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Há troca, intermediada, de propostas, mas em ritmo lento e com muito jogo tático. O Irão parece querer empatar, Trump tem pressa. Putin entrou em cena, hora e meia ao telefone com Trump, a oferecer-se para ajudar – sobretudo na questão do urânio. Enquanto o tempo passa e a incerteza instala mais preocupações e receios, a economia mundial vai-se afundando no Estreito de Ormuz.

É conhecido o essencial da mais recente proposta negocial de Teerão: reabertura o Estreito de Ormuz e suspensão do bloqueio naval dos EUA; adiamento das questões relacionadas com o programa nuclear iraniano.  

Esta oferta de Teerão tem um preço suplementar: o Irão pretende rentabilizar a passagem pelo estreito de Ormuz, através de uma nova estrutura jurídica para o estreito que lhe permita cobrar uma taxa pelos serviços de trânsito; pretende também, através de Omã (sultanato na costa sul de Ormuz) envolver os sauditas nesse acordo desejado por Teerão. Trata-se, na prática, de impor portagens aos petroleiros — até dois milhões de dólares por embarcação — como compensação pela enorme destruição provocada pela guerra desencadeada por americanos e israelitas. Esta pretensão iraniana foi de imediato rejeitada pelo Omã. Vai certamente ser recusada por todos os países com navios que atravessam aquele estreito. A insistência do Irão nesta portagem está a demorar ainda mais a exploração da negociação.

Trump rejeitou esta proposta de Teerão, considera-a "insuficiente. O presidente dos EUA repete que continua cético sobre a boa-fé negocial de Teerão e agita mais ameaças.

A mediação paquistanesa espera nova proposta iraniana nos próximos dias, após os encontros que o ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Argachi, teve nos últimos dias em São Petesburgo, com Putin e Lavrov, e em Muscate, com dirigentes de Omã, mas é improvável que seja muito diferente da precedente.

Do lado americano há receio de que o Irão esteja a querer atrasar as negociações até às eleições intercalares de novembro, e conseguir mais flexibilidade da parte de Trump sob pressão para pôr fim ao conflito.

O desagrado com Trump está a entrar pela América interior, zangada com os preços caros, tanto nos postos de abastecimento de combustível como nos campos agrícolas: a gasolina chegou aos 4,18 dólares por galão, é o dobro do preço de há dois meses e os agricultores dos estados rurais estão em aperto para pagar os elevados custos dos fertilizantes.

No Irão, a situação económica interna era má há muito, agora está crítica. Faltam as receitas do petróleo que o Irão não está a conseguir exportar – e que começa a não ter onde armazenar O bloqueio naval em Ormuz também impede a importação de alimentos. Teerão já ativou rotas alternativas através do Paquistão, Turquia e pelo Mar Cáspio, mas reconhece que o status quo é insustentável. A agressão dos EUA está a tornar-se uma arma económica cínica que perturba a vida dos mais vulneráveis. Durante quase meio século, as sanções dos EUA contra o Irão enriqueceram as elites em volta do poder e reduziram o bem-estar de milhões de pessoas comuns. O obscurantismo, a discriminação, a corrupção, o autoritarismo, a repressão e a má gestão do sistema são o resto do mal na ditadura teocrática que agora toma forma de ditadura militar do Irão.

As consequências da guerra passam por uma linha invisível que começa no Estreito de Ormuz e chega a muitos países do mundo. É uma fratura que atravessa a economia, a política e a segurança global, e que desafia toda a ordem internacional.

Teerão permite-se ameaçar “consequências sem precedentes se a América continua a fazer pirataria em Ormuz”.

Trump avisa: “No more Mr. Nice Guy”. É a ameaça de regresso dos bombardeamentos.

Todas as partes precisam muito de um acordo mas o regresso à normalidade está assim para demorar, mesmo que algum compromisso permita parar a guerra.

Os países mais ricos estão a rever as previsões económicas em baixa, os mais pobres procuram como escapar ao que pode ser a catástrofe alimentar.

É o resultado do desastre que Netanyahu arranjou ao convencer Trump a entrar numa “excursão breve” ao Irão. Terá sido com boa fé? Custa a crer que os estrategos militares não tenham avisado os chefes políticos para as trágicas consequências para todos.  

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