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Quem se preocupa com o que se passa no subcontinente – aparentemente só eles próprios e os Estados Unidos – o que não faltam são situações complicadas.
A Venezuela vive presentemente num estatuto político original e difícil de definir; o Presidente está preso em Washington, a vice-Presidente faz o que os norte-americanos disserem e o regime chavista continua oficialmente no poder, embora não tenha poder algum.
Cuba mantém o seu regime comunista intacto, mas tem carências insuportáveis (inclusive água, eletricidade e material médico) e os norte-americanos estão a exercer uma pressão máxima para que o regime mude, mas não se atrevem a invadir (especialmente depois do fiasco do Irão).
Estes dois países não têm eleições; mas naqueles que têm, Bolívia, Colômbia e Peru, as eleições não resolvem nada, porque os candidatos não parecem dispostos a perder.
Na Colômbia, a eleição não deu resultados nítidos e será repetida no dia 21 deste mês. Há um candidato de direita radical, Abelardo de la Espriella, admirador de Trump, e outro da esquerda radical, Iván Cepeda, aliado do Presidente ainda em exercício, Gustavo Petro. A campanha teve de tudo, inclusive ataques com drones, raptos e homicídios. Na eleição de domingo nenhum dos candidatos conseguiu os 50%+1 necessários para ganhar e Petro convocou o Supremo Tribunal para verificar os resultados, ao mesmo tempo que marcava novas eleições.
Cepeda foi quem organizou o acordo histórico entre o Governo e as forças da FARC, em 2016, que levou ao desarmamento dos guerrilheiros e eleições. Quem ganhou foi Petro, que defende cessar-fogos e conversações em vez de luta armada e manteve o país relativamente calmo durante dez anos. Mas a produção de cocaína aumentou, assim como as escaramuças nas fronteiras relacionadas com o tráfico. Espriella quer acabar com esta situação, atacando diretamente os traficantes – pelo que tem o apoio dos norte-americanos. Ou seja, a situação geral é a mesma desde sempre: um esquerdista a favor do tráfico e um direitista contra o tráfico (o que não quer dizer que não beneficie com ele.) A questão é que a Colombia é o maior produtor mundial de cocaína; não é preciso dizer mais nada.
No Peru as eleições para Presidente e Congresso decorreram no dia 7 e, como os resultados não cumpriram os mínimos legais, serão repetidas este fim de semana. O cenário esquerda-direita é muito semelhante ao da Colombia, com Keiko Fugimori (filha do antigo Presidente Alberto Fugimori) pela direita e Roberto Sanchez
pela esquerda. A diferença entre os dois foi de 650 votos num universo de 18 milhões de eleitores. Sanchez prometeu que, caso seja eleito, libertará o ex-presidente Pedro Castillo, detido quando preparava um golpe parlamentar, em 2022. É preciso lembrar que o Peru teve oito presidentes nos últimos 10 anos.
Na Bolívia, as eleições decorreram no final de Março, para eleger 9 governos e assembleias legislativas departamentais e mais 335 câmaras municipais. O interessante é que o país esteve mais de 20 anos nas mãos do Movimento para o Socialismo (MAS), de Evo Morales, que finalmente perdeu as eleições presidenciais de 2025.
Esta derrota desestruturou todos os equilíbrios políticos do país. A política tornou-se local, devido ao peculiar sistema boliviano, que se assemelha a um estado federal, como os governos estaduais bastante fortes. A derrota do MAS levou ao surgimento de mais partidos e forças de influencia – mais democracia, sem dúvida, mas também muita confusão no desmantelamento de uma oligarquia de
vinte anos. Durante a vigência do MAS os eleitores na prática só tinham duas possibilidades: votar Morales ou votar quem tivesse mais hipóteses de derrotá-lo.Agora tem uma grande quantidade de possibilidades. O país entra assim numa nova fase política que durará garantidamente até às próximas presidenciais, em 2030. Ainda é cedo para saber as consequências da queda do MAS, mas as perspetivas são otimistas.
Enquanto no mundo em geral a existência de eleições é motivo de alegria (desde que sejam eleições verdadeiras, como as nossas), na América do Sul é uma situação preocupante!
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