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Famosamente, a Índia é a maior democracia do mundo com 1.477 milhões de habitantes (mais 35 milhões na diáspora, que também podem votar).

Mahatma Gandi foi o principal responsável pela independência do país, com o seu movimento pacifista National Congress, que desde 1921 tentava convencer os ingleses a abandonar o país sem necessidade de luta armada. Aliás, a teoria de Gandi foi aplicada em vários casos no mundo, nomeadamente por Martin Luther King nos Estados Unidos da América (EUA).

Durante anos os ingleses responderam violentamente ao pacifismo de Ghandi e prenderam-no várias vezes, além de matarem muitos manifestantes. Até que, em 1947, não aguentaram a pressão de manifestações e desobediência civil, e entregaram a “Joia do Imperio Britânico” aos indígenas.

Imediatamente a Índia britânica dividiu-se em duas: a indú e a muçulmana, localizada no Paquistão e Bangladesh. Depois o Bangladesh separou-se do Paquistão, mas isso é outra história. Entretanto milhões de muçulmanos ficaram na Índia indú.

Mas Gandi não almejava apenas a independência: queria também abolir as castas, criar uma democracia parlamentar e modernizar os costumes do país (como os casamentos arranjados pelos pais.) Foi assassinado por um muçulmano logo em 1948, mas a família seguiu os seus projetos e produziu vários primeiros-ministros até ao assassinato de Indira Ghandi, em 1984.

Por um lado, liberalização económica e o progresso tecnológico modificaram o país, mas por outro a maioria dos indianos não sentiram essas modificações. As castas, oficialmente abolidas, continuaram a fazer parte dos costumes, e as oportunidades novas criaram um aumento da classe média, mantendo a pobreza endémica da restante população.

A Índia é uma sociedade repleta de contradições, criando milionários e uma classe de especialistas mais bem pagos, mas mantendo a desigualdade em relação à população agrária. Os indianos são inteligentes e abertos ao progresso; 4,5 milhões vivem nos Estados Unidos, muitos em funções de alta responsabilidade empresarial (Satya Nadela, CEO da Microsoft, Arvind Krishna, CEO da IBM, e Shantanu Narayen, Presidente e CEO da Adobe, são bons exemplos.) Fizeram-se muitos bilionários, como Noel Tata e Mukesh Ambani, donos de conglomerados na Índia e na Europa. (As Indústrias Tata são donas da Jaguar-Land Rover!)

Por outro lado, milhões de indianos prestam serviços on line a partir da Índia. Em termos de relações internacionais, a Índia mantem questões fronteiriças, muitas vezes com conflitos armados, no Paquistão e na China, e ocupa o estado de Caxemira. Durante anos considerou-se “não alinhada” no quadro das nações, mas recentemente aderiu aos BRICS, um grupo de economias “emergentes” que inclui o Brasil, China, Egito, Etiópia, Indonésia, Irão e Rússia.

A partir de 1990, a liberalização econômica criou uma grande classe média urbana que tornou o país numa das economias de mais rápido crescimento no mundo, aumentando a influência geopolítica no quadro internacional. Filmes, músicas e ensinamentos espirituais indianos desempenham um papel cada vez maior na cultura mundial. A indústria cinematográfica é a maior do mundo, à frente de Hollywood.

Mas o país também continua a apresentar uma pobreza aparentemente endémica, tanto no meio rural quanto no urbano, com violência religiosa e entre castas, grupos insurgentes de inspiração maoista e o sempre belicoso separatismo em Jamu e Caxemira A conflitualidade com os vizinhos levou à guerra sino-indiana de 1962, e guerras abertas com o Paquistão em 1947, 1965, 1971 e 1999.”

Narendra Modi, um político de direita (há quem o considere de extrema-direita) originário do Estado de Gujarate, fundou um novo partido, o Bharatya Janata, que em 2014 ganhou as eleições parlamentares nacionais e tornou-se Primeiro Ministro. O estilo e os métodos de Modi têm sido comparados a Viktor Orban: cooptação dos tribunais, pressão sobre a comunicação social e todas as características da “democracia iliberal”. Fortemente anti-muçulmano, tem hostilizado em permanência os 200 milhões de crentes em Alá que estão inseridos na Índia.

Há doze anos seguidos no poder (um recorde) Modi é considerado inamovível pelos outros partidos, não hesitando em recorrer aos métodos convencionais, como a prisão dos oponentes mesmo antes das eleições. Até agora parecia que a sua garra se apertava cada vez mais.

Até agora. De repente, vindo do nada, ou seja, de nenhum movimento legal ou ilegal, a juventude indiana irrompeu na cena nacional, num ápice, dando largas a um descontentamento que Modi desconhecia, ou, pelo menos, não dava importância.

Tudo começou quando o um juíz, durante uma audição do Tribunal Superior de Justiça, comparou os jovens desempregados com parasitas e baratas. Abhijeet Dipke, um estudante na Universidade de Boston, escreveu um post numa rede social a perguntar “E que tal se as baratas todas se juntassem?”

Um post entre milhares, curto a aparentemente inofensivo, que teve uma repercussão monumental em milhares de jovens. De tal maneira que Dipke fez páginas na Internet e nas redes sociais a propor satiricamente um “Partido das Baratas”, completo com um manifesto e o slogan: “O partido político de todos aqueles que o sistema se esqueceu que existiam!” A adesão foi tal que Dipke apanhou um avião para a Índia para participar nas manifestações espontâneas que explodiram em várias cidades. Imediatamente criou-se o Partido das Baratas (“Cockroach Janta party” em indú). No dia em que aterrou em Deli, Dipke participou numa manifestação em que disse: “A juventude deste país deixou de ter medo e vai lutar!”

Entre os jovens que se reuniram, rodeados por um forte contingente policial, muitos exprimiram a esperança que uma mobilização como as que derrubaram os governos de países vizinhos, o Nepal e Sri Lanka, conseguisse ganhar massa crítica para por em causa o Governo de Modi. “Os jovens já sofreram o suficiente!” disse uma jovem estudante da Universidade de Deli. Outro manifestante afirmou “Para o Governo podemos ser meros insetos, mas estamos vivos e prontos para lutar pelos nossos direitos!”

Em duas semanas a conta dos Baratas no Instagram já ia em 22 milhões de aderentes, mais que a do partido do Governo. Aliás, Modi tentou bloquear a conta, sem sucesso. As queixas dos jovens dirigem-se sobretudo ao sistema escolar e às dificuldades no mercado de trabalho. Segundo um estudo recente, quase 40% dos recém-formados não encontram emprego. E há um descontentamento geral quando à indústria “tóxica” do ensino particular (as velhas “explicações”) que consome mais dinheiro do que o gasto por todo o ensino público. Muitas famílias endividam-se a o ensino paralelo dos filhos, para obter os poucos empregos técnicos que o governo precisa. Este ano, mais de dois milhões de jovens competiram por 130 mil postos de trabalho.

A maioria dos protestantes reconhece que o “partido das baratas” tem pela frente um governo irredutível, um sistema judiciário parcial e uma repressão que não hesita em recorrer à violência. Resta saber o que poderá fazer no futuro próximo; manter os protestos (exige-se a demissão do Ministro da Educação) e/ou concorrer a várias eleições regionais, em 2027, até chegar às parlamentares, que estão a uma grande distância, Junho de 2029.

De qualquer modo esta situação reflete uma fraqueza inerente a todos os governos autocráticos; estão atentos à concorrência de outros partidos ou candidatos, mas esquecem-se do descontentamento das forças populares.

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