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Até ao Concílio Vaticano II (1962/1965), tudo estava imóvel. Mas, então, esta assembleia magna no Vaticano trouxe a Igreja Católica para os caminhos da modernidade. Mas, para os lefebvrianos, as decisões do Vaticano II são uma perversão. Condenam a abertura na liturgia, o abandono da missa tridentina em latim com o celebrante de costas para os fiéis, também rejeitam o diálogo ecuménico e inter-religioso.

Os lefebvrianos de agora alinham politicamente com as posições soberanistas e antiglobalistas, defendem o soberanismo branco, são hostis ao abrir de portas do Ocidente a “gentes de outros mundo”, por isso se opuseram tenazmente ao Papa Francisco. Julgaram que o americano que foi eleito Papa poderia ser um conservador. Agora, um ano depois da escolha de Leão XIV, constatam que o Papa americano segue pelo trilho do antecessor e, assim, avançaram com a dissidência.

Nesta quarta-feira, apesar de advertidos pelo Vaticano, através de nota do Dicastério para a doutrina da fé, reforçada por carta do Papa Leão XIV, para que não ousassem, quatro novos bispos foram consagrados pela fraternidade ultratradicionalista: o suíço Pascal Schreiber, o americano Michael Goldade, e os franceses Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier. Todos com idade entre os 36 e os 53 anos.

Cerca de 20 mil fiéis assistiram ou dentro da “catedral” ou através dos ecrãs gigantes no exterior. Houve transmissão direta através das redes sociais, com anúncio de amplo acompanhamento nos Estados Unidos da América. Em templos americanos houve transmissão em diferido da celebração.

O rito é como um sudário, um pano que envolve e, simultaneamente, separa não só de Deus, mas também do mundo.

Assim, os lefebvrianos oficializaram o rompimento com Roma. Foi o regresso à excomunhão decretada em 1988 pelo Papa João Paulo II quando o arcebispo Marcel Lefebvre também ordenou quatro bispos, fora da ordem de Roma.

Essa pena canónica veio a ser revogada pelo Papa Bento XVI, que quis procurar a reunificação da Igreja Católica, embora à custa de algumas concessões aos setores mais tradicionalistas.

Há quem veja estas disputas em nome da doutrina da fé como um bem para a Igreja, porque mostram vitalidade.

Neste caso da fratura lefebvriana, as motivações doutrinais estão entrelaçadas com as políticas. Há convergência com fações católicas ultraconservadoras nos EUA – onde é forte o confronto entre setores muito ligados ao MAGA de Trump e, em especial, ao vice J.D. Vance, e uma ala progressista com quatro cardeais em grande sintonia com o Papa americano. Muito do robusto financiamento desta doutrina lefebvriana tem origem mos EUA.

É facto que os cismas têm acompanhado continuamente a história da Igreja. Um dos mais famosos e menos antigos na ordem cronológica é o cisma anglicano de 1534. Surgiu de uma série de razões que, na crença popular, são simplificadas ao desejo do rei Henrique VIII de se divorciar de Catarina de Aragão para se casar com Ana Bolena, por quem se apaixonara e de quem também esperava obter uma linhagem masculina sólida que garantisse o futuro da dinastia.

Divórcio, será um termo impreciso; o rei estava, na verdade, a pedir ao Papa Clemente VII a anulação do casamento, um recurso engenhoso para contornar a sacralidade do vínculo. Roma optou pela recusa, e também aqui as razões são complexas. Após o saque de Roma em 1527, Clemente VII estava muito vulnerável ao Imperador Carlos V, que enviara as suas tropas para devastar Roma. O imperador, sobrinho de Catarina, pressionava para defender a tia. Anular o casamento, que notoriamente fora consumado, teria sido um acto claramente hostil que seria melhor evitar. É assim que este cisma também tem razões de conveniência política. Com o Ato de Supremacia (1534), Henrique VIII foi proclamado chefe supremo da Igreja de Inglaterra (Anglicana Ecclesia), título transmissível a todos os seus sucessores. A Rainha Isabel II era a governante suprema, tal como o seu filho, o atual soberano Carlos III, e o mesmo acontecerá com o atual príncipe William, no dia em que subir ao trono.

Este cisma que deu origem à Igreja Anglicana foi antecedido, poucos anos antes (31 de outubro de 1517) pelo de Martinho Lutero que com a Reforma Protestante separou grande parte do norte da Europa da Igreja de Roma.

Outra fratura religiosa carregada de drama foi o Cisma do Oriente de 1054. Neste caso, as razões doutrinárias, políticas e de poder que ditaram a separação entre a Igreja Católica e a ortodoxa estão ainda mais claramente interligadas.

A história da Igreja é longa. Esta fratura lefebriana de agora é um dos acidentes nessa história.

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