Acompanhe toda a atualidade informativa em 24noticias.sapo.pt
Comecemos pelo pior. Imagine um pedófilo a violar um bebé recém-nascido. A imagem é dantesca, quase insuportável, mas infelizmente é real. É difícil não associar a este abusador sentimentos de nojo, repulsa e horror. Talvez por isso seja tão comum ouvirmos chamar-lhes monstros. Porque queremos acreditar que os seus atos pertencem a uma categoria desumana, distante de tudo aquilo que reconhecemos como concebível e normal.
Agora pense no seu pai. No seu irmão. No seu companheiro ou no seu melhor amigo. Pense nesses homens de quem gosta profundamente e imagine que alguém os acusava de abuso sexual de crianças ou de violação. Qual seria a sua primeira reação?
«O meu pai nunca seria capaz disso.»
«O meu irmão jamais faria uma coisa dessas.»
E é precisamente aqui que reside o problema.
Conciliar a imagem do «monstro» com a de alguém que amamos e conhecemos intimamente é, para muitas pessoas, impossível. Existe uma dissonância cognitiva poderosa que nos impede de unir duas realidades aparentemente inconciliáveis. Porque o nosso pai, irmão ou melhor amigo não encaixa na imagem mental que construímos de um abusador sexual.
Mas a realidade raramente corresponde aos monstros caricaturais que imaginamos.
É precisamente neste ponto que quero insistir: os abusadores são, na sua esmagadora maioria, homens socialmente integrados. Basta olharmos, por exemplo, para as profissões das dezenas de homens que violaram Gisèle Pelicot. Entre eles havia enfermeiros, bombeiros, guardas prisionais, jornalistas, funcionários administrativos, lojistas e muitos outros. A lista é longa. Tinham entre pouco mais de 20 e mais de 70 anos. Muitos eram casados, tinham filhos e viviam perto da casa dos Pelicot.
Se olharmos para as parangonas das notícias nacionais, encontramos o mesmo padrão repetidamente: tios que abusam de sobrinhos, pais, avôs, docentes, educadores, padres, médicos, treinadores. Ou seja, quem abusa sexualmente são, quase sempre, pessoas próximas das vítimas, e não figuras marginais escondidas num qualquer submundo obscuro de onde só saem para cometer estes crimes.
E talvez seja precisamente isso que mais nos perturba: saber que quem abusa são, na maioria dos casos — sem nunca ignorar as mulheres que também abusam — homens comuns, socialmente integrados, com profissões variadas, relações, filhos e vidas aparentemente banais.
Por isso, talvez esteja na altura de começarmos verdadeiramente a escutar as vítimas que, com uma coragem imensa, denunciam. Escutá-las com atenção, respeito e a dignidade que merecem, em vez de corrermos imediatamente para a defesa do alegado abusador porque temos dificuldade em conciliar a imagem dessa pessoa com a ideia do tal «monstro».
Porque, ao mínimo impasse, perdemos a vítima. Deixamo-la desamparada. Transmitimos-lhe que não acreditamos nas suas palavras, na sua dor, na sua história e no seu trauma. E, ao fazê-lo, acabamos muitas vezes por proteger mais a reputação do alegado agressor do que o sofrimento de quem denuncia.
Se continuarmos por este caminho, estaremos inevitavelmente a silenciar vítimas que gostariam de quebrar o silêncio, mas que continuam entorpecidas pelo medo de não serem acreditadas.
Talvez esteja mais do que na altura de começarmos, finalmente, a colocar as vítimas no centro da conversa.
—
Ângelo Fernandes é o fundador da Quebrar o Silêncio — a única associação portuguesa de apoio especializado para homens e rapazes vítimas e sobreviventes de violência sexual —, autor de “De Que Falamos Quando Falamos de Violência Sexual Contra Crianças?”, um livro sobre prevenção do abuso sexual de crianças, e do romance “Neblina”.
___
A sua newsletter de sempre, agora ainda mais útil
Com o lançamento da nova marca de informação 24notícias, estamos a mudar a plataforma de newsletters, aproveitando para reforçar a informação que os leitores mais valorizam: a que lhes é útil, ajuda a tomar decisões e a entender o mundo.
Assine a nova newsletter do 24notícias aqui.
Comentários