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A altura não é das melhores para os Estados Unidos, metidos numa guerra inútil (para eles), enquanto Pequim pode ou não estar envolvida, mas consegue muito bem manter a aparência de neutralidade. Já o faz há anos, sabendo que não vai precisar de muitas lantejoulas para ganhar o concurso de Miss Universo, quando a altura chegar. (Essa altura será, acho eu, quando puder invadir impunemente Taiwan).
Quanto a Trump, levado a entrar numa guerra impossível de ganhar por pressão de Netanyahu e do lóbi judaico nos Estados Unidos, ainda não percebeu que o Irão é quem tem as cartas.
Ingenuamente (apetecia-me dizer estupidamente) obcecado com a ideia de que o vencedor da guerra é quem tem mais poder destruidor, acha que pode ditar os termos da paz a Teerão. Como é que os estrategas norte-americanos não perceberam que a chave do conflito é o estreito de Ormuz, não se compreende. (Talvez valha a velha afirmação de Schiller de que contra a burrice humana lutaram em vão os deuses do Olimpo...)
O facto é que o estreito, por onde passa 20% do petróleo mundial, está naturalmente (quer dizer, pela geografia) na mão do Irão, e Trump já percebeu que nunca o poderá dominar. Assim, o Irão pode pedir o que quiser, inclusive suspensão das sanções e até uma indeminização pelos estragos à sua infraestrutura.
Mas voltemos a Pequim, onde uma festança aparatosa encaixou perfeitamente o gosto dos chineses pelo luxo grandioso com a necessidade de Trump de se sentir muito importante. Pouco se falou de guerra ou guerras, uma vez que os chineses estão interessados é em bons negócios e para Trump tudo é negócio.
Basta ver alguns nomes dos 17 membros da sua comitiva: Tim Cook (Apple), Larry Fink (BlackRock), Stephen Schwarzman (Blackstone), Kelly Ortberg (Boeing),Brian Sikes (Cargill), Jane Fraser (Citi), Larry Culp (GE Aerospace), David Solomon (Goldman Sachs), Michael Miebach (Mastercard), Dina Powell McCormick (Meta) Sanjay Mehrotra (Micron), Jensen Huang (Nvidia), Cristiano Amon (Qualcomm), Elon Musk (Tesla) e Ryan McInerney (Visa). Esta gente não viajou milhares de quilómetros para discutir Taiwan ou as pescas no Mar da China.
Julian Gewirtz, professor na Universidade de Columbia e ex- conselheiro de Segurança Nacional de Biden, comentou que Pequim enviou Han Zeng para receber Trump no aeroporto, o membro do Pollitburo que já tinha ido à tomada de posse do Presidente, o que significa que Xi prefere o simbolismo à substância, usando o protocolo como substituto de resultados substantivos, impedindo uma escalada económica e dando mais tempo aos chineses para alavancar a sua economia. Como vice-Presidente, a escolha Hang Zeng pode significar que Pequim reconhece a posição dominante atual dos Estados Unidos (Han esteve na coroação do rei Carlos III, por exemplo), mas simultaneamente acha que essa posição não será para sempre – o dignatário acaba de sair do Politburo do PCC, ficando com pouca influência prática nos negócios do país.
Entretanto, no mesmo dia, o Irão começou a deixar passar os navios chineses pelo estreito de Ormuz e a delegação chinesa criticou os Estados Unidos numa reunião dos BRICs. Ou seja, a festa em Pequim não desvia os reais interesses da China. E o principal, a médio prazo, é, evidentemente, Taiwan. Segundo a agência noticiosa oficial, “se o caso (de Taiwan) for tratado como deve de ser, os dois países podem manter uma estabilidade. Se for mal tratado, os dois países podem chegar a um confronto, colocando todo o relacionamento entre eles numa situação extremamente perigosa.” Este texto ao nível quase infantil reflete a lógica chinesa de ameaçar num tom inocente.
Trump, muito à sua maneira, não tinha nenhuma resposta preparada. Quando os media lhe perguntaram sobre a ilha que insiste em ser um país, olhou para o lado e recusou-se a dizer o que quer que seja, embora tivesse acabado de responder a uma questão sobre outro assunto. Esta atitude foi logo notada por Taiwan, que tem comentado amargamente a ausência de garantias concretas por parte dos norte-americanos.
Na sexta-feira, depois de ouvir as preocupações de Xi, Trump limitou-se a afirmar que ainda não tinha decidido sobre o seguimento de um pacote de armamento para a ilha,. Só quando já estava no ar a caminho de casa é que afirmou qualquer coisa como que tinham sido feitos progressos importantes para a estabilização entre os dois países, apesar das divergegências óbvias, tanto quanto a Taiwan como o Irão. Em Dezembro, o governo norte- americano tinha aprovado um pacote de onze mil milhões, mas Taipei ainda não recebeu concretamente nada.
Resumindo as vénias e os salamaleques, nada de concreto foi decidido sobre coisa nenhuma (os negócios que a comitiva de empresários terá feito não foram divulgados. Apenas se falou na possível compra de 200 aviões Boing, omitindo que a China acaba de encomendar 400 Airbus.) As palavras finais, de parte a parte, foram que Estados Unidos e China mantêm uma “estabilidade estratégica competitiva.” O que significa concretamente esta rebuscada expressão? Não dá para perceber, e talvez seja essa a intenção. O melhor é perguntar aos deuses do Schiller.
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