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Existe uma tendência persistente para apresentar medidas formulaicas como soluções quase mágicas. Músicas sobre «zonas do corpo», jogos em que as crianças têm de dizer onde podem ou não devem ser tocadas, dinâmicas alegadamente pedagógicas que prometem resultados rápidos e mensuráveis. São apelativas, fáceis de vender e tranquilizam adultos cuidadores. Mas falham no essencial: ignoram a complexidade da violência sexual contra crianças.

Aplicar estas estratégias no vácuo, como se a violência sexual fosse um evento claro e facilmente identificável, é um erro colossal. Um erro que peca pela simplificação de uma realidade profundamente complexa e que, simultaneamente, transfere para as crianças uma responsabilidade que nunca lhes pode pertencer: a obrigação de garantir a própria segurança numa potencial situação de abuso sexual, nomeadamente a de identificar um abusador e impedir o abuso. Isto não é apenas errado. É profundamente injusto.

Quando se afirma, mesmo que de forma subtil, que a criança «aprendeu» a dizer não, que conhece as regras do corpo ou que sabe distinguir toques bons de toques maus, constrói-se uma narrativa perigosa. Em caso de abuso sexual, esta narrativa pode agravar a experiência traumática, porque a criança não só foi vitimada como pode sentir que falhou em aplicar aquilo que lhe foi ensinado. Esta lógica está profundamente errada. Corrompe a noção básica de proteção e instala uma falsa sensação de segurança nas famílias: sensação essa que, paradoxalmente, pode aumentar a vulnerabilidade das crianças.

A violência sexual contra crianças não acontece, na esmagadora maioria dos casos, num cenário óbvio, violento ou imediatamente reconhecível. Acontece através de processos de manipulação longos, delicados, subtis e calculados. Quem abusa não se limita a seduzir a criança; seduz também os adultos cuidadores. Constrói uma imagem inofensiva, irrepreensível, muitas vezes exemplar. Torna-se confiável, disponível, prestável. É assim que chegam às crianças. Ignorar esta realidade nos programas de prevenção primária é fechar os olhos ao mecanismo central do abuso.

Associações de apoio especializado à vítima de violência sexual:

Quebrar o Silêncio (apoio para homens e rapazes vítimas de abusos sexuais)
910 846 589
apoio@quebrarosilencio.pt

Associação de Mulheres Contra a Violência - AMCV
213 802 165
ca@amcv.org.pt

Emancipação, Igualdade e Recuperação - EIR UMAR
914 736 078
eir.centro@gmail.com

Qualquer medida séria de prevenção primária tem, forçosamente, de trabalhar com pais, mães e outras pessoas cuidadoras. Tem de explanar como os abusadores operam, como conquistam confiança, como exploram fragilidades emocionais e contextos familiares. Tem de abordar, de forma clara e sem rodeios, os sinais a que os adultos devem estar atentos, os obstáculos que silenciam as crianças, as razões pelas quais tantas não partilham o abuso e o que fazer — antes, durante e depois — perante uma suspeita ou uma denúncia.

Isto exige tempo. Exige desconforto. Exige que os adultos se coloquem em causa e que se mantenham num processo constante de aprendizagem, reflexão e atualização de conhecimento. Basta pensar em como a violência sexual mediada por ambientes digitais alterou profundamente o panorama da violência sexual contra crianças para se perceber a insuficiência das respostas simplistas.

Talvez por isso seja tão tentador optar por soluções rápidas, coloridas e aparentemente eficazes. Mas a prevenção da violência sexual contra crianças não se faz num dia, numa conversa isolada ou numa atividade recreativa — não uso a palavra «lúdica» porque tenho sérias reservas quanto ao carácter verdadeiramente pedagógico de muitas destas práticas. A prevenção constrói-se num processo contínuo, que acompanha o crescimento e o desenvolvimento da criança, assente numa comunicação familiar efetiva, numa escuta real e numa responsabilização clara dos adultos e dos seus papéis.

As tais músicas e os jogos não são, por si só, o problema. O problema é apresentá-los como a solução. Podem, talvez — e a palavra-chave aqui é talvez — integrar um plano mais amplo, mais complexo e mais exigente. Podem ser uma pequena peça de um puzzle muito maior. Mas nunca — nunca — devem ser apresentados como respostas rápidas e eficazes, nem utilizados de forma a responsabilizar as crianças pela sua própria segurança. Ao fazê-lo, estamos a falhar com elas.

E repito, uma vez mais: nunca se deve responsabilizar as crianças. Nunca.

Pais, mães e pessoas cuidadoras que possam ler este texto: compreendo o apelo das soluções simples e o alívio imediato que prometem. Quando se vive com o medo — muitas vezes silencioso — de que algo desta natureza possa acontecer a uma criança, é humano procurar respostas claras, rápidas e aparentemente eficazes. É compreensível que a angústia leve a agarrar-se a propostas que prometem resultados rápidos e definitivos. Mas é precisamente essa angústia que torna os adultos mais vulneráveis às promessas fáceis e às respostas redutoras. A violência sexual contra crianças exige ser tratada com seriedade, profundidade e coragem.

Se ao longo deste texto pareço incomodado ou preocupado, é porque estou. Falar sobre violência sexual contra crianças carrega um peso enorme. E quando este tema é abordado a partir de um lugar de autoridade, esse peso torna-se ainda maior, porque implica uma responsabilidade acrescida: a de não enganar, não simplificar e não vender falsas seguranças. O problema surge quando essa responsabilidade é traída — com ou sem intenção — e quando isso acontece, não estamos apenas a falhar enquanto sociedade: estamos a colocar crianças em risco. E isso não é aceitável. Nunca.

Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”

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