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Assim o professor da Universidade de St. Andrews resume numa frase a situação inacreditável a que a assistimos, ao vivo e a cores: a maior potência mundial (não só militarmente, mas também em influência) mostra-se impotente – e nós, ainda incrédulos, a ver a História a acontecer, como numa série de TV. Porque não é só este historiador que assim acha; lendo especialistas do mundo inteiro, e sobretudo os próprios norte-americanos, a derrota dos Estados Unidos no Irão é impossível de disfarçar.

Até faz sentido que Mojtaba Khamenei, o atual supremo líder do Irão, faça uma declaração a dizer que a guerra com os Estados Unidos mostrou como as suas bases militares no Médio Oriente deixaram de ser seguras. Isto enquanto o Secretário de Estado, Marco Rubio, ignorando completamente o que está à vista de todos, diga que as conversações de paz continuam e possa haver um acordo dentro de dias.

Que conversações de paz? Que acordo? É excruciante ver os Estados Unidos a tentar desenvencilhar-se de uma guerra que escolheu iniciar há três meses e que demonstra como o país está sozinho, a desempenhar quando muito um papel secundário no conflito de Israel com o Irão. Não tivesse anunciado bombasticamente que ia “destruir até à Idade da Pedra uma civilização com cinco mil anos” e não seria tão aparente a sua incapacidade de sequer manter o Golfo de Ormuz aberto à navegação.

O mundo que resulta desta atitude da sua maior potência de se autoinfligir uma derrota humilhante, ao falhar todos os objectivos a que se propôs – destruir a capacidade militar do Irão, apoderar-se (ou pelo menos inutilizar) o urânio iraniano, e mudar o regime de Teerão – é um mundo menos seguro, mais imprevisível e cujo futuro ninguém ousa especular. Ninguém pode adivinhar quais as regras de guerra ou de paz podem funcionar, nem prever o que os poderes tradicionais valem quando atores nitidamente mais fracos é que “têm as cartas na mão” (como Trump gosta de dizer).

Teoricamente estamos numa trégua, mas esta quarta-feira os norte-americanos atacaram posições de lançamento de mísseis na costa iraniana junto ao estreito de Ormuz, e atacaram embarcações iranianas que estavam a minar as águas – isto dito pelos próprios norte-americanos. 

Trump precisa desesperadamente de acabar com esta guerra, mas não encontra uma situação que lhe permita declará-lo; por um lado as operações militares continuam, mesmo que em pequena escala, por outro, o Irão está agora numa posição melhor do que antes do início do ataque, uma vez que controla efetivamente a passagem de 20% do petróleo mundial pelo estreito de Ormuz e, ao que tudo demonstra, pouco sofreu com os bombardeamentos iniciais norte-americanos.

Na verdade, a pergunta que se coloca não é se os Estados Unidos perderam a guerra, mas até que ponto foram derrotados. Trump precisaria de um acordo nuclear (leia-se: limitar a capacidade iraquiana de enriquecer urânio) que fosse melhor do que o que Obama tinha conseguido em 2013 e que ele, Trump, renegou unilateralmente em 2018. Precisaria também que os iranianos deixassem de atacar as bases americanas na região, assim como os países do Golfo aliados dos americanos. Podia não conquistar nada, mas tinha pelo menos que não piorar a situação.

E, se o conseguisse, ainda assim estaria muito longe de poder declarar vitória. Quer dizer, Trump precisa de justificar perante os norte-americanos porque valeu a pena que a gasolina esteja mais cara e o custo de vida mais alto – e precisa de fazê-lo depressa, antes das eleições intercalares para o Congresso, em Outubro. Precisa que os iranianos reconheçam alguma perda, e os iranianos, antes pelo contrário, têm dito o óbvio em alto e bom som: pouco sofreram com os bombardeamentos, substituíram automaticamente os líderes mortos, não perderam a capacidade de manter e enriquecer urânio e até ganharam o direito de passagem no estreito de Ormuz.

Segundo o seu modus operandi tradicional, Trump contra-ataca sempre; agora acusa o Irão de atrasar as negociações para lá de Outubro de propósito, diz que a economia iraniana “está a colapsar” e ameaça que caso o acordo não seja iminente vai “acabar o trabalho” que tinha dito que acabara, destruir tudo o que ainda está de pé no Irão. De caminho ainda criticou Oman, o emirado que tem o azar de estar na outra margem do estreito, dizendo que também terá que os destruir para desimpedir o estreito (embora Oman não esteja a colaborar nem pouco mais ou menos com o Irão).

Outra prova, talvez ainda mais pungente, do declínio do poder norte-americano foi a exigência, feita esta semana, que todos os países do Golfo têm de assinar os Acordos de Abraão. (Para quem não se lembra: foi uma invenção norte-americana de 2020 que fez com que os Emirados Árabes Unidos e o Barhain reconhecessem Israel e abrissem representações diplomáticas. Entretanto a situação em Israel, com o ataque do Hamas, impediu que o acordo se concretizasse.) 

Segundo alguns analistas, esta tentativa de reanimar os Acordos destina-se a apaziguar Israel, pois a paz com o Irão depende de Netanyahu. Aliás a proposta de Trump foi feita numa vídeo conferência com todos os interessados e o resultado da proposta foi um silêncio tal que ele perguntou se ainda estavam presentes... 

Entretanto o Irão aproveitou estas seis semanas de cessar-fogo para aumentar a sua produção de drones e reparar os lançadores de mísseis, de acordo com pelo menos duas fontes.

Finalmente, a prova definitiva da decadência norte-americana é a sua atitude para com os chineses. Na sua visita a Pequim, Trump comprometeu-se a atrasar a entrega de material militar a Taiwan, sem qualquer contrapartida da parte de Xi. E não é segredo que os chineses continuam a comprar petróleo aos iranianos. 

E aproveito para citar a insubstituível Tina Brown, a jornalista inglesa que tem a língua mais afiada da praça: “Trump encontrou uma maneira diabólica de separar o seu carisma pessoal da destruição que perpetua e da corrupção que normaliza. Ele é o anjo da sabotagem, livre das correntes dos seus próprios atos malvados graças ao Supremo Tribunal, à baixeza moral do Partido Republicano, à ganância dos poderosos de Wall Street, dos manos de Silicon Valley e dos plutocratas de Palm Beach que sabem que a presidência tem a porta aberta para quaisquer negócios.”

Com um Presidente assim, não admira que os Estados Unidos tenham perdido a reputação e o prestígio de “defensores do Ocidente.” Hoje, no fim de Maio de 2026, não há “Ocidente”. É bom que nos habituemos a isso.

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