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A guerra na Ucrânia e, mais recentemente, o conflito no Irão transformaram-se nos maiores laboratórios da mais recente IA militar da história. Não por escolha filosófica ou outra, mas sim por necessidade operacional.

Em Março de 2026, os drones já são responsáveis por 96% das baixas russas no campo de batalha. Em 2025, os drones ucranianos mataram ou feriram gravemente mais de 240.000 soldados russos, segundo os dados disponíveis. O objectivo declarado da Ucrânia é atingir 50.000 baixas mensais, um número que, segundo o Ministério da Defesa ucraniano, compensaria a vantagem numérica russa. A Ucrânia foi mais longe ainda: a 13 de Abril deste ano capturou pela primeira vez uma posição inimiga utilizando exclusivamente drones aéreos (UAV) e sistemas robóticos terrestres (UGV), sem qualquer soldado no terreno. Os militares russos acabaram por se render e a operação foi concluída sem baixas ucranianas, mas já existia um precedente conhecido em Julho de 2025, quando a 3.ª Brigada de Assalto ucraniana tomou uma posição russa na região de Kharkiv usando exclusivamente drones FPV e robôs terrestres, levando à rendição de militares russos. Do ponto de vista histórico-militar, o mais interessante não é tanto o tamanho da posição capturada, mas o precedente que muitos analistas veem como um marco comparável à introdução do carro de combate na I Guerra Mundial ou do poder aéreo na II Guerra Mundial.

O conflito no Irão, na Operação designada Epic Fury, marcou o primeiro teste em larga escala de uma máquina militar verdadeiramente integrada com IA. Mais de 13.000 alvos atingidos, 1.000 deles no primeiro dia, segundo o CENTCOM. Por trás destes números está o MavenSmart System da Palantir, herdeiro do Project Maven do Pentágono, desenvolvido inicialmente em 2017, que comprime decisões de “targeting”, leia-se seleção e aquisição de alvos, que outrora demoravam dias para uma questão de segundos. Também o drone LUCAS, o primeiro sistema de ataque autónomo de baixo custo dos EUA, foi ali utilizado em combate pela primeira vez, usando reconhecimento de objectos por visão computacional em vez de coordenadas satélite estáticas. E foi ali também que um míssil Tomahawk destruiu a escola primária Shajareh Tayyebeh no sul do Irão, onde morreram 120 crianças. A escola ficava a menos de 100 metros de uma instalação militar dos Guardas da Revolução (IRGC), mas tinha sido separada dela por um muro construído entre 2013 e 2016. Tinha presença nas redes sociais. Tinha um website. E foi adicionada a uma lista de alvos gerada por IA sem supervisão humana adequada. A resposta do Pentágono foi a mesma que seria dada para qualquer outra falha sistémica: “os humanos tomam sempre a decisão final.” Porém, sabe-se que ao mesmo tempo, a equipa de avaliação de baixas civis do CENTCOM (U.S. Central Command) tinha sido reduzida de dez elementos para um. A supervisão humana estava procedimentalmente presente, mas substantivamente vazia.

A IA está a entrar em processos de decisão que operam em múltiplos níveis em simultâneo, mas a nossa compreensão de como os humanos interagem com estes sistemas permanece incompleta, e aqui está o problema central que nenhum orçamento de defesa resolve por si só.

O Carnegie Endowment for International Peace, influente “think tank” dedicado à política externa e às relações internacionais, identificou com precisão o que chamou de “nevoeiro de IA”: não uma ausência de informação, mas o seu excesso. A IA produz um nevoeiro gerado pela informação em vez da sua falta, o que é, em certos aspectos, talvez mais perigoso. Humanos com menos tempo para questionar os “outputs” das máquinas. Supervisão humana presente, mas substantivamente curta: ou seja, o operador está lá, mas a velocidade do ciclo não lhe dá margem real para contestar a recomendação do algoritmo.

Os comandantes militares fazem uma pergunta simples, mas profunda: se uma decisão apoiada por IA conduzir a danos não intencionais ou colaterais, quem é responsável? O operador que carregou no botão? O programador que treinou o modelo? A empresa privada que vendeu o sistema ao Estado? O comandante que aprovou a doutrina de utilização? Quem?

