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Uma coisa é a Arte, com “A” maiúsculo, que, por definição não tem valor atribuível em dinheiro – quanto custaria vender hoje a Mona Lisa? Outra coisa é o mercado de Arte, o conjunto de instituições que compra e vende as obras dos artistas.

Antigamente, digamos na Era Pré-Industrial, os artistas pintavam por encomenda dos senhores, reis, nobres e grandes fortunas, que os sustentavam a troco de meia-dúzia de obras com um tema que o destinatário escolhia para adornar o seu palácio. A Mona Lisa, por exemplo, terá sido uma encomenda da família da retratada, Lisa de Giocondo, que nunca a recebeu; foi comprada pelo rei Francisco I de França. Depois passou para o Estado Francês e está exposta no Louvre. Já A Última Ceia, do mesmo Leonardo, foi encomendada pelo duque de Milão, Frederico Sforza, para o refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie.

O mercado de Arte é um fenómeno holandês do século XVIII, quando os mercadores dos Países Baixos tornaram a pintura um bem transacionável. O primeiro “art dealer” é considerado o francês Edme-François Gersaint, na Paris da mesma época. Gersaint era um comerciante de bens de luxo que a certa altura decidiu incluir a pintura no seu negócio e organizou os primeiros catálogos de obras de Arte. Foi também ele que lançou a ideia de promover o trabalho de um artista – no caso, Antoine Watteau – criando assim a ligação galerista-artista que perdura até hoje.

E hoje o chamado “mercado de Arte” inclui as galerias, os museus e os leilões – fora, evidentemente, das transações pessoais em que o comprador negoceia diretamente com um artista que não tem representante oficial, o “art-dealer” ou “marchant”. Muitas vezes são os marchants que descobrem o artista e o promovem. Um artista sem marchant tem poucas possibilidades de viver do seu trabalho. É também o marchant que convence os curadores dos museus a organizar exposições públicas e tratam dos convites dos possíveis compradores. Parte das obras com maior prestígio acabam por ficar nos museus de Estado (nacionais, provinciais e municipais), o que lhes dá a qualificação de “Qualidade Museológica”, e as retiram do mercado. Os leilões, promovidos por leiloeiros – os mais famosos são o Christie's, Sotheby's, e Bonhams. Foi aliás o Chrisitie’s que vendeu no ano passado o quadro “Salvatore Mundi”, de da Vinci, por 405 milhões de dólares, um recorde até à data. Mas já houve outras vendas espetaculares, por acaso todas privadas: “Interchange” de Willem de Kooning (300 milhões em 2015), “Os jogadores de cartas”, de Paul Cézane (250 milhões em 2011) e “Nafea Faa Ipoipo” de Paul Gauguin ($210 milhões em 2014).

São estes leilões milionários que fazem as pessoas pensar que o mercado de Arte está de vento em popa. Nos últimos vinte anos, a arte contemporânea tornou-se parte da cultura pop, com exposições mirabolantes nos principais museus mundiais e muitas “feiras de Arte”. Um caso notável é a chamada Art Basel, que começou em 1970 na cidade suíça, mas agora tem versões me Paris, Hong Kong e Miami.

Este sucesso, ao contrário do que se poderia supor, representa uma carga apenas sustentável para as galerias “normais”, de porta aberta ao público, que existem nas principais cidades de todo o mundo e que constituem o “mercado de Arte” básico. Os custos de promover autores e de os levar às grandes feiras são enormes, para não falar no investimento num autor novo, que pode levar anos a “ser rentável”. Uma mega-galeria como a “Pace”, com lojas em Nova Iorque, Los Angeles, Londres, Genebra, Seoul, Tóquio e Berlim, em Junho anunciou que vai reduzir os artistas representados em 50% e o pessoal em 20%. Marc Glimsher, o dono, explicou que “o mundo da Arte mudou dramaticamente na última década e o modelo de negócio actual não só não funciona como não é possível de consertar.”

Qual é o problema? O mundo da Arte expandiu-se muito, mas o mercado de Arte – o volume de vendas – ficou na mesma, e os preços das obras de artistas menos conhecidos até diminuiu. Os custos não param de aumentar.

A crise também tem a ver com os compradores. Hoje em dia compra-se arte para investir, e assim a Arte está a concorrer no mercado com o dólar, o petróleo, o ouro e outros valores clássicos. Ou então o interessado compra por vaidade – um pouco como as chamadas “mulheres-troféu” – para mostrar aos amigos que tem dinheiro e bom gosto. Estes fatores tornam o mercado fluido e dificultam a manutenção do dia-a-dia, para não falar nos riscos de investir num artista jovem.

Ou seja, como na economia em geral, os ricos (as leiloeiras) estão cada vez mais distantes dos pobres (as galerias). Investir em Arte é tão arriscado como investir em fundos digitais, bit-coins e similares. Em períodos de crise acontece sempre o mesmo, o ouro em barra ainda é o mais garantido.

Por outro lado, a arte contemporânea, muito envolvida em peças conceptuais, não é vendável. Por exemplo, não é possível levar para casa uma mulher nua mergulhada numa piscina transparente de urina purificada (referência à peça apresentada na última Bienal de Veneza pela austríaca Florentina Holzinger. Com o nome de “Seaworld Venice, incluía uma série de urinóis onde os visitantes podiam urinar para o sistema de filtros.)

A Arte está sempre a evoluir, o que é positivo, mas o mercado de Arte não consegue adaptar-se, o que é negativo.

Talvez seja uma boa altura de comprar aquela linda aguarela pintada pela vizinha do 3ºC.

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