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Uma investigação da CNN expôs algo que deveria indignar qualquer pessoa com um mínimo de consciência: redes online onde milhares de homens partilham técnicas para drogar as próprias esposas ou namoradas, violá-las enquanto estão inconscientes, filmar o crime e distribuir os vídeos. E há quem faça disto negócio.
Sim, negócio.
Vídeos de mulheres drogadas e violadas circulam como mercadoria digital. Há fóruns onde se vende «líquido para dormir» por 150€ a garrafa, com o slogan de qualidade «A sua mulher não sentirá nada e não se lembrará de nada». Trocam-se conselhos sobre dosagens, métodos para evitar suspeitas e estratégias para gravar sem que a vítima descubra. Engane-se quem achava que Gisèle Pelicot era um caso isolado. Infelizmente, está longe de ser a única vítima deste tipo de violação.
É difícil escrever este texto sem sentir revolta. Porque a pergunta que não me sai da cabeça é simples: como é possível alguém sentir prazer ao ver uma mulher inconsciente ser violada? Que tipo de humanidade existe ali? Que tipo de desejo nasce da ausência absoluta de consentimento? Mas há outra pergunta que também precisa de ser feita: onde estão os homens indignados com isto?
Enquanto homem, abomino estes comportamentos criminosos. E acredito que outros homens também os abominam. Mas, se assim é, está na altura de o dizer claramente, de limpar a ambiguidade e os terrenos pantanosos do silêncio conivente.
Demasiadas vezes, quando se fala de violência sexual contra mulheres, surge o coro habitual do not all men. Pois bem: se não são todos os homens, então que essas vozes se façam ouvir agora: não para se defenderem, mas para condenar. Não podemos deixar que sejam apenas as mulheres a ficar chocadas com isto. Não podemos deixar que sejam apenas as vítimas a denunciar.
Reconheço o risco de citar Jackson Katz quando afirma que a violência contra as mulheres é fundamentalmente um problema dos homens, correndo o risco de centrar nos homens os holofotes. Mas a verdade é esta: temos de nos aliar às vozes indignadas, temos de tornar clara a repulsa masculina por estes crimes organizados. Sim, trata-se de um colossal crime organizado.
Porque, se esta notícia não revolta profundamente os homens, então temos um problema muito maior do que imaginamos.
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Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”.
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