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Há dias em que o mundo parece parar quando assistimos a declarações profundamente absurdas e perigosas, como as de Cristina Ferreira no programa Dois às 10, durante a discussão sobre o caso de alegada violação de uma jovem.

Parece-me claro que, quando se discutem crimes de violência sexual, o debate público exige rigor, responsabilidade e, acima de tudo, respeito pelas vítimas. Infelizmente, isso nem sempre acontece, e foi precisamente isso que vimos.

Quando alguém com enorme visibilidade mediática sugere que uma vítima deveria ter antecipado “riscos”, ou quando se questiona a clareza de um pedido para parar, o que está a fazer não é apenas comentar um caso. Está, consciente ou inconscientemente, a alimentar aquilo que há décadas está identificado como cultura de violação: um conjunto de narrativas sociais que tende a escrutinar o comportamento das vítimas, a questionar as suas decisões ou circunstâncias e, simultaneamente, a desresponsabilizar por completo quem comete o crime.

Linhas de apoio violência sexual

Em Portugal existem algumas organizações para apoiar sobreviventes de violência sexual.

O Footsteps to Inspire está também aberto às suas histórias. Se foi vítima de violência sexual, pode entrar em contacto com Claire McFarlane através da página do projeto (em inglês).

Linhas de emergência

Para vítimas de violência doméstica, a Segurança Social disponibiliza a linha de emergência gratuita 144.

Para situações em que precisa de apoio urgente, ligue 112.

Pergunta-se porque a vítima foi, aceitou, se quis ou não quis. Pergunta-se porque ficou, porque não gritou, porque não esperneou e pediu ajuda. Pergunta-se porque não disse “não” ou se o disse porque não o fez de forma suficientemente clara. Pergunta-se porque não antecipou o perigo e porque se colocou em risco. E não se faz a única pergunta que verdadeiramente importa: porque decide alguém violar?

Importa reafirmar o que deveria ser óbvio, mas que continua a ser necessário repetir: a responsabilidade por uma violação é exclusivamente de quem viola. Nenhuma circunstância, o contexto, as pessoas presentes, decisões anteriores da vítima ou qualquer outra variável, justifica, valida ou relativiza um crime de violência sexual.

Da mesma forma, convém recordar um princípio simples do consentimento: ele pode ser retirado a qualquer momento. Mas precisamos também de ir mais longe na conversa sobre consentimento. Nem sempre é possível dizer “não” e, mesmo quando o é, isso não significa que seja respeitado. A ideia de que um “não” irá parar um violador é uma falácia que, inevitavelmente, acaba por culpabilizar as vítimas e por aliviar a responsabilidade do agressor.

Por isso, em vez de perguntarmos como poderia uma jovem parar quatro violadores, talvez devêssemos parar para refletir sobre como quatro rapazes decidem violar uma jovem, filmar o crime e partilhá-lo. É esse o verdadeiro centro da conversa sem arranjar desculpas como a adrenalina do momento. E, claro, o bem-estar da vítima, e não o escrutínio sobre a forma como reagiu ou se comportou.

Repitamos até à exaustão: nada do que aconteceu é ambíguo, complexo ou discutível. A responsabilidade é sempre de quem decide violar.

Num país onde persistem ainda tantos mitos e tanta desinformação sobre violência sexual, o discurso público tem um peso enorme na forma como a sociedade interpreta estes crimes. Comentários feitos em televisão nacional, perante milhares de espetadores, ajudam a moldar perceções, atitudes e crenças.

Por isso, quem ocupa esse espaço mediático, como a Cristina Ferreira, e se propõe a falar destes assuntos, queira ou não, tem uma responsabilidade acrescida.

Porque, cada vez que se sugere que a vítima poderia ter feito algo diferente, o que se transmite a todas as outras vítimas é uma mensagem tácita mas poderosa: se falares, também serás escrutinada. Também terás de justificar cada decisão, cada gesto, cada circunstância.

E esse é um dos motivos pelos quais tantas vítimas continuam em silêncio.

Num momento em que tantas vítimas continuam com medo, vergonha ou receio de não serem acreditadas, o espaço público deveria ser um lugar de clareza, empatia e responsabilidade; e não mais um tribunal onde quem sofreu a violência tem de se defender.

Se queremos realmente combater a violência sexual, o primeiro passo é simples: parar de procurar erros nas vítimas e começar, finalmente, a responsabilizar quem comete o crime.

Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”.

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