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Como sabemos, o Reino Unido é governado por um Primeiro Ministro saído de um Parlamento eleito pelo sistema unipessoal (isto é, não há listas nos círculos eleitorais, como em Portugal), o que obriga os escolhidos a responderem perante o seu eleitorado e não ao seu partido. Outras particularidades do sistema incluem o facto de que os membros do Governo têm de ser deputados e que o partido eleito pode mudar o Primeiro Ministro sem obrigação de ir a eleições.

Se este tipo de democracia parlamentar é melhor do que os outros é assunto para intermináveis discussões, mas fora da Grã Bretanha; os ingleses acham que o seu sistema é o mais perfeito a representar a vontade do povo e, sobretudo, o mais eficiente a defender o interesse nacional. Vale sempre a pena recordar as palavras de Lord Palmerston, primeiro ministro no meio do século XIX: “Não temos (nós, Reino Unido) aliados eternos nem inimigos perpétuos. Os nossos interesses é que são eternos e perpétuos e o nosso dever é segui-los.”

A chamada joia da coroa, no século XIX, era a Índia, pelos negócios que proporcionava e pela alavancagem que dava aos ingleses no Oriente. (É de recordar que a Índia era onde os portugueses tinham algumas feitorias, sem conquistar território. A posição portuguesa fez parte do dote de Catarina de Bragança quando casou com Carlos II, e foi a partir daí que a Grã Bretanha se expandiu até dominar a Índia, Paquistão e Bangladesh.)

Pragmáticos, os governos britânicos souberam navegar pelas duas guerras mundiais e, a partir de 1947, começaram a dar independência às colónias. O Governo trabalhista de Clement Attlee (1945) marca a passagem dos primeiros ministros imperiais para os pragmáticos e a adaptação do Império a uma simples ilha, governada com mais ou menos eficiência, mas sempre em decadência. No entanto, o povo inglês nunca perdeu a sua postura imperial, mesmo depois de ter perdido grande parte da Irlanda, que se tornou independente em 1921.

A decadência não se limitou às perdas territoriais; a qualidade dos ministérios também se foi deteriorando. Em 1973 o país entrou relutantemente na União Europeia (ainda só Comunidade Europeia), exigindo sempre inúmeras exceções (manteve a libra, por exemplo) e um tratamento diferente, em linha com a mentalidade inglesa de que os ilhéus não são iguais nem podem ser confundidos com os continentais...

Esta mentalidade, habilmente explorada por políticos desonestos, como Nigel Farrage e Boris Johnson, que diziam que o dinheiro que o país dava à UE podia ser melhor gasto com objetivos internos, levou a que o Primeiro Ministro trabalhista David Cameron fizesse um referendo – o famigerado Brexit, a decisão mais estúpida e mal informada que seria possível imaginar. Seguiu-se um período triste de se ver: os ingleses queriam sair da UE, mas não conseguiam decidir em que condições. As hesitações destruíram três ministros conservadores (Theresa May, Boris Johnson e Liz Truss) até finalmente a situação acalmar com Rishi Sunak – um Primeiro Ministro de origem indiana, onde é que já se viu? Enquanto os conservadores tropeçavam nas suas próprias propostas, os trabalhistas tinham um candidato do tempo da luta de classes, Jeremy Corbyn, que via o problema da UE como uma ameaça aos trabalhadores e não como uma questão que atingia tanto patrões como empregados.

Até hoje o Brexit é uma espécie de ave maléfica a sobrevoar as terras calcinadas que outrora foram verdes da bucólica Grã Bretanha. Queimados de vez os conservadores, apresentou-se o novo candidato trabalhista, Keir Sturmer, que ganhou a eleição de 2024. Sturmer pode não ser um perigoso esquerdista, ma sobretudo não é perigoso, no sentido de ter ideias fortes e defendê-las com garra. Com ele, é o sexto Primeiro Ministro medíocre que o país sofre. Já se fala em substitui-lo, e o candidato com mais probabilidades parece ser o mayor de Manchester, Andy Burnham. Há um pequeno entrave: ele não é deputado, mas parece que há a possibilidade legal de um deputado trabalhista de boa vontade lhe ceder o lugar. A questão é que Sturmer, tão peixe-morto em tudo, é um tubarão a defender o lugar.

Como diz o “The Guardian”, “o espetáculo de um Primeiro Ministro agarrado ao poder enquanto o seu partido se mostra cada vez mais desesperado para encontrar um substituto é dolorosamente familiar desde o último governo conservador. A política inglesa parece estar presa a uma espiral sem fim. Esta condição não é apenas um resultado do Brexit, mas o falhanço do Brexit tem um papel importante. Nenhum dos benefícios prometidos no referendo pela campanha a favor da saída se materializou. Só as más consequências é que estão à vista, mas é tabu falar no assunto. O “reset” de Sir Keir Starmer’s nas relações com a Europa limita-se a tocar nas margens do problema.”

No meio destas águas turvas, surpresa das surpresas, quem está em ascensão é a extrema direita de Nigel Farrage. Como é isso possível? Christopher Achen e Larry Bartels argumentam, no seu livro “Democracia para realistas”, que a teoria do “voto retrospectivo” – a ideia de que julgamos os candidatos pelos seus currículos - é um conto de fadas. Votamos naqueles que nos prometem uma vida melhor no futuro, mesmo que não o tenham conseguido no passado. Será? O facto é que quanto mais crises passamos menos pedimos satisfações aos políticos. Foi o caso de Boris Johnson, que criava crises novas para distrair as pessoas das antigas.

É preciso não esquecer que a imigração – uma componente importante do Brexit – continua a ser o grande campo de batalha, e aí a direita tem os argumentos que os eleitores gostam de ouvir. Os falhanços dos trabalhistas tornaram possível o pesadelo que virá a seguir. Depois de enfurecer os seus eleitores com promessas não cumpridas, os trabalhistas agora querem colocar as suas esperanças em Andy Burnham. A sua política de uma “imigração controlada” (onde é que já ouvi isto?) talvez seja a única esperança contra a avalanche do “Reform UK” (o partido de Farrage).

Uma sondagem do YOUGOV publicada na quarta-feira indica que mais de metade dos trabalhistas querem políticas de imigração mais restritivas. Apenas 26% quer uma abordagem mais liberal e 18% querem mais restrições. Por outro lado 15% dos trabalhistas acham que vão perder votos para os Verdes e 27% acha que tanto os Verdes como o Reform UK representem o mesmo perigo.

Que concluir de tudo isto? Que o nível dos políticos ingleses tem vindo a descer, é evidente. Agora, o mais interessante é que talvez as próximas eleições marquem o começo de um sistema multipartidário no Reino Unido. Sobre o fim do Brexit, silêncio total. Enfim, casa onde não há pão, todos gritam e ninguém tem razão...

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