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Foi um salto de fé do historiador e ex-dirigente do PSD achar que o debate iria servir para trazer André Ventura para o lado dos factos. O mote deste debate vem da frase proferida durante a intervenção de André Ventura na sessão solene dos 50 anos da Constituição de 1976, “pouco tempo depois do 25 de Abril havia mais presos políticos do que havia antes do 25 de Abril de 1974”
O problema é outro e talvez mais incómodo de admitir, os factos não são o motor do seu discurso nem aquilo que mobiliza o seu eleitorado. Numa cultura de pós-verdade basta um bom click-bait, como dizia Pacheco Pereira, “pode já começar a preparar o vídeo para o Facebook ‘André Ventura arrasa Pacheco Pereira’”.
A meio desta conversa, moderada pelo jornalista João Póvoa Marinheiro, na CNN Portugal, recorda-se a velha máxima: “nunca lutes com um porco, ficas todo sujo, e ainda por cima o porco gosta”.
Pacheco Pereira tinha pedido um debate sem ataques pessoais, centrado em dados. Mas o que começou de forma organizada rapidamente descambou em momentos de gritaria, interrupções e descontrolo. Faltou pouco para se ouvir a expressão usada pelo atual Presidente da República nos seus debates com Ventura: “Dá-me licença?”.
Enquanto Pacheco Pereira insistia nos números, Ventura optava pela retórica. Falou de “pala nos olhos”, acusando o historiador de ignorar o que aconteceu após o 25 de Abril e de “demonizar uma parte da nossa história”, enquanto elogia outra.
E é aqui que regressa a pergunta que já cansa: vale a pena discutir com um demagogo? Ou deveríamos todos seguir a estratégia de Ricardo Araújo Pereira (RAP), ignorar e responder apenas com humor?
É o chamado “pau de dois bicos”. Por um lado, por muito que se apresente como anti-sistema, o Chega faz parte dele. Está no parlamento, participa no jogo democrático e, por isso, não pode ser tratado como um elemento marginal.
Por outro, o comportamento em debate levanta dúvidas sobre essa pertença plena à “mesa dos adultos”. Interrupções constantes, tom elevado, risos deslocados, estratégias que desestabilizam o interlocutor e desviam a discussão. Num dos momentos mais reveladores, quando Pacheco Pereira referia os números de presos políticos antes do 25 de Abril, entre 30 mil e 40 mil, Ventura reagiu com um riso. “Está-se a rir?”, questionou o historiador. O semblante mudou de imediato, num recuo quase embaraçado.
No final, pode perguntar-se para que serviu este debate, as intenções de Pacheco Pereira eram claras e, em certa medida, nobres. Mas talvez tenha ignorado uma lição antiga, a de que a demagogia funciona precisamente porque não joga pelas mesmas regras. Como cantava Lena d'Água, “demagogia feita à maneira é como queijo numa ratoeira”.
Não é fácil, mas como apoiante da democracia saúdo a tentativa do historiador.
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