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No Algarve, o atraso ronda os três anos. Noutros hospitais, pode chegar a uma década. Este desfasamento impede que se saiba, à data de hoje, qual é o verdadeiro retrato do cancro em Portugal, dificultando o planeamento de tratamentos e a aquisição de medicamentos. A AuroraMed, tecnológica portuguesa especializada em IA para a saúde, desenvolveu uma solução que promete resolver este problema estrutural.

Carlos Gouveia Martins, um dos três fundadores da empresa, explica como nasceu esta resposta a um desafio nacional.

A AuroraMed nasceu no final de 2024, fundada por três amigosCarlos Gouveia Martins, farmacêutico com experiência na administração pública e na indústria farmacêutica; Sérgio Menezes Pina, médico internista e diretor clínico com experiência em gestão de unidades de saúde; e Miguel Coquet, engenheiro informático com experiência no desenvolvimento de soluções escaláveis e de alto impacto. Foi criada para automatizar tarefas clínicas complexas através de inteligência artificial (IA) de alta precisão

O primeiro produto da empresa foi o Argus, uma solução de codificação clínica. Cada doença tem um código específico (ICD-10) que tem de ser registado nas guias de alta. Os médicos perdem, em média, entre 20 a 40 minutos a codificar cada relatório, procurando códigos em livros. É um trabalho repetitivo que retira tempo ao contacto direto com os doentes.

A solução da AuroraMed codifica tudo em menos de um segundo, identificando todos os códigos necessários, não apenas os três ou quatro mínimos que habitualmente se registam, mas todos os que estão presentes. O médico valida no final, mantendo sempre a decisão clínica, mas poupa dezenas de minutos por relatório.

Quando o Argus foi apresentado ao diretor do Serviço de Oncologia do Algarve, Paulo Luz, surgiu uma oportunidade maior: usar esta tecnologia para recuperar o atraso no Registo Oncológico Nacional.

Um problema esquecido

Registo Oncológico Nacional serve para apurar a prevalência de cada tipo de cancro em Portugal. Esta informação é fundamental para que hospitais e indústrias farmacêuticas saibam que medicamentos são necessários, em que quantidades e para que tratamentos. Mas os dados estão “dramaticamente atrasados”.

Carlos Gouveia Martins conta que foi o médico Paulo Luz quem alertou para a dimensão do problema: o registo tem três anos de atraso no Algarve, mas há hospitais nacionais com quase uma década de dados por processar.

As consequências práticas são concretas. Pode acontecer que, numa região, se pense que a maior prevalência é o cancro da próstata e se orçamentem milhões para medicação específica, quando na realidade a incidência mudou e é o cancro da mama que exige mais recursos. Os hospitais ficam estrategicamente desfasados, sem saber onde deveriam estar a atuar farmacologicamente.

“Não sabemos, à data, qual é o retrato real, qual é o tipo de cancro com maior prevalência e maior incidência. Os hospitais devem contratualizar o tipo de serviços com base nessa informação e não sabemos. À data de hoje está um bocado perdido, o país todo, não é só o Algarve, é o país todo”, alerta o farmacêutico.

Codificação com IA em menos de um segundo

A epidemiologista Maria José Bento, atualmente coordenadora do Registo Oncológico Nacional (RON), manifestou interesse imediato em expandir a solução para todo o país.

“Os registos de estatística de Oncologia estavam atrasados. Nós vamos pô-los em dia para que os hospitais possam, à data de hoje, resolver um problema que andava meio esquecido.”

solução já está contratualizada e implementada contratualizada e implementada na ULS do Algarve. Estão em fase final de contratualização hospitais em Famalicão, Braga e no Alto Minho, e já foi fechado um contrato para testbed com a Luz Saúde, a nível nacional. O IPO de Lisboa também já estabeleceu contacto.

Em termos financeiros, cada guia de alta custa atualmente cerca de 25 euros ao SNS quando codificada por um médico. Com a solução da AuroraMed, o custo ronda os 65 cêntimos uma redução drástica que permite poupar recursos e libertar tempo médico para o que realmente importa: o doente.

Próximos passos

A AuroraMed inspira-se em casos de sucesso portugueses como a Sword Health, que desmistificou o uso de IA em fisioterapia ao tornar público o seu trabalho e demonstrar valor real. A estratégia passa por seguir essa retórica de transparência, demonstrar o que estão a fazer, provar que o médico não perde a sua capacidade de avaliação e que o doente ganha mais tempo de cuidado direto. Além disso, não põem de parte futuras parcerias com startups como a Sword ou outras da mesma área. Possíveis investidores também são bem-vindos nesta fase.

A empresa já foi convidada para apresentar a solução na Convenção de IA no Parlamento Europeu. Está atualmente a negociar uma parceria com uma empresa do Canadá, que deverá incluir investimento direto, e tem também abordagens do Reino Unido, onde o problema da codificação clínica é idêntico.

Recentemente distinguida com o selo “Impact Startup” na Web Summit, a tecnológica reuniu-se com o Gabinete do Secretário de Estado da Digitalização para apresentar contributos para a Agenda Nacional de Inteligência Artificial, posicionando-se como parceiro estratégico na saúde digital em Portugal.

Daqui a cinco anos, Carlos Gouveia Martins, um fundadores da AuroraMed, espera estar a resolver os mesmos problemas noutros países, demonstrando que uma solução desenvolvida em Portugal pode ter impacto global. Por enquanto, o foco é nacional: recuperar anos de atraso no conhecimento sobre o cancro em Portugal e garantir que hospitais, médicos e doentes têm acesso à informação atualizada que pode salvar vidas.

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