Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
O Papa Leão XIII, em 1895, no auge da Revolução Industrial, com a encíclica Rerum Novarum (na tradução: O que há de novo) colocou a questão do trabalho no centro da reflexão da igreja. Ficou instalada a doutrina social da igreja. Agora, 135 anos depois, Robert Francis Prevost, o americano nascido em Chicago, que tem metade da vida em paróquias dos Andes, eleito Papa faz agora um ano e que escolheu Leão XIII como referência, por isso decidiu ser o Papa Leão XIV, ao publicar a Magnifica Humanitas, primeira encíclica do pontificado, retoma o caminho trilhado pelo antecessor no final do século XIX: Leão XIII assentou o valor do trabalho perante a mudança de época introduzida pela revolução industrial, agora, Leão XIV defende – como está no subtítulo da encíclica – “a salvaguarda da pessoa humana na era da Inteligência Artificial (IA)”.
Leão XIV expõe os "novos monopólios da IA" e denuncia que introduzem uma assimetria epistémica, económica e política incompatível com o bem comum. O verbo que escolhe para definir a necessidade pela frente — "desarmar" a IA — aponta o foco da discussão que propõe à estrutura de poder global.
Esta encíclica é particularmente incisiva quando enquadra a inteligência artificial como questão que diz respeito à própria estrutura da inteligência humana: “é uma distorção da imaginação, faz a substituição silenciosa da sabedoria pela eficiência, das relações pelo desempenho, do julgamento pelo cálculo”.
O texto, com 110 páginas e cinco capítulos, para além da introdução e da conclusão, traz uma voz de alarme sobre o controlo da inteligência artificial por um grupo muito reduzido de pessoas – os “tecnoligarcas” - que poderá vir a impor a visão da realidade dessas pessoas.
O papa reflete sobre onde nos vai levar o algoritmo, enuncia o que nos faz sermos humanos e adverte: pequenos grupos, com o muito poder que lhes dá o controlo da Inteligência Artificial, podem orientar informações e consumos, condicionar escolhas e processos democráticos, intrometer-se nas dinâmicas económicas em benefício próprio e assim contrariar a justiça social e a solidariedade entre os povos.
Leão XIV, contundente, chama a atenção para o facto de vivermos numa “época de cegueira espiritual e cultural” e para a “necessidade de reflexão ética e humanizadora, sem a qual há o risco de o mundo ser conduzido para novas atrocidades, piores que as do passado que hoje deploramos”. Daí que o Papa, nesta primeira encíclica que publica, também na continuidade da Laudato Si do Papa Francisco, essa projetando a questão ecológica dentro da doutrina social da igreja, agora Leão XIV age sobre a IA colocando-a como centro de gravidade do nosso tempo.
O atual Papa, nesta encíclica, denuncia o efeito venenoso das redes sociais e de novos modos de comunicação que puxam para deriva totalitária e para narrativas mediáticas polarizadas, que recorrem à desinformação, à ridicularização do adversário, à construção sistemática de medos e ressentimento, levando assim a que a diversidade do outro seja sentida como ameaça.
A crítica às grandes empresas tecnológicas é um dos pontos mais contundentes do texto desta encíclica, pois, alerta, este poder “não é neutro, porque assume a face daqueles que o concebem, financiam, regulam e utilizam”. Neste sentido, o Papa alerta para o perigo de estas empresas usarem o mundo em prol dos seus interesses: “Aqueles que controlam as plataformas digitais e os meios de comunicação possuem uma notável capacidade de influenciar o imaginário coletivo e de apresentar uma certa visão da realidade como a que lhes é desejável”.
A encíclica questiona ainda uma das ideologias subjacentes à revolução tecnológica: o transumanismo, ou seja, a ideia de que a tecnologia pode superar as limitações biológicas e corrigir a fragilidade humana. O Papa rejeita claramente esta lógica: “O anseio pela plenitude do ser humano corre o risco de ser desviado para objetivos ilusórios: a ilusão de uma tecnologia que promete libertar-nos de toda a fragilidade”.
Apesar de múltiplos alertas, o Papa Leão XIV confia num “horizonte de esperança e de confiança na humanidade”. Propõe cinco caminhos de “responsabilidade”, que sintetiza assim : “Palavras desarmantes, construção da paz na justiça, adoção da perspetiva das vítimas, cultivo de um realismo saudável e relançamento do diálogo e do multilateralismo”.
O Papa chama a que abracemos o humano e diz-nos que a resposta ao desafio tecnológico não é um algoritmo melhor. É uma perspetiva diferente sobre a qualidade humana do progresso.
Se no seu primeiro discurso da galeria central de São Pedro clamou por uma "paz desarmada e desarmante", Leão XIV retoma esta intuição e aplica-a à Inteligência Artificial. No quinto capítulo da encíclica, adverte contra as suas aplicações militares e contra uma lógica tecnológica colocada ao serviço da força e da progressiva desumanização do conflito. A Inteligência Artificial deixa, assim, de ser meramente uma questão económica ou social e passa a ser também um problema geopolítico.
A encíclica está dividida em cinco capítulos, para além de uma introdução e uma conclusão. No primeiro, Leão XIV traça a evolução da doutrina social da Igreja, desde a Rerum Novarum até Francisco, para defender que a Inteligência Artificial não é uma questão técnica isolada, mas uma nova e importante questão social. No segundo, surge a parte mais doutrinal: revê conceitos como o bem comum, a solidariedade, a subsidiariedade, a justiça social, a dignidade humana e a destinação universal dos bens como base para a interpretação da revolução tecnológica. Na terceira secção, revela-se o cerne das teses papais, com uma reflexão sobre o poder tecnológico, a governação da IA, o risco da dominação digital, o transumanismo e a necessidade de preservar a centralidade do ser humano. Na quarta, Leão XIV centra-se no impacto da IA na democracia, na informação e no imaginário coletivo, alertando para a manipulação e a erosão da verdade como um bem comum, para além de abordar o trabalho, as novas dependências e o controlo social. Na quinta e última secção, alarga a sua perspetiva para o panorama internacional, onde a IA aparece ligada à guerra, à lógica da força e à crise do multilateralismo.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários