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Embora tenhamos ligações com o Brasil mais fortes do que com qualquer outro país fora da UE, a comunicação social portuguesa não lhe dedica muito espaço, em parte porque é um país que exige uma atenção constante para perceber a sua natureza política e social. Por trás das efemérides principais – eleições, grandes escândalos – há uma permanente fluidez na política brasileira, não tanto ideológica, pois a esquerda e a direita estão perfeitamente definidas, mas sobretudo negocial – não só nos acordos políticos que se fazem e desfazem diariamente, mas também pela corrupção endémica e generalizada.

A divisão esquerda/direita, que nem sempre foi primordial na História do país, cresceu no período da ditadura militar 1964-85 e tornou-se avassaladora na eleição de 1989, quando a direita votou em Fernando Collor de Melo e a esquerda em Luís Inácio Lula da Silva. Lula perdeu, assim como perderia em 1994 e 1998 para o social-democrata Fernando Henrique Cardoso, até que ganhou em 2002.

Não sendo comunista (mas com o apoio deles) Lula fez uma presidência popular, melhorando substancialmente o nível de vida dos mais pobres e defendendo os seus direitos, criando um fosso definitivo entre políticas que poderíamos chamar de socialistas e os grupos de direita, cuja representação no Congresso é conhecida como a “bancada BBB” - Boi, Bala e Bíblia. Divididos por vários partidos, estas “bancadas” não oficiais são compostas por grandes fazendeiros e o agronegócio (Boi), pelas forças de direita política declarada (Bala) e pelas igrejas evangélicas, que têm grande força popular (Bíblia)

Em termos estritamente políticos, estas duas forças enfrentam-se até hoje. Em termos sociais, a esquerda é defendida pelas pessoas de baixo rendimento que não foram absorvidas pelos evangélicos, e a direita é o bastião da classe média, média-alta e grandes capitalistas.

Não são os termos políticos que provocam os debates. A economia é o fator principal, alimentada por uma corrupção impossível de erradicar e que atinge todas as cores políticas. Todo e qualquer político está à venda para seu benefício pessoal em primeiro lugar e benefício dos correligionários em segundo lugar. Só quando a roubalheira ou o acordo económico atingem níveis estratosféricos e são denunciados pelos adversários é que a vertente económica atinge o nível político. Acontece regularmente e só nessa altura intervém o Poder Judiciário, mas o Supremo Tribunal Federal não é cristalinamente independente, o que complica as coisas. Na prática, um político como Collor de Melo, ou Lula, ou Jaír Bolsonaro, ou qualquer outro, pode passar de herói nacional a presidiário condenado e preso de um dia para o outro, e novamente herói no dia seguinte. Esta fluidez de reputações, que nunca se sabe a 100% se são verdadeiras ou não, tornam o cenário político extremamente difícil avaliar.

Em 2011 Lula não se pode recandidatar por causa da limitação de mandatos e escolheu uma fiel, Dilma Rousseff. Que não se saiu muito bem, sobretudo por um enorme escândalo de corrupção na Petrobrás, a estatal de petróleo. Atacada sem mercê pela bancada BBB, acabou impedida (“empitched”)

Não é possível esquecer que quando foi do voto de impedimento, o então senador Jair Bolsonaro disse: “voto a favor, em homenagem a Brilhante Ustra. Ustra foi o militar que torturou Dilma durante a ditadura.

Dilma foi substituída por vice-Presidente, Michel Temer, “o vampiro”, (os brasileiros tem um grande humor a escolher diminutivos) que se arrastou até à eleição de 2012, sempre com a pecha de ter traído Dilma.

Na eleição de 2012 Lula não se pode candidatar, porque estava preso, acusado de corrupção. Essa pena seria posteriormente declarada nula.

Quem ganhou foi precisamente Jair Bolsonaro, um militar da reserva e ex-senador conhecido por ser uma autêntica cavalgadura. Há aqui uma história: o “bispo” Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, em 2008 escreveu um livro, “Plano de Poder: Deus, os Cristãos e a Política” onde mostrava os passos para os evangélicos formarem uma teocracia no Brasil. Como estavam divididos por vários partidos, e muitos nem tinham partido, Edir Macedo escreveu que era necessário um testa de farro facilmente manipulável. Quatro anos depois, Bolsonaro era a figura ideal. Governou os dois mandatos da lei, período de ouro para as ideias mais reacionárias e os movimentos BBB. Inclusive aproximou-se do Presidente Trump, que considerava um exemplo.

Em 2023, Lula, entretanto libertado das acusações que pendiam sobre ele, candidatou-se à Presidência e ganhou. Bolsonaro, inconformado, organizou a derrubada do Poder copiando o seu ídolo Trump; houve uma invasão popular do Palácio do Planalto, à semelhança do 6 de janeiro nos Estados Unidos, e acordos com alguns generais para criar o estado de sítio e anular a eleição. O plano falhou e Bolsonaro foi preso. Desta vez o Supremo Tribunal Federal, dirigido por Alexandre de Moraes, o “Chandrão” tinha provas mais do que suficientes e hoje Jair Bolsonaro está em prisão domiciliar por 27 anos e proibido de se candidatar.

A bancada BBB escolheu então o filho de Bolsonaro, Flávio, o “Filho Um” para concorrer contra Lula. (O “Filho Dois” está em Washington a fazer lobby junto de Trump e também foi condenado a).

A primeira volta das eleições será a 4 de Outubro e uma eventual segunda volta a 25 de Outrubro.

Lula concorre com Geraldo Alckmin, um político social-democrata histórico, e Flávio Bolsonaro com Alfredo Gaspar, ex-promotor de Justiça do Estado do Estado de Alagoas.

Como seria de esperar, além da violência verbal de uma campanha que separa nitidamente a esquerda e a direita, vão aparecendo “escândalos” destinados a desacreditar os candidatos. Lula tem um problema com o seu filho Lulinha, que se meteu numa negociata, o que levou Lula esta semana a mentir descaradamente na televisão, dizendo que não conhecia o sócio de Lulinha, quando há várias fotografias deles juntos.

Flávio quer fazer um Acordo com os Estados Unidos e diz que vai perdoar o pai. Está metido numa negociata com o banqueiro Daniel Vorcaro que eventualmente levará o STF a condená-lo. O juiz mais influente no STF, Alexandre de Moraes, o “Chandrão”, já teve várias disputas com interferências da Administração Trump.

As sondagens indicam Lula com 38% e Flávio com 35% no primeiro turno (há mais candidatos de fraca expressão),

E 44% para Lula e 43% no segundo turno.

Uma sondagem mostra Bolsonaro ligeiramente à frente.

Lula tem preponderância no Nordeste e Flávio no Sul e Centro-Oeste.

Em MinasGerais, considerado o Estado termómetro, a sondagem dá 46% a Lula e 44% a Flávio.

Dia 4 de Outubro, vai ser emocionante!

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