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Passam dois meses desde o começo da guerra e, por mais que Donald Trump proclame vitória, é evidente que não só não a tem como os custos do cenário que montou são muito pesados: a crise energética está a disparar o preço de quase tudo, a relação com os aliados degradou-se mais (as empresas dos EUA não vão querer tensões com o seu maior mercado no exterior, o europeu, com mais de 500 milhões de consumidores), a guerra já levou a vida de 13 soldados americanos (e milhares de cidadãos, militares e civis, do Irão) e está com custos de milhares de milhões de dólares.

Nunca ficou claro que Trump tivesse o objetivo de derrubar o regime iraniano. A ditadura teocrática ficou decapitada logo no primeiro dia mas o regime que cultiva a resistência de imediato substituiu as cabeças assassinadas por outras ainda mais radicais, com a Guarda Revolucionária a assumir comando mais proeminente.

Netanyahu aliciou Trump para que alinhassem juntos no ataque desencadeado em 28 de fevereiro. O chefe de Israel quer guerra que lhe dê mais poder no Médio Oriente, Trump caiu na armadilha montada pelo amigo. Mobilizou um enorme arsenal aeronaval, destruiu muito no Irão, mas sem saber construir soluções. Trump ousou ameaçar “eliminar a civilização persa”, talvez já tenha entendido o ridículo da afirmação. 

O braço de mar com 60 quilómetros de extensão e 30 de largura, batizado Estreito de Ormuz, com importância que os navegadores portugueses do século XVI logo identificaram, tornou-se, com o desencadear da guerra, o centro do mundo. Jogam-se ali os destinos de um conflito com efeitos nefastos para os tantos países que dependem da importação da energia do petróleo e do gás liquefeito, também dos fertilizantes que alimentam a indústria agroalimentar. Antes da guerra não havia esta crise. A guerra trouxe os bloqueios que ameaçam causar recessão global.

É óbvio que Donald Trump está ansioso por terminar a guerra e tratar de recuperar simpatias entre os eleitores americanos que, a seis meses das eleições midterm, as intercalares de 3 de novembro, têm as sondagens a castigar tanto Trump (saldo negativo de 14,6%) como os republicanos (18,4% negativos). 

Trump quer tanto pôr fim à guerra que, para satisfazer condições para compromisso, ordenou em tom invulgarmente ríspido a Netanyahu que deixe de atacar alvos no Líbano. Mas o chefe israelita tem a obsessão da guerra, desobedece e continua a atacar.

O desejo de Donald Trump de terminar a guerra rapidamente e chegar a um acordo que possa vender como uma vitória deu a Teerão poder negocial. No meio do impasse causado pelos bloqueios simultâneos do Estreito de Ormuz, os esforços para regressar à mesa das negociações estão suspensos. Entre os EUA e o Irão, estamos em fase de nem guerra nem paz, mas sob ameaças.

Ormuz é um dos pontos de conflito, o programa nuclear iraniano é outro.

Trump já deve ter percebido que o regime iraniano não vai capitular. O presidente dos EUA necessita de arranjar uma narrativa: precisa de poder invocar que a guerra foi uma necessidade e que conseguiu melhor acordo para restringir as ambições nucleares do Irão do que a administração Obama alcançou em 2015, quando assinou um acordo multilateral com o Irão conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA). Trump retirou-se deste pacto durante o primeiro mandato, criticando-o duramente como "horrível" e "unilateral".

Ambos estes elementos – a necessidade de Trump de terminar a guerra e de chegar a um acordo que possa apresentar como uma vitória – dão poder negocial aos iranianos. Há duas semanas, Trump tinha publicado nas redes sociais que o Irão "não tinha cartas na manga", a não ser a "extorsão a curto prazo" na utilização das vias navegáveis.

Mas o Irão, apesar de ter sofrido pesadas baixas militares, continua a lutar contra as forças armadas mais poderosas do mundo. E o regime de Teerão tem um trunfo: a capacidade para, mesmo com um exército enfraquecido, interromper o tráfego na vital via navegável comercial do Médio Oriente e assim manter a economia mundial como refém. 

Trump quer o fim da guerra que sirva a fanfarronice dele, mas está bloqueado pelo poder iraniano que se permite esticar a corda animado pelo princípio de que ao resistir está a vencer. Enquanto não consegue bases airosas para sair da guerra vai certamente continuar com os ziguezagues, as ameaças apocalípticas para recuar no último minuto, os comentários depreciativos contra os seus parceiros europeus e a NATO, e até mesmo purgas no Pentágono dos militares que ousam criticar o sistema de poder dele.

Este fim de semana trouxe, com os disparos na gala dos correspondentes no hotel Hilton de Washington, uma distração nas discussões sobre a guerra. Reabre-se a discussão — todas as ocasiões são boas — sobre o ódio e as armas que proliferam  nos EUA.

O deputado democrata Ro Khanna propõe uma "comissão bipartidária para combater a violência política", Trump prefere salientar que "os grandes líderes atraem assassinos", desde Lincoln.

A escritora Joyce Carol Oates comenta o que está a ser mostrado do que aconteceu na gala dos correspondentes dizendo que lhe lembra um epílogo de um filme de Fellini a “explorar as ligações íntimas entre a deterioração mental, a degeneração moral e a dinâmica do poder (machista)”.

Também poderíamos recorrer ao cinema de Pedro Almodovar  para contar que Trump nestes dias está “À beira de um ataque de nervos”.

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