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A “moda” é simples. Nos últimos tempos multiplicaram-se nas redes sociais vídeos, memes e discussões sobre um fenómeno que é absurdo: homens que admitem não lavar a zona anal e que fazem disso motivo de orgulho, quase como um estandarte de uma certa masculinidade tradicional.

A ideia circula sobretudo em plataformas como o TikTok e o Reddit, onde homens relatam que a água que escorre da cabeça é suficiente para lavar o resto do corpo, enquanto outros simplesmente se recusam a lavar a zona anal durante o banho. Também há quem afirme que não precisa de trocar de cuecas todos os dias, e que uma vez por semana é mais do que suficiente.

Outros relatos vão ainda mais longe: receiam de que qualquer gesto de cuidado com o próprio corpo seja associado à homossexualidade. Há homens que afirmam evitar lavar ou tocar nessa zona por medo de parecerem “menos heterossexuais”, garantindo mesmo que tocar nessa parte do corpo é “coisa de gays”. O que encontramos aqui é uma mistura curiosa, e preocupante, de desinformação, medo e homofobia.

Assim, o que poderia ser uma piada inofensiva sobre skid marks (vestígios de fezes nas cuecas) transformou-se numa conversa mais séria sobre higiene masculina, saúde e papéis de género. É difícil imaginar um disparate maior: a ideia de que um homem é “mais homem” porque não lava uma parte do corpo: o próprio ânus. Estaremos a regressar a uma espécie de Idade das Trevas?

Masculinidade frágil, higiene opcional

Esta narrativa não surge do nada. Durante décadas fomos socializados com uma equação implícita: quanto menos um homem cuida de si, mais masculino é. O corpo masculino deve ser resistente, rude, despreocupado e indiferente aos detalhes. Cuidar de si próprio torna-se suspeito. Gestos simples como usar creme, ir ao médico com regularidade, falar de emoções ou, aparentemente, lavar-se com zelo, passam a ser vistos e policiados, em alguns círculos, como sinais de fragilidade.

É um exemplo claro de como uma masculinidade frágil pode levar a comportamentos irracionais. Mas não é apenas uma questão cultural: é também um problema básico de saúde. O corpo reage rapidamente à negligência, e a higiene inadequada dessa zona pode causar irritações, infeções, odores persistentes, dermatites, hemorroidas e acumulação de bactérias. E não é apenas no ânus: a falta de limpeza pode levar à aglomeração de esmegma no pénis (mistura de secreções naturais e células mortas), provocando mau odor, inflamações e infeções como a balanite. Em casos mais persistentes, podem surgir irritações dolorosas, infeções fúngicas e problemas urinários.

Curiosamente, em muitas culturas fora do contexto ocidental, a lavagem da zona anal após usar a casa de banho é prática comum, muitas vezes através de bidés ou sistemas semelhantes, precisamente por razões de higiene. O que em algumas partes do mundo é visto como normal, noutras tornou-se alvo de estranhas resistências culturais.

O que isto diz sobre os homens

É fácil rir deste tema. Mas talvez devêssemos prestar atenção ao que ele esconde. Quando uma geração de homens é socializada a acreditar que cuidar do próprio corpo ameaça a sua masculinidade, temos um problema cultural sério. Não estamos a falar apenas de higiene; estamos a falar de uma identidade masculina construída sobre negação, medo e ignorância.

Sejamos sinceros: qualquer forma de masculinidade deveria ser suficientemente robusta para sobreviver a um sabonete.

Nos últimos anos assistimos a avanços importantes nas conversas sobre masculinidades: maior abertura emocional, mais consciência sobre saúde mental, mais reflexão sobre papéis de género. Mas, ao mesmo tempo, cresce nas redes sociais uma espécie de nostalgia por modelos caricaturais de masculinidade: o homem bruto, despreocupado, anti-intelectual, orgulhosamente ignorante.

Quando chegamos ao ponto de ver homens a vangloriarem-se de não lavar o próprio corpo ou de não trocar de cueca, já não estamos perante uma piada da internet. Estamos perante um sintoma de algo maior: um modelo de masculinidade que aprisiona mais do que liberta, que encerra rapazes e homens dentro de regras absurdas em vez de os encorajar ao autocuidado.

E este modelo tem outras consequências invisibilizadas e que silencia muitos homens sobreviventes de violência sexual. Um homem “a sério”, dizem-nos esses códigos culturais bafientos, não pode ser vulnerável, não pode ser vítima, não pode admitir que foi abusado. Muito menos por outro homem.

A lógica prevalente é a mesma: a de que ser homem implica negar o corpo, negar o cuidado e negar a própria vulnerabilidade. E enquanto insistirmos em modelos-cárcere de masculinidade; estreitos, rígidos e punitivos; continuaremos a produzir homens afastados de si próprios, incapazes de cuidar do corpo, da saúde e das emoções. Libertar os homens dessas prisões não é um detalhe ideológico; é uma condição para vidas mais saudáveis, relações mais justas e uma sociedade mais humana e igualitária.

Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”.

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