O chefe do Kremlin está nestes dias a mostrar-se agressivo e conquistador sem recuos como nunca. Garante que ganhará “a bem ou a mal”. Mas diz-se disposto a discutir o plano em 28 pontos, alterados para 19 pelos europeus, e que, segundo Trump, em posts tornitruantes como só ele parece ter o segredo, está destinado a levar à paz.

De facto, apesar da retórica agreste do Kremlin, talvez esteja a chegar o momento: Putin quer ganhar a guerra, tanto que continua a bombardear cada vez mais intensamente ao mesmo tempo que há negociações, mas está a perder muito dinheiro e teme que se avançar o plano europeu de reutilização de depósitos russos, na ordem dos 300 mil milhões, que estão congelados do lado ocidental, como fundo de reparação para a Ucrânia, o golpe seja duro para o Kremlin.

Por outro lado, Zelensky está debilitado, cercado pelas histórias de corrupção.

Talvez por isso possa estar no horizonte a surpresa de um acordo. O otimismo é moderado.

O que é certo é que, pela segunda vez em poucos meses, Trump e Putin tentaram impor uma solução diplomática vexatória Para a Europa e para Kiev. E pela segunda vez, fracassaram nesse desprezo.

A primeira tentativa foi em agosto, após a cimeira de Anchorage, onde Trump recebeu com todas as honras, o criminoso de guerra Putin, procurado pelo TPI, tornando-se de facto o porta-voz das exigências que a Rússia pretende impor para pôr fim ao inferno na Ucrânia. Nessa altura, os líderes europeus e  Zelensky tiveram de intervir para o dissuadir, fazendo-o recuperar temporariamente o bom senso, e compreender que a paz não pode ser significar capitulação perante o agressor.

A sensatez foi de curta duração. Estamos em novembro e Trump insiste com mais de quase o mesmo: apresentou um plano com 28 pontos que, mais uma vez, parece ter sido escrito pelo Kremlin, e que Putin não hesita em elogiar. Trump chegou a ousar ditar um ultimato a Zelensky: tinha até à última quinta-feira para assinar a rendição.

Teve de recuar. A Europa mostrou grande firmeza na reação a esse plano, teve a inteligência de criar um plano alternativo, tomando o de Trump como base, mas reduzindo os pontos, de 28 para 19 e excluindo as cláusulas mais inaceitáveis, designadamente cedências territoriais e limitações à futura soberania da Ucrânia.

A Europa mostrou-se firme, valente, e Trump compreendeu, viu-se obrigado a conciliar.

O enviado americano Steve Witkoff, agora suspeito de inquietante conivência com gente do Kremlin, está de volta a Moscovo para levar a Putin a proposta de facto europeia-ucraniana que Trump subscreve. É um plano de paz com sintaxe que não é ditada pelo Kremlin, mas essencialmente pela Europa. Leva a assinatura de Trump como autor.

Talvez a vontade de Putin de entendimentos com Trump, e a necessidade salvar aqueles 300 mil milhões abra portas à paz, com compromissos. Talvez a Rússia venha conseguir, para além da Crimeia, uma parte do Donbass que em três anos e meio de guerra nunca conseguiu ocupar totalmente.

Há uma esperança, ainda que moderada, de todos ganharem a paz.