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Não vale a pena tecer considerações sobre os conflitos que afligem o Médio Oriente (e o mundo, todo o mundo), porque as decisões dos envolvidos – Irão, Estados Unidos, Israel, Líbano, Hezbolah, e outros – têm mudado continuamente. Por exemplo, neste momento (sábado, 18 Abril, dezassete horas em Portugal), o Irão tem o estreito de Ormuz fechado, 20 minutos depois dos Estados Unidos o declarar aberto. Há uma trégua de 10 dias entre Israel, Líbano e Hezbolah, que pode ser interrompida antes de acabar estes comentários. Não só as decisões mudam à velocidade da luz, como os motivos para as tomar mudam constantemente. Além disso, há outras partes, como por exemplo a NATO, ou os países europeus, ou a China, também fazem afirmações efémeras como se fossem definitivas.
Oficialmente, decorrem vários conflitos, um entre Irão e Estados Unidos, outro entre Irão e Israel, mais um entre Israel e o Líbano, entre Israel e o Hezbolah e entre os países do outro lado do Golfo e os iranianos. Os países europeus oferecem-se para várias operações, como ajudar a desminar o estreito de Ormuz, enquanto a NATO insiste que não é parte interessada e discorda dos Estados Unidos, que se queixam que a Aliança não está a fazer o que devia.
Para dar sal a esta receita com vários sabores, o que cada um dos intervenientes diz pode não corresponder ao que pensa e quer.
Neste momento chega a notícia de que o Irão acaba de bombardear um petroleiro inglês, logo a seguir a fechar o estreito, que esteve aberto durante uma breve trégua entre americanos e iranianos.
Trump está a dizer: “Acabo de receber um pedido de ajuda da NATO, sendo que a NATO não nos ajudou quando precisávamos.”
As IDF acabam de bombardear vários locais no Sul do Líbano, interrompendo de facto o cessar-fogo, para ripostar a uma quebra do cessar-fogo pelo Hezbollah.
Está a acompanhar? Eu também não estou, apesar de ouvir notícias continuamente desde hoje de manhã, não, desde ontem de
manhã, não, desde a madrugada de 28 de Fevereiro. Há cerca de 500 navios parados no estreito, sem saber exatamente se devem andar para a frente ou para trás. Isto porque os Estados Unidos estão a fechar o estreito, enquanto o Irão o está a abrir para navios “neutros”, desde que paguem dois milhões de dólares. Há também mal explicados, como o Líbano, onde o Hezbolah é “hóspede” e simultaneamente também tem 15 deputados libaneses e controla várias instituições do país (inclusive um jornal e um canal de televisão).
Por outro lado, Trump já anunciou várias vezes que ganhou a guerra e que o Irão mudou de regime – uma vez que matou todos
os dirigentes “velhos” do país, os novos dirigentes já são outro regime. Como também já tinha dito várias vezes que destruiu toda a marinha, força aérea e plataformas de rocket do Irão, mas continuam a aparecer navios, aviões e plataformas a bombardear os países do outro lado do canal. As afirmações constantes e contraditórias de Trump (feitas na Sala Oval ou à porta do seu avião).
A situação entre paz e guerra tem várias etapas. Primeiro, há o cessar-fogo; estão em guerra, mas não se atacam. Se o cessar- fogo se mantém (o que acontece raramente) passa-se para as negociações: os beligerantes encontram-se num terceiro país, neutro, que participa como árbitro entre as partes. Os contendores apresentam as suas condições para a paz, geralmente opostas e inaceitáveis. Por exemplo, os Estados Unidos querem que o Irão deixe de enriquecer urânio para um nível militar e lhes dê os 400 quilos (600 quilos) que já fabricou. O Irão quer que os Estados Unidos libertem os milhões de dólares iranianos que estão retidos em bancos de todo o mundo.
Estas conversações EUA/Irão que decorrem em Islamabad (com o Paquistão como árbitro) tiveram uma maratona de 22 horas em que não houve qualquer acordo, pelo que está prevista outra maratona para segunda feira, onde se espera que as partes consigam acordar pelo menos num dos pontos (os americanos apresentaram 15, os iranianos 10).
Enquanto estes rituais decorrem, os 20% do petróleo mundial e mais outros bens de primeira necessidade, estão parados nos
navios no golfo, o que tem provocado subidas e descidas de valor conforme “parece” que há acordo em alguma coisa. Este efeito atinge todos os países do mundo – pensa-se que em Portugal os aumentos de combustível poderão ser de 20% ou 80%, num período por calcular. O transporte aéreo também tem sofrido, pela expectativa de falta de jet-fuel. O turismo muda-se dos países na zona de risco para outros mais afastados. Em geral, todos os produtos aumentam, porque são todos transportados de alguma maneira que exige combustível.
Há várias espectativas quanto à duração e valor dos aumentos, conforme a esperança de resolução dos conflitos – quer dizer,
passarem do cessar-fogo periclitante para uma paz igualmente periclitante.
Todos concordam que levará pelo menos três meses para se passar do cessar-fogo para a paz entre os EUA e o Irão, mas não há
previsão para Israel e Hezbolah. É preciso lembrar que os objectivos militares israelitas e norte-americanos não coincidem, pelo que uma paz não implica a outra.
É melhor dedicarmo-nos a outros assuntos enquanto esta palhaçada decorre, e recomendo fortemente não assistir a mais do
que um noticiário diário, para evitar ansiedade e mesmo esquizofrenia. Também podemos aproveitar o noticiário para saber
quantos milhares de drones voaram entre a Federação Russa e a Ucrânia.
Olha, o Trump está a falar outra vez, com uma expressão nova: “enforced regime change”.
Desta vez não falou da disputa pessoal entre ele e o Papa Leão XIV, que começou quando o chefe da Igreja comentou em abstrato que “Deus não está do lado dos agressores”. Até J.D.Vance já comentou o assunto, dando uma lição de teologia a Leão XIV em que citou uma passagem da Bíblia que não existe; foi retirada duma cena do filme “Pulp Fiction”. Mas isto é outra história, que pode ficar para a semana.
Até lá, o caro leitor já tem com que se entreter.
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