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A época balnear deste ano foi inaugurada por uma polémica tipicamente portuguesa, parafraseando Helena Matos na apresentação de um livro sobre vícios, esta terça-feira: durante dias, discutiu-se se os banhistas podem ou não colocar guarda-sóis em frente às zonas concessionadas de praia.
A questão nunca antes tinha sido levantada. Mas, por aselhice ou falta de tacto, o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado, lançou a primeira pedra: não existe nenhuma lei que o proíba nem nunca existiu.
Durante anos, milhares de portugueses comportaram-se como se existisse uma norma, acataram as placas colocadas nas praias, ocuparam zonas para guarda-sóis e deixaram livres as zonas com palhotas e espreguiçadeiras para os que estão dispostos a pagar um balúrdio por mais conforto a um concessionário que, em troca, traz segurança à praia, nomeadamente com serviço de nadadores-salvadores.
A conveniência transformou-se num direito adquirido. O mais curioso não é a inexistência de uma regra, é termos vivido durante anos como se ela existisse. A discussão parece menor, mas a polémica dos guarda-sóis diz muito mais sobre "ser português" do que sobre praias, leis ou ambiente.
Enquanto o país debate as sombras no extenso areal, o primeiro-ministro regressa à Assembleia da República para defender a reforma laboral e desafiar a oposição a escolher entre aquilo a que chama "ambição" e o que considera "imobilismo".
No debate parlamentar quinzenal, Luís Montenegro faz um discurso (fraquinho) que Portugal já ouviu dezenas de vezes, demasiadas vezes. É uma característica estrutural da nossa vida pública; afinal, os decisores políticos são portugueses.
Há décadas que os governos anunciam reformas estruturais — e este em particular fez uma campanha eleitoral inteira em cima disso: reforma da Saúde, reforma da Educação, reforma da Habitação, reforma do Estado, reforma do Trabalho.
Mudam os slogans, mudam os protagonistas, mas os problemas sobrevivem a todos eles — e com enorme capacidade de resistência. O mais impressionante, ainda, é que não faltam diagnósticos. Sabemos porque falha o SNS, sabemos porque é que a justiça é lenta, sabemos o motivo pelo qual os salários crescem pouco, como sabemos as razões de ser de uma Administração Pública excessivamente burocrática.
Sabemos tudo, mas não fazemos nada. No caso das praias, descobrimos agora que qualquer cidadão pode colocar um guarda-sol em frente a uma zona concessionada. Na política portuguesa foi sempre assim, mas ninguém se parece preocupar: sempre que surge uma reforma, aparecem dezenas de guarda-sóis corporativos, partidários (às vezes do partido que as propõe) e burocráticos a bloquear-lhe o caminho.
O resultado é um país que se tornou especialista em gerir o adiamento, que é como quem diz a empurrar com a barriga. O debate quinzenal ilustra isso: governo e oposição trocaram acusações sobre quem está do lado da mudança e quem representa o bloqueio — sabendo perfeitamente que é "à vez", depende apenas do lugar em que a cada uma das partes está, num dado momento, sentada.
E o país, condescendente, continua à espera. Ser português é também isto. Sabemos todos que a distância entre anunciar uma reforma e concretizá-la é muito maior do que a distância entre a maré baixa e a maré cheia. E é a falta de sentido de urgência que é mais frustrante.
Entretanto, chega o Verão. Voltaremos às praias, às concessões, aos toldos, às espreguiçadeiras e aos guarda-sóis. E talvez seja essa a imagem perfeita de Portugal: uma nação a discutir quem pode fazer sombra a quem, enquanto as grandes reformas continuam, ano após ano, expostas ao sol, a desbotar, sem protecção. E sem lei.
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