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Os curdos são um grupo étnico iraniano de cerca de 45 milhões de pessoas com características bem definidas, mas com uma grande variedade de religiões: maioritariamente sunitas, mas também xiitas, zoroastas e cristãos. Falam vários idiomas, como zara-corani, curdo, persa e árabe. Estão instalados no sudeste da Turquia (20 milhões), Cáucaso, Azerbaijão, Arménia, norte da Síria e do Iraque. Há também diásporas curdas por todo o mundo, maioritariamente na Alemanha (1,5 milhões), Suécia e Holanda.

Com tanta variedade de religiões e países, podia esperar-se que lentamente se fossem integrando nos países, mas é precisamente o contrário; têm uma coerência comum e costumes próprios que só se reforçam com a hostilidade onde se inserem. A grande ambição dos curdos é serem uma nação – ou seja, com soberania territorial – mas esse objectivo nunca se concretizou.

Para não ir mais longe, quando o Império Otomano foi desmembrado, depois de ter perdido a I Guerra Mundial ao lado da Alemanha, os ingleses e franceses dividiram a região que vai do Mar Negro ao Mar da Arábia, limitada pelos estreitos do Golfo Pérsico, Mar Vermelho e Mediterrâneo em diversos reinos segundo as etnias dos emirados, mas “esqueceram-se” de atribuir aos curdos qualquer território.

No Tratado de Sèvres, em 1920, e na Conferência de Lausanne, em 1923, quando ficaram finamente delineadas as fronteiras modernas da região, fala-se no Curdistão como um território, mas não como um país de pleno direito. Os curdos foram divididos por vários países, que lhes deram tratamentos diferentes.Na Turquia foram reprimidos, o que os levou a criar um grupo de guerrilha, o PKK. Ao fim de anos de lutas intermitentes e muito violentas, Erdogan finalmente fez um acordo no ano passado, em que o PKK se dissolvia e transformava num partido político turco. (A ideia de Erdogan era obter mais votos nas presidenciais de 2028; a ideia dos curdos era serem deixados em paz integrados na Turquia, mesmo perdendo a esperança duma independência.)

No Iraque de Sadam Hussein, as cidades curdas foram bombardeadas com gazes químicos e regularmente destruídas. No Irão integraram-se no Estado Teocrático, sem se envolver em grandes conflitos. Os ayatolás veem-no como uma minoria que pode ser útil para o sonhado domínio iraniano de toda a Península Arábica. Na Síria dos al-Assad foram violentamente perseguidos até ao momento em que se formou o Estado Islâmico (Daesh) no Iraque, em 2003

O nascimento do Daesh pela Al-Qaeda nas terras desérticas da Síria e do Iraque veio mudar a situação estratégica na região. Os curdos infligiram pesadas derrotas ao califado, o que levou os norte-americanos a apoiá-los por terra e pelo ar, prometendo que forçaria a sua independência. A partir de 2003, com a derrota de Sadam Hussein e a ocupação norte-americana, os curdos puderam formar um estado “oficioso” nas suas terras do Iraque e depois, em 2019, quando o Daesh foi derrotado, criaram uma continuação territorial desse estado no norte da Síria até à fronteira com a Turquia.

A derrota inesperada de Bashar al-Assad, que foi acolhido com a família em Moscovo, criou um campo de batalha em toda a Síria, com os diversos grupos étnicos (sunis, alawitas, cristãos, drusos e curdos) a lutar para obter espaço e serem ouvidos em Damasco. Mas as coisas não estão a decorrer lá muito bem. Começa pelo chefe da revolta, Ahmed al-Sharaa, que já foi um combatente do Estado Islâmico sob o nome de Abu Mohammed al-Jolani. Agora no poder, não mudou só o nome mas também terá abandonado o zelo islâmico do ISIS, para obter apoios internacionais para a reconstrução do país.

Ora bem, al-Sharaa diz todos os dias que quer criar uma Síria livre e democrática, em que todos os grupos e religiões do país se entendam em pé de igualdade, para obter os indispensáveis milhões necessários para a reconstrução do país. Mas, enquanto fala, os grupos levam a cabo operações violentas contra os alawitas; a 18 de Janeiro, os curdos anunciaram que as novas forças governamentais, HTS (que são as velhas forças com oficiais novos) atacaram uma cidade da zona curda, ao mesmo tempo que os turcos voltaram a invadir este Curdistão teórico pelo Oeste. Os norte-americanos, conhecidos por abandonar os aliados quando lhes convém – vide Afeganistão – estão quietos e não há notícia de que estejam a enviar equipamento para os curdos. Antes pelo contrário, as poucas tropas norte-americanas na região desapareceram do mapa. O que corre é que Washington resolveu apoiar al-Sharaa, que tem mais força disponível para fazer frente aos inimigos norte-americanos, o Irão e a Rússia. (A Russia tem desde 1971 um porto e base militar em Tartus, na costa síria do Mediterrâneo e está a ver como consegue conciliar o apoio que deu a Assad com a manutenção deste privilégio naval.) 

Também se levanta a questão dos milhares de ex-combatentes do Daesh que estão em campos de concentração controlados pelos curdos. Trump parece ter feito um acordo com al-Sharaa; o embaixador norte-americano na Turquia e enviado especial na Síria, Tom Barrack, afirmou: “O objectivo original o SDF (forças curdas) era ser uma força anti-ISIS no terreno, e esse objectivo foi cumprido.”

Contudo, com a saída do SDF dos campos, 120 ex-ISIS  já fugiram e as forças norte-americanas estão a levar centenas para o Iraque, onde mantêm uma força considerável.

Ao pedido de socorro dos curdos, que afirmaram ter uma unidade importante do SDF cercada e em perigo de ser destruída, al-Sharaa anunciou um cessar fogo no dia seguinte, assim como um acordo que prevê a integração do SDF no HTF – ou seja, dos combatentes curdos no exército de Damasco. É difícil acreditar que isto seja possível, primeiro porque al-Sharaa não parece ter o controle completo do HTF, segundo porque se os curdos se integrarem nas forças sírias, estas terão de lutar contra o avanço da Turquia na zona curda.

Resumindo, parece que ainda não é nesta volta da roleta que os curdos ganham um país independente. Mas também parece que não irão desistir. Afinal, andam nisto há séculos.

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