Esta questão, da privatização da guerra com estes sistemas, tem uma dimensão que raramente é discutida abertamente: a Ucrânia depende de IA desenvolvidos por empresas privadas ocidentais, Palantir, Microsoft e outras, que usam o campo de batalha ucraniano como banco de testes para os seus produtos, recolhendo dados de combate real, refinando algoritmos e melhorando os seus produtos comerciais. O CEO da Palantir, Alex Karp, o filósofo que obteve o doutoramento com uma tese sobre a relação entre linguagem, violência e comunicação, descreveu os sistemas de guerra algorítmica como equivalentes a “armas nucleares tácticas contra um adversário com armamento convencional”. Esta não é só linguagem de responsabilidade comercial, é linguagem de marketing de guerra. Elon Musk, o trilionário dono da Tesla, da Space X ou, mais recentemente, da xAI, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, dona do Facebook, Instagram ou WhatsApp; Sam Altman, CEO da OpenAI, a empresa por detrás do ChatGPT ou ou Jensen Hang, CEO da Nvidia, empresa que está no centro da estratégia dos EUA para conter a ascensão tecnológica da China alinham pelo mesmo discurso.

A privatização das tecnologias militares de IA dilui as linhas de responsabilidade, obscurece o papel dos actores privados e enfraquece os mecanismos de prestação de contas. As normas jurídicas existentes, o Direito Internacional Humanitário, as regras de engagement” e as cadeias de evidência foram concebidas para um mundo de decisão exclusivamente humana. Não foram desenhados para equipas militar - máquina que operam à velocidade da máquina.

A dimensão da corrida em curso é difícil de subestimar. O orçamento do Pentágono para 2026 incluiu 13,4 mil milhões de dólares especificamente dedicados a sistemas autónomos com IA. A China, embora não revelando os seus números, estima-se que invista em valores comparáveis. Em Janeiro de 2026, um video do Exército de Libertação Popular mostrou um único soldado chinês a operar uma formação de 200 drones autónomos.

E, para compor o ramalhete, não são apenas os Estados. De acordo com o Índice Global de Terrorismo, grupos não-estatais, das FARC, do PCC, do Hezbollah à Colômbia, já adoptaram guerra de drones inspirada na Ucrânia. Em 2025, 469 grupos armados não-estatais usaram drones em ataques em 17 países. A democratização da capacidade de ataque autónomo é uma consequência que nenhuma doutrina NATO antecipou adequadamente.

Portugal está a construir o AMÁLIA (Assistente Multimodal Automático de Linguagem com Inteligência Artificial) com boas intenções e enquadramento responsável para uso civil. No recente congresso do PSD o primeiro-ministro anunciou que teria também uso para a análise de dados das Forças Armadas, mas quando a Agenda Nacional de IA (ANIA) menciona "defesa" como área de aplicação, sem qualquer detalhe sobre como os princípios de supervisão humana, rastreabilidade e “accountability” se aplicam nesse contexto específico, poderá estar a abrir-se uma porta sem ter ainda a arquitectura necessária para governar o que entra por ela. Claro que Portugal não vai usar o AMÁLIA para “targeting”, mas o princípio é o mesmo: a velocidade e a confiança nos sistemas automatizados criam lacunas de responsabilidade que precisam de ser antecipadas, não descobertas depois.

Reconhecer estes riscos não é um argumento contra a adopção de IA militar, é um argumento pela adopção responsável. Seria ingénuo e perigoso aconselhar qualquer Estado democrático a abrandar a integração de IA quando os seus adversários não têm esses escrúpulos. O argumento é outro: a adopção tem de acompanhar o ritmo da realidade operacional com critério, normas e não ficar eternamente a reboque dela.

Isso significa coisas concretas: manter responsabilidade e prestação de contas humanas genuínas, não apenas formais; desenhar sistemas que permaneçam eficazes em condições de guerra eletrónica e ambientes degradados; construir rastreabilidade, auditabilidade e governação de dados desde o início, não como “afterthought”; desenvolver doutrina, formação e quadros jurídicos em paralelo com a tecnologia, não depois de a tecnologia ter criado factos consumados no terreno.

A Europa tem aqui uma vantagem comparativa que não deve desperdiçar: a capacidade de incorporar responsabilidade jurídica, julgamento humano genuíno e processos deliberativos nos sistemas antes de serem empregues e não após o dano ter ocorrido. Isso implica aceitar que alguns ciclos de targeting têm de permanecer lentos. Que a pausa deliberativa, o tempo necessário para um comandante avaliar e anular genuinamente a recomendação de um algoritmo, é um activo estratégico, não uma responsabilidade operacional.

O futuro da IA militar não poderá ser determinado pelos algoritmos. Terá que ser determinado pela capacidade de relacionar, de ligar tecnologia, direito, doutrina, estruturas de comando e julgamento humano em capacidades que permaneçam confiáveis sob pressão.

A pergunta que os comandantes fazem em privado, “se a máquina errar, quem paga?” - não é uma questão técnica. É a questão política e moral central do nosso tempo. E ainda não tem resposta!

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