.
"O turismo é feito de duas coisas: pessoas e emoções. E isso a inteligência artificial não traz."
“Estamos à procura de investimento“
A See Countries encontra-se numa fase de crescimento e está a procurar investimento para acelerar as áreas de marketing e expansão da equipa. Embora ainda só esteja presente em Portugal, a base tecnológica da plataforma foi construída de raiz para escalar internacionalmente, estando já preparada para expansão para novos mercados.
A estratégia passa menos pela proximidade geográfica e mais pelo que o CEO da See Countries chama de “trend de mercado”: destinos em ascensão onde a oferta de experiências ainda está subdesenvolvida digitalmente. Cabo Verde surge como exemplo concreto, um mercado em crescimento acelerado onde encontrar um operador local na internet é, ainda hoje, quase impossível.
O objetivo a cinco anos é uma plataforma consolidada em Portugal, presente em pelo menos mais três ou quatro países, com app própria e a base tecnológica totalmente fechada. O ponto de partida, como o fundador bem sabe, é sempre o mais difícil.
